sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Outro Lado Dos Sistemas 1 - A cega inserção

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado da Moeda 9
Autor: Gustavo Spina

Um SISTEMA, de acordo com o dicionário da língua portuguesa, é definido como “reunião dos elementos que, concretos ou abstratos, se interligam de modo a formar um todo organizado” ou ainda “modo de organização ou de estruturação administrativa, política, social e econômica de um Estado”. Como vimos na série de textos lógica e cronologicamente antecessora a esta, intitulada com o mesmo nome deste blog: “O Outro Lado da Moeda” e composta por nove textos; o mundo em que vivemos é composto de diversos sistemas, muito bem instalados e definidos. Devido ao fato de estarem em vigor há muito tempo, nos passam a impressão de naturalidade e necessidade de existência, fenômenos que nos mostram o quanto profunda e cegamente somos inseridos, desde que nascemos, nos principais sistemas que compõem o mundo.

Quanto à afirmação sobre o mundo ser feito de sistemas, não podemos deixar qualquer rastro de dúvidas, antes de iniciarmos nossas discussões, que se prolongarão por este e pelos próximos textos desta série. Baseando-se na PRIMEIRA definição de um sistema, retirada de um dicionário e mostrada no parágrafo anterior, podemos iniciar este texto fazendo algumas inferências interessantes. O ser humano é um ser biologicamente social, o que em outras palavras significa que é natural que nós vivamos em sociedade, característica biológica esta que herdamos de nossos ancestrais primatas. A partir daí, a construção de alguma forma de sociedade, assim como de fato aconteceu em nossa história evolutiva, seria uma necessidade, pois com a infinita variedade de relações sociais que surgiriam, não haveria outro modo senão convencionar padrões, avaliações, classificações e punições para cada uma delas.

Deste modo, a própria construção da sociedade pode ser considerada como a construção de um sistema, pois nada mais é do que uma “...reunião de elementos que se interligaram de modo a formar um todo organizado...”. Entretanto, quanto mais o ser humano evoluía, e mais numeroso ficava, mais amplas e complexas tornavam-se nossas relações sociais e, por conseguinte, nossa sociedade; havendo assim a necessidade de uma compartimentalização deste grande sistema em um punhado de sistemas menores.

Estes sistemas menores seriam responsáveis por cuidar cada qual de uma grande vertente social diferente, nos proporcionando uma maior facilidade de realização, desta forma, do processo de organização e estruturação da sociedade como um todo. Novamente, por ser este um processo natural, e por enxergarmos esta real necessidade de simplificação na construção de nossas sociedades no passado, estes sistemas foram, de fato, criados por nós, em nossa história, o que nos levou da primeira à SEGUNDA definição de sistema, mostrada no parágrafo inicial, pois agora tínhamos um “...modo de organização ou de estruturação administrativa, política, social e econômica...”.

Ou seja, ao longo de nossa história, nós agrupamos todas as nossas relações sociais na construção de uma sociedade e, com o aumento populacional e da complexidade destas relações, nós a dividimos em diversos sistemas. Na prática, podemos ver, através dos livros de história, que estes sistemas menores foram se modificando e, após diversas mudanças, chegaram ao formato o qual conhecemos hoje, sendo os sistemas político, monetário e capitalista os três principais que compõem o mundo de hoje, e os quais vamos analisar em toda esta série de textos.

É evidente também que, há milhões de anos, com a imensidão territorial do planeta Terra, o surgimento das primeiras sociedades se deram isoladamente, por toda parte, até que finalmente conectamos umas às outras, mas não perdendo suas individualidades, caracterizada pela divisão territorial de países, a qual vivenciamos hoje. Isto, de forma bastante óbvia, explica também a pluralidade de culturas, crenças, línguas, entre outras características existentes em todo o globo. Vale ressaltar também que os principais grandes sistemas que compõem o mundo de hoje, já citados há pouco, são também compartimentalizados em diversos subsistemas, devido à complexidade inimaginável da sociedade atual e, por conseguinte, de cada um deles.

Neste ponto do texto, para o leitor que estiver bastante inteirado, pode ter surgido uma pergunta muito pertinente, que tornará nossa discussão ainda mais interessante: então nossa atual sociedade, composta pelos atuais sistemas, é uma consequência natural a qual chegaríamos, de qualquer forma? Bem, a resposta para esta questão é tão absoluta e importante, que tomei a liberdade de separar o próximo parágrafo inteiro apenas para ela.

NÃO.

Não podemos negar que existem, de fato, diversos sistemas naturais. Isto é um tanto quanto óbvio: o próprio universo, com toda sua imponência, nos dá diversos exemplos, como os incontáveis sistemas solares existentes. E nem é preciso ir tão “longe” assim, afinal, nossos corpos possuem diversos sistemas naturais, como o digestivo, respiratório, nervoso, entre outros. Adicionando agora a interferência humana, devemos ter um pouco mais de cuidado, para podermos entender o porquê minha resposta foi negativa.

O fato de criarmos uma sociedade, a partir da necessidade de organização de nossas relações interpessoais, veio de características biológicas naturais de nós seres humanos, assim como sua divisão em sistemas menores, a partir do inevitável aumento populacional e complexidade de nossas relações, consequências evolutivas naturais, como já citado anteriormente. Portanto a criação de uma sociedade e sua divisão em sistemas menores é sim uma consequência natural, a qual chegaríamos de qualquer maneira, MAS ISSO NÃO SIGNIFICA (e esta é talvez a parte mais importante deste texto) QUE OS SISTEMAS CRIADOS DEVAM SER EXATAMENTE ESTES QUE ESTÃO HOJE EM VIGOR.

Esta questão, que supus que algum leitor muito atento teria em sua cabeça, na verdade está respondida, intrinsecamente, na cabeça da maioria de nós; mas não da forma negativa e correta, como acabamos de concluir juntos, e sim de forma positiva e incorreta. Ao olharmos à nossa volta enxergamos uma sociedade tão bem definida e consolidada, em um funcionamento tão ininterrupto e imutável, que sequer conseguimos associa-la a algo criado por nós mesmos, associando suas grandes e principais vertentes a algo tão natural quanto a existência de uma árvore, ou do ar que respiramos. Esta errônea associação, que temos escondida em nossas cabeças, é exatamente a impressão de naturalidade que estes sistemas nos passam, por serem muito anteriores à nossa existência.

A segunda característica a ser discutida neste texto é a da necessidade de existência. Além da falsa impressão de naturalidade que o mundo de hoje nos passa, nós também temos, intrinsecamente em nossas cabeças, a sensação de que não há outra forma, não há outro modo como o qual o mundo funcione, senão justamente este que estamos vivendo. Não conseguimos pensar na possibilidade de uma sociedade regida por outras leis, valores ou convenções sociais diferentes; não conseguimos sequer imaginar como seriam nossas vidas sem a existência do dinheiro, por exemplo. Não acreditamos, também, que possa haver uma mudança global tão significativa, que mude a tudo e, quando somos apresentados a qualquer nova proposta que difira dos padrões dos atuais sistemas, ignoramos, ou tratamos como algo completamente utópico, nos esquecendo de que, além de ser uma construção humana, a sociedade nem sempre foi assim, e foi justamente através de grandes mudanças globais, que chegamos nestes padrões que vivenciamos hoje.

Isto tudo se deve ao fato de que estamos muito profundamente inseridos nos atuais sistemas, no sentido de que eles tangem praticamente tudo o que nós vivemos, quase todos os minutos de nossas vidas. Nós perdemos nossa capacidade de imaginar um mundo sem dinheiro justamente porque, inseridos no sistema monetário, não podemos fazer quase NADA sem dinheiro. Nós perdemos o senso de compartilhamento de bens, ou a capacidade de realizar doações sem esperar nada em troca justamente porque, inseridos no sistema capitalista, não podemos nos dar bem sem o acúmulo individualista de bens e de capital. Nós perdemos nosso senso de plena igualdade, e não nos reconhecemos como uma parte importante de um conjunto justamente porque, inseridos no atual sistema político, nós somos divididos, hierarquizados, e vivemos acatando ordens de outros seres humanos que se autodenominam superiores uns aos outros.

E a inserção dos indivíduos nestes sistemas são tão profundas, que os valores morais do todo, são constantemente confundidos com os valores morais dos indivíduos. Não raramente, ouvimos pessoas dizerem que somos naturalmente individualistas, gananciosos e que buscamos, desenfreadamente, o poder, de forma natural; sem perceber que estes e muitos outros valores só estão em nós devido ao fato de sermos bombardeados com as regras, restrições e obrigatoriedades destes sistemas, que não nos dão outra escolha a não ser nos adaptarmos à eles, desde que nascemos.

Fazendo um adendo ao que foi dito no último parágrafo, podemos entrar no outro lado de uma interessante e clássica discussão filosófica, que questiona se é o indivíduo que faz o meio, ou o meio que faz o indivíduo. Levando para o lado social, o qual estamos tratando neste texto, podemos adequar a questão – é o indivíduo que faz a sociedade, ou a sociedade que faz o indivíduo? – e respondê-la de uma forma bastante peculiar: OS DOIS!

Como foi discutido no decorrer deste texto, a criação de uma sociedade, no sentido de basicamente organizar e convencionar nossas relações sociais, é algo natural, mas não deixa de ser uma criação humana. Desta forma, primeiramente nós criamos uma forma de sociedade, ou seja, o indivíduo fez a sociedade. Em contrapartida, com a atual configuração que a sociedade de hoje se encontra, com seus sistemas tão bem definidos e instalados, como também já foi discutido no decorrer deste texto; os indivíduos que nela nascem são completamente moldados pelo meio em que vivem, devido às cargas cultural e social milenares despejadas em suas cabeças, ou seja, a sociedade faz o indivíduo. Portanto, a resposta para este clássico dilema filosófico é positiva para ambos os casos, evidenciando que a diferença se encontra na cronologia de ambas as situações, quando primeiro o indivíduo cria o meio, e então este meio passa a criar os outros indivíduos.

Com isto, nossa discussão introdutória chega ao fim, nos deixando alguns conceitos e ideias importantes para as discussões posteriores. Agora que percebemos o quão cegamente estamos inseridos nos principais e grandes sistemas que regem o mundo em que vivemos hoje, descobrindo a falsidade da impressão de naturalidade e da necessidade de existência que temos intrinsecamente em nossas cabeças, evidenciando que eles são apenas uma criação humana e que NÃO são uma consequência natural a qual chegaríamos de qualquer forma, podemos analisa-los de forma correta. Nos próximos textos, vamos analisar suas características de forma a separar, cada vez mais, o indivíduo deste meio, desta sociedade, enxergando que, de fato, esta configuração social está longe de ser correta, de ser a melhor, ou de ser este o único modo de vivermos em sociedade; para enxergarmos o outro lado dos sistemas, ou melhor, OUTRO LADO DA MOEDA.

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