quinta-feira, 19 de julho de 2018

10 centavos - A religião é a questão - Parte 1

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina


Uma das marcas mais evidentes de qualquer religião são suas afirmações construídas sem base em fatos. Em toda e qualquer religião, nós encontramos diversas alegações a respeito do mundo ou de acontecimentos passados e futuros, as quais não se baseiam em fatos e evidências sólidas, mas apenas na confiança que se tem na fonte de tais informações ou, no máximo, em fracas e controvérsias evidências principalmente históricas. Esta característica é comum a toda religião pois é exatamente isto que define um sistema de crença como tal, e isto se deve à existência da fé, cuja definição já foi apresentada e amplamente discutida por nós em muitos textos por aqui.

Com todos os assuntos acerca da religião já discutidos em outros textos, já temos suficientemente evidenciado a fragilidade e o relativismo em crer em afirmações que se baseiam inteiramente ou em grande parte na fé, além da baixíssima probabilidade dessa afirmação estar correta, caso isso seja possível. Por isso, o escopo deste texto não é discutir novamente sobre as afirmações em si, sua validade e probabilidade de ser verdadeira, mas sobre se elas atingem seu propósito, seu objetivo.

O objetivo de tais afirmações é, em sua maioria, prover uma resposta a alguma questão relativa a humanidade, aos seres vivos, ao universo; questões particularmente complexas que, ou o intelecto humano ainda não conseguiu desenvolver uma resposta, ou a resposta que temos é de tamanha complexidade que torna a compreensão muito difícil. Para estes casos, a religião aparece como um verdadeiro milagre, matando nossas mais inquietantes dúvidas com afirmações simples e diretas. Será? Nos próximos parágrafos nós vamos então descobrir se estas afirmações realmente respondem as questões, cumprindo seu propósito, ou se apenas geram ainda mais dúvidas acerca do tema inicial. Para uma melhor fluidez em nossa discussão, uma vez que estamos situados em um país de maioria cristã, utilizaremos exemplos especificamente do cristianismo, fazendo uso das argumentações do Dr. William Lane Craig, um dos maiores apologéticos cristãos da atualidade, filósofo e teólogo especializado em filosofia da religião, metafísica e filosofia do tempo. [1]

Nesta primeira parte, vamos investigar questões sobre as próprias alegações religiosas, a fim de analisar como a religião se sai tentando explicar a si mesma, respondendo questões acerca de suas próprias afirmações.


Questão 1 – Podemos confiar nas experiencias religiosas? [2]

Resposta dada por Craig: “Os filósofos reconhecem que existem um grande número de crenças que nós não podemos provar como verdadeiras, mas que independente disso todos nós aceitamos, agindo racionalmente ao assim fazer, pois elas estão fundamentadas em nossa experiência. Exemplos seriam a realidade do mundo externo, ou a realidade do passado. Quando você pensa nestas coisas, você não pode provar nenhuma destas duas crenças. Não há como provar que você não é um cérebro dentro de um tanque cheio de elementos químicos, ligado por eletrodos que estão sendo estimulados por alguns cientistas maléficos, para que você pense que está nesta sala vendo estes objetos, que eu estou realmente aqui. Não há nenhuma forma de saber que o mundo não foi criado há cinco minutos atrás, que nós não fomos criados com aparência de idade e com traços de memória em nosso cérebro de eventos que nunca aconteceram, com comida em nosso estômago que nós nunca comemos. Então você não pode provar evidencialmente a realidade do mundo externo ou a realidade do passado, embora claramente estas sejam crenças racionais que todos nós temos, e seria loucura, literalmente, se nós acreditássemos que o mundo foi criado há cinco minutos atrás ou que nosso cérebro está num tanque. Os filósofos chamam estas crenças de “crenças propriamente básicas”. Elas são parte do fundamento do sistema de conhecimento de uma pessoa. Mas estas crenças parecem ser arbitrárias – elas estão fundamentadas em nossa experiência. No contexto de ver, ouvir e tocar coisas eu formo naturalmente a crença de que existe um mundo externo de objetos físicos que são reais. E eu estou agindo racionalmente ao abraçar estas crenças na ausência de qualquer razão para pensar que elas não são confiáveis. A não ser que o cético possa me apresentar algumas boas razões para que eu pense que eu sou um cérebro em um tanque, ou que estas crenças básicas não são confiáveis, eu estou em meus perfeitos direitos racionais em reter essas crenças. Agora eu argumento que de forma similar a crença em Deus é propriamente básica para aqueles que genuinamente conhecem Deus. Eles têm uma experiência imediata de Deus como uma realidade objetiva, que dá testemunho através do seu Espírito de que eles estão em uma relação com Ele e que eles O conhecem. E na ausência de algum invalidador, alguma razão para acreditar que estas experiências são ilusões, você está em seus perfeitos direitos em prosseguir com esta experiência e acreditar que estas experiências são verídicas, isto é, são uma realidade objetiva.” [3]

Bem, ao desenvolver sua linha de pensamento, Craig basicamente afirma que a crença em Deus (o deus cristão descrito na Bíblia) é uma crença propriamente básica, o que, no começo de sua argumentação, define como “parte do fundamento do sistema de conhecimento de uma pessoa” uma crença que está “...fundamentada em nossa experiência...” e relaciona estas experiências com o “...ver, ouvir e tocar coisas...”.

O que ele não menciona neste ponto, e considero isso seu erro mais grave nesta resposta, é que nossas crenças propriamente básicas não se fundamentam apenas em nossos sentidos, longe disso, ele deixa de mencionar justamente as evidências! Nossos sentidos primários, como ver ouvir e tocar, são amplamente conhecidos como falhos e pouco confiáveis. Não acreditamos que nossos ossos são brancos ou que nosso Sistema Solar é composto por uma estrela e oito planetas apenas porque algumas pessoas viram e tocaram ossos, ou porquê há muitos relatos de avistamento do Sol e de alguns planetas próximos da Terra. Há muitas outras formas de confirmar estes dois fatos: vídeos, fotografias, telescópios, microscópios, espectrômetros, entre milhares de outros instrumentos utilizados para identificação de cores e catalogação de planetas e estrelas. Além disso, existe uma carga de milênios de acúmulo de conhecimento físico, químico, matemático etc. do Universo pela humanidade, que corrobora com estas duas afirmações.

De fato, não podemos provar filosoficamente que todos estes planetas realmente existem, ou que nós existimos e nossos ossos são brancos, mas temos evidências, teorias e conhecimento sobre o Universo e a maneira como ele funciona o suficiente para suportar e validar estas alegações. Por outro lado, a crença em Deus sim é totalmente baseada, como Craig exemplificou, em nossos sentidos. Não há, em todo o conhecimento acumulado pela humanidade desde o seu princípio, uma única evidência ou ao menos outro método ou meio pelo qual possamos confirmar que esta alegação é verdadeira que não for pela experiência pessoal de cada um através de seus sentidos básicos; e ela tampouco se encaixa com o conhecimento que temos acumulado, que tão bem explica a quase tudo. Diferentemente do que disse ele em sua conclusão, existem sim muitas razões para acreditar que estas experiências que ele citou são ilusões.

Dessa forma, sua argumentação se torna falaciosa, pelo simples motivo de ser construída em torno da ideia de que a crença em Deus é uma crença propriamente básica e, como vimos, isto não é uma verdade. Além disso, desta resposta, podemos gerar ainda mais questões:

  1. Uma vez que estas crenças são arbitrárias e fundamentadas em nossa experiência, como ele afirmou, se a minha experiência for com um deus diferente do deus cristão, ela será válida da mesma forma? 
  2. Se sim, então ambas as experiências garantem que nossas crenças, distintas, são igualmente válidas? 
  3. Se sim, como isso é possível? Mais de uma verdade absoluta coexistem? 
  4. Se não, o que garante a validade de uma ou de outra? 
  5. O que é “genuinamente conhecer Deus”? 
  6. O que é uma “experiência imediata de Deus”, e como experimentá-la? 
  7. Depende apenas de mim ter uma experiência dessas? 
  8. Como sei se foi realmente uma experiência ou se foi algo imaginado? 
  9. O que é Espírito? 
  10. Como todas estas teorias se encaixam com todo o conhecimento humano acumulado em toda a nossa existência? 

De fato, esta resposta além de não responder à pergunta, ainda abre no mínimo outras dez questões complexas, que com certeza, em alguma tentativa de resposta, cada uma delas gerariam ainda mais questionamentos, aumentando nossas dúvidas de maneira exponencial.

Vamos analisar agora outra questão.


Questão 2 - Quando Jesus morreu na cruz, Deus morreu? Se sim, a essência de Jesus verdadeiramente morreu? [Questão enviada a Craig por um fã]. [4]

Resposta dada por Craig: “O Concílio de Calcedônia declarou que o Cristo encarnado era uma pessoa com duas naturezas, uma humana e outra divina. Isto gerou consequências muito importantes. Isto implica que, uma vez que Cristo existia antes de sua encarnação, ele era um ser divino antes de falarmos sobre sua humanidade. Ele foi e é a segunda pessoa da Trindade. Na encarnação, esta pessoa divina assume uma natureza humana também, mas não há outra pessoa em Cristo além da segunda pessoa da Trindade. Existe um acréscimo de natureza humana que o Cristo pré-encarnado não tinha, mas não há acréscimo algum de uma pessoa humana à pessoa divina. Existe apenas uma pessoa, com duas naturezas. Portanto, o que Cristo disse e fez, Deus disse e fez, uma vez que quando falamos de Deus, estamos falando sobre uma pessoa. Esta é a razão do Concílio falar de Maria como “a mãe de Deus”. Ela carregou no ventre uma pessoa divina.”
“...Por exemplo, Cristo é onipotente em relação a sua natureza divina, mas é limitado em poder em relação a sua natureza humana. Ele é onisciente em relação a sua natureza divina, mas ignorante sobre vários fatos em relação a sua natureza humana. Ele é imortal quando nos referimos a sua natureza divina, mas mortal quando nos referimos a sua natureza humana. Você provavelmente já consegue entender agora aonde eu quero chegar. Cristo não poderia morrer em relação a sua natureza divina, mas ele poderia morrer em relação a sua natureza humana. O que é a morte humana? É a separação da alma do corpo quando o corpo cessa de ser um organismo vivo. A alma sobrevive ao corpo e se unirá com ele novamente algum dia em forma ressurreta. Foi isto que aconteceu com Cristo. Sua alma se separou do seu corpo e seu corpo cessou de viver. Por alguns instantes ele desencarnou. No terceiro dia Deus o ressuscitou dos mortos em um corpo transformado.
Em parte, sim, nós podemos dizer que Deus morreu na cruz porque a pessoa que submeteram à morte era uma pessoa divina.”. “...Assim eu acho melhor dizer que Cristo morreu na cruz em relação a sua natureza humana, mas não em relação a sua natureza divina.” [4]


No início de sua resposta, Craig cita o Concílio de Calcedônia, um concílio ecumênico invocado pelo imperador bizantino Marciano que ocorreu de 8 de outubro a 1 de novembro do ano de 451. Consequência de uma vasta gama de escrituras existentes, e do fato de todas elas serem bastante vagas e imprecisas quanto às suas alegações, eventos como este, que foi o quarto dos primeiros sete concílios ecumênicos da história do cristianismo, se fazem necessários. [5]

E isto nos fornece claros e importantes indicativos: que as escrituras são amplamente interpretativas e que a “verdade” que existe dentro delas é decidida arbitrariamente por integrantes da alta cúpula do cristianismo, que de tempos em tempos mudam o entendimento e quais alegações são válidas ou inválidas dentre todas aquelas. Craig constrói toda sua argumentação com base no que foi decidido neste concílio, quanta confiabilidade!

Apesar de ter, desta vez, de fato respondido à questão, novamente podemos gerar ainda mais questões da resposta dada:

  1. O que é a natureza humana? 
  2. O que é a natureza divina? 
  3. Como ambas as naturezas se inter-relacionam em um mesmo ser? 
  4. Existe outro tipo de natureza? 
  5. Existem outros tipos de morte, que não seja a humana? 
  6. Se sim, porquê em sua natureza divina Jesus era/é imortal? 
  7. Todos os seres divinos são imortais em sua natureza? 
  8. Existem outros seres com natureza divina? 
  9. Se sim, quantos e quem são eles? 
  10. Se não, porque? 
  11. O corpo em que ele ressuscitou não era o mesmo de antes? 
  12. Se sim, porque “transformado”? 
  13. Se não, que corpo era este, e o que aconteceu com o primeiro corpo? 
  14. Se ele mesmo criou sua natureza humana, e a utilizou para se sacrificar por nós, e ele como onipotente pode fazer isso quantas vezes quiser, isto continua sendo considerado um sacrifício? 
  15. O que aconteceu com o corpo de Cristo após a ressurreição?

E mais uma vez a resposta dada abre mais um leque de outras questões complexas, que com certeza também gerariam ainda mais questionamentos em alguma tentativa de resposta.

Na próxima parte, vamos analisar questões acerca de assuntos externos à própria religião, para ver como ela se sai tentando explicar às coisas e, por fim, fazer a conclusão dessa interessante discussão.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

10 centavos - A loteria da religião

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina

As religiões são sistemas de crenças mutuamente excludentes. Isso significa que, cada uma delas possui um grupo de afirmações que, para quem nelas acredita, são absolutamente incontestáveis, ao mesmo tempo em que cada um destes grupos de afirmações guia seus seguidores para um caminho único, que leva a uma verdade única. Desta forma, sendo a verdade uma só, se alguma religião realmente tem um conjunto de afirmações que leva à esta verdade, então, necessariamente, todas as outras estão erradas, daí o fato de serem sistemas de crenças mutuamente excludentes: a partir do momento em que uma está correta, todas as outras estão erradas. É sobre esta ideia que discutiremos brevemente neste texto.

A primeira pergunta que nos vem à mente é: qual delas, então, é a única correta? Uma forma de tentarmos responder a esta questão é perguntarmos para ao menos um integrante de cada religião que existe qual delas é a correta. Entretanto nem precisamos fazer isto para sabermos as respostas que darão cada um deles: o cristão ortodoxo dirá que é o cristianismo ortodoxo, o judaísta messiânico, dirá que é o judaísmo messiânico, os umbandistas dirão que é a umbanda, e assim por diante, em cada uma das aproximadamente 4200 religiões diferentes que existem no planeta. [1]

Sendo assim, para tentarmos responder a esta pergunta precisamos então, já que cada grupo de seguidor tem a mesma certeza sobre sua crença de que ela é a única correta, enquanto todas as outras estão erradas, racionalizar sobre cada grupo de afirmações para saber qual mais faz sentido e, portanto, têm a maior probabilidade de ser o único correto. Mas, novamente, nem ao menos podemos começar a fazer isto, pois esta análise simplesmente não faz sentido. Vejamos.

Cada um de todos estes sistemas de crenças não são suportados apenas por argumentos racionais, mas grande parte pela fé que pode ser definida como “a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que se deposita nesta ideia ou fonte de transmissão”. Sendo assim, não podemos utilizar um critério racional, filosófico ou científico por exemplo, para arbitrar sobre qual religião faz mais ou menos sentido, pois o próprio método racional é descartado por cada um destes mesmos sistemas de crenças.

Outra importante conclusão a qual podemos chegar é que, uma vez que todo e qualquer sistema de crença religioso utiliza da fé para validar ou suportar suas afirmações, todas elas passam a ser igualmente válidas, e isto significa que têm uma mesma probabilidade de estarem corretas. Em outras palavras, uma vez que a fé se caracteriza como acreditar em uma ideia na ausência de qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, como vimos na definição dada anteriormente, não há religião mais correta ou mais errada, que faça menos ou mais sentido, que seja menos ou mais ridícula e tampouco que seja mais ou menos provável de ser a única verdadeira, pois o próprio fato de julgar qualquer crença como absurda ou infame é racionalizar sobre algo não racional, o que é incompatível tanto com a crença que estivermos julgando, quanto com a nossa própria, se tivermos uma.

Concluímos então, dos três últimos parágrafos, que todas as religiões têm, necessariamente, a mesma probabilidade de ser a única detentora do conjunto de afirmações, premissas e regras que levam ao único caminho que leva à única verdade existente. A partir desta conclusão, não teríamos mais muita dificuldade para realizar um cálculo matemático que nos daria a exata probabilidade que cada religião tem de ser a correta, se não fosse por um pequeno detalhe: as particularidades pessoais de interpretação.

Não precisamos ser estudiosos de longa data da história da religião para podermos constatar, com propriedade que, por mais rígidas e imutáveis que sejam as afirmações de cada religião, elas são quase que puramente interpretativas. É até intuitivo que ideias carentes de evidências, suportadas, portanto, pela fé, tenham um caráter interpretativo muito grande. Para ilustrarmos esta ideia, vamos imaginar três cristãos, adeptos da mesma sub-religião denominada como catolicismo, dentro de uma sala, sendo expostos a uma quantidade considerável de questionamentos quanto às suas crenças. Não é difícil concordarmos que em um número de respostas diferente de zero todos os três responderão de forma completamente diferente. E, se postos frente-a-frente em um debate para chegarem a um consenso, cada um dos três argumentará defendendo sua resposta, utilizando de outras ideias pertencentes ao catolicismo, convicto de que sua resposta é a correta, da mesma forma que os três são convictos de que o catolicismo é a opção mais correta dentro do cristianismo, e que o cristianismo é a religião mais correta entre todas as outras milhares de opções.

Extrapolando este fato para todas as religiões, chegamos à conclusão de que as aproximadamente 4200 religiões se subdividem em particularidades pessoais de interpretação, se subdividindo e crescendo para um sistema religioso particular e único dentro de cada indivíduo seguidor de um destes sistemas de crenças, que totalizaria então aproximadamente 5,8 bilhões de diferentes caminhos à verdade – uma para cada pessoa religiosa no mundo. [2]

Se considerarmos que, mesmo que absurdamente raros, haverão alguns casos em que duas ou mais pessoas concordarão em todas as questões possíveis de serem feitas sobre suas crenças, e para simplificarmos o cálculo, vamos considerar o número de cinco bilhões para calcularmos a probabilidade que cada pessoa religiosa no mundo tem de estar correta.

A probabilidade de ser o único correto em cinco bilhões de possibilidades é igual a um dividido por cinco bilhões:

1/5.000.000.000 = 0,0000000002 = 0,00000002%

Chegamos a uma probabilidade de dois, oito casas após a vírgula, por cento. E isto, desconsiderando todas as possibilidades de todas as pessoas religiosas que já morreram em toda a história da humanidade, e desconsiderando também as possibilidades de nenhuma das religiões estarem corretas, ou de ser um sistema de crenças diferente de qualquer um dos que existe.

Enfim, esta é a loteria da religião, e se mesmo assim você continua convicto de que sua crença pessoal é de fato a única correta, eu sugiro que você aposte em uma outra loteria. A probabilidade de ganharmos na mega-sena, maior e mais famosa loteria do Brasil, fazendo um jogo de seis dezenas é de 0,000002% [3], uma probabilidade cem vezes maior do que a de sua crença ser a única correta. Com a sua sorte, tenho certeza que ficar milionário não vai ser nada difícil!

Estes foram meus 10 centavos acerca do relativismo religioso.




sábado, 16 de junho de 2018

O Outro Lado da Música 2 - Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Um dos métodos mais simples e, portanto, um dos primeiros meios pelos quais a humanidade começou a “fazer ciência” foi através da observação de como a natureza funciona. A partir disto, de tentarmos entender aquilo que estamos enxergando bem diante de nossos olhos, surgiram as bases para a formulação de nossas primeiras hipóteses – palpites sobre como as coisas funcionam – e nossas primeiras grandes descobertas.

Com o passar do tempo, até chegarmos aos dias de hoje, nossa forma de se “fazer ciência” mudou completamente, mas, ainda assim, observar como a natureza funciona, ainda que com o uso de tecnologias jamais pensadas há milhares de anos atrás como telescópios e aceleradores de partículas, continua sendo uma das melhores maneiras de aprendermos.

Entre as inúmeras coisas que pudemos aprender observando a forma como a natureza funciona é a importância da mudança. Em toda a história evolutiva da vida, desde os primeiros seres unicelulares que habitavam a Terra até chegar à diversidade e complexidade de formas de vida que existem hoje por aqui, os genes – protagonistas desta história – só foram capazes de fazê-la através da mutação genética.

Ao se replicar, um gene cria uma cópia de si mesmo. O objetivo aqui é criar uma cópia idêntica, para que ambos criem novamente cópias idênticas de si mesmos, e assim sucessivamente, com o objetivo de se proliferar. No entanto, no ato de uma replicação, podem ocorrer erros, ocasionando em um novo gene: uma cópia do anterior, com uma parcela diferente gerada pelo erro, fenômeno aleatório denominado de “mutação genética”. Sem mutações ou, se preferirmos, mudanças nos genes durante sua autorreplicação, todos os genes teriam sidos completamente idênticos, e não poderiam usar suas diferenças entre si para se organizarem em grandes grupos distintos, formando características de seres vivos em cada vez maior número, com cada vez maior complexidade tal qual realmente aconteceu.

Em outras palavras nós, por exemplo, seres inteligentes e de alta complexidade estrutural só existimos por que a forma como a natureza genética trabalhou e continua trabalhando desde os primórdios da vida utiliza, ainda que de forma acidental, a mudança!

Fazendo o uso de nossa inteligência e colocando a razão sobre esta atitude genética impensada, podemos aprender com a forma pela qual a natureza trabalha e trazer a mudança para a nossa realidade, discutindo de que forma ela pode nos ajudar a pensar de uma forma cada vez melhor, da mesma forma que ajudou nossos genes a construir organismos cada vez mais complexos.

No campo da razão e do pensamento, se definirmos que nosso objetivo é, por exemplo, buscar a verdade sobre todas as coisas, podemos chegar à conclusão de que a mudança entre as diversas linhas de pensamento existentes é a melhor maneira de atingirmos nosso objetivo. Vejamos.

Imagine que no exemplo dado anteriormente os genes pudessem pensar e decidir se têm uma mutação genética em sua replicação ou não. Vamos supor também que seu objetivo fosse criar uma estrutura complexa como o elefante, por exemplo. Um gene com apenas a característica de se replicar, em busca deste objetivo tem, inicialmente, apenas três escolhas: se replicar sem mutação, se replicar com mutação e não se replicar. Aqui fica óbvio que, para atingir seu objetivo, a escolha correta é se replicar com mutação, pois nos outros dois caminhos sabemos que as chances de se formar um elefante são nulas.

Suponhamos que a cada mutação feita, o gene aprende como fazê-la e, dali para frente, pode escolher fazê-la novamente ou simplesmente continuar mutando aleatoriamente. Imaginemos que a primeira mutação, realizada a partir da primeira decisão que ele tomou garantiu uma cópia sua com mudanças estruturais que podem, em conjunto com muitos outros genes, possibilitar a formação de tecidos, de peles, vasos sanguíneos etc. Sabemos que para a formação de um ser como um elefante, é essencial que se tenha diversos tipos de tecidos epiteliais, vasos sanguíneos entre outros. Portanto esta mutação ocorreu na direção de seu objetivo, e por isto deve ser refeita pelo gene, até que se tenha uma grande quantidade de genes com esta característica. Entretanto, quando esta quantidade for atingida, o gene precisa novamente escolher entre não se replicar, se replicar sem mutação, se replicar com mutação ou se replicar com característica propensa a formação de tecidos.

Novamente, a replicação com mutação é a melhor opção, a única que pode levar o gene de encontro a seu objetivo. Suponhamos desta vez, para finalizarmos a ideia por trás deste exemplo pictórico, que a mutação que o gene sofreu em sua replicação gerou uma cópia sua com mudanças estruturais que podem, em conjunto com muitos outros genes, possibilitar a formação de um sistema de respiração embaixo d’água, um mecanismo orgânico de conversão de moléculas de água em moléculas de oxigênio. Neste caso, a mutação genética foi na contramão de nossos objetivos, nos levando a uma característica que não nos ajuda em nada em nosso objetivo, uma vez que o elefante não respira embaixo d’água. Porém, e este é o ponto mais importante aqui, ainda assim a opção de escolher o caminho da realização da replicação com mutação continua sendo o melhor caminho, pois mesmo que haja uma probabilidade igual de ser uma mutação “boa” ou uma mutação “ruim” para nossos objetivos, ele é o único caminho que apresenta uma probabilidade diferente de zero de nos levar à nossa realização final.

Trazendo para a nossa realidade, se nosso objetivo final for buscar a verdade sobre todas as coisas como o proposto, devemos escolher quais linhas de pensamento, dentre as centenas de milhares existentes, que nos levam à verdade em cada aspecto do pensamento humano. Suponhamos que, assim como os genes em nosso exemplo anterior, comecemos nossa busca pelo nosso objetivo. Nossa característica inicial é nossa bagagem cultural de pensamentos – linhas de pensamento e ideologias que nos são passadas, desde que nascemos, através da cultura local e de nossos familiares. Dessa forma, nossa escolha inicial, para cada uma das ideologias que temos conosco, fica entre as opções:

1.       Continuar acreditando nesta linha de pensamento;
2.       Aceitar uma linha de pensamento contrária.

E, em um olhar mais amplo, visto que nenhum ser humano é capaz de conhecer todas as linhas de pensamento que existem:

1.       Continuar com o mesmo número de linhas de pensamento;
2.       Procurar outras opções.

Dado que o número de ideologias e linhas de pensamento tende ao infinito, fica fácil saber que, a probabilidade de acertarmos na mosca, de termos conosco, sobretudo apenas pela bagagem cultural e familiar, justamente as linhas de pensamento que nos levam à verdade sobre tudo o que se pode pensar, é extremamente baixa, tendendo a zero, tanto pela baixíssima quantidade com relação ao todo, quanto pelo fato de sequer termos arbitrado sobre elas e suas opostas alguma vez.

Portanto, a opção de número dois, a mudança, em ambos os casos, tanto na composição de nossas crenças e formas de pensar quanto em sua quantidade, nos fornece sempre uma probabilidade maior de nos levar ao nosso objetivo, de nos levar à verdade. E, exatamente como no exemplo anterior, podemos concluir que, mesmo no caso onde mudarmos uma crença “boa” por uma “ruim”, ou adicionarmos ao nosso conhecimento uma pensamentos contendo inverdades, ao final, o caminho da mudança é sempre o melhor, pois mesmo nestes casos, podemos mudar novamente e voltar atrás, retornando à ideologia anterior ou eliminando a nova linha de pensamento. Se ele, assim como eu, aprendeu isto observando a natureza ou não, não sabemos, mas não poderia concordar mais com Raul Seixas: eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Música: https://www.youtube.com/watch?v=7VE6PNwmr9g.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A Sociedade do Outro Lado 1 - Expandindo nosso horizonte de possibilidades

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 6

Autor: Gustavo Spina

Tudo aquilo que discutimos desde o primeiro texto deste blog pertence a nossa atual sociedade, e à forma pela qual chegamos a ela. Pincelamos, certa vez, o fato de que esta configuração social, com toda a sua riqueza de características e consequências as quais concluímos que não há como escapar, não é a única possível; mas este fato é tão importante que não deve escapar de uma análise mais aprofundada. Nossa atual sociedade é extremamente diversificada contendo um horizonte de possibilidades, que Yuval Harari descreve como “todo o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais”, em seu fantástico livro Sapiens – Uma breve história da humanidade. Nesta terceira e última série de textos, vamos explorar outras configurações sociais, desenvolver outros sistemas que poderiam (ou poderão) governar o mundo, totalmente diferentes dos que exploramos na série de textos passada; ir além de tudo o que já criamos: vamos trabalhar arduamente na expansão do nosso grande e desajeitado horizonte de possibilidades.

Uma vez tendo explorado por completo o “problema”, não há outra coisa a fazer senão explorar sua possível solução, mesmo quando se chega à conclusão de que ela não é possível; e isso não é uma contradição. Vamos analisar melhor. A conclusão que chegamos no texto passado se baseia na ideia de que, de acordo com tudo o que discutimos até aqui, a magnitude da revolução, seja ela de qual natureza for, necessária para modificar os atuais sistemas que governam o mundo deve ser tão grande, mas tão grande, que a probabilidade de que ela ocorra tende a zero e, portanto, se torna impraticável. No entanto, não é prudente extrapolar esta afirmação para um futuro muito distante. Em outras palavras, por mais sólidos que sejam nossos argumentos, eles não se sustentam ao imaginarmos o futuro, sobretudo em um cenário mundial com ameaças corriqueiras de guerras nucleares e de cada vez mais rapidez no desenvolvimento tecnológico como nossa atualidade.

Sendo assim, não podemos afirmar que esta impossibilidade de uma mudança em escala global significativa será a mesma nos próximos séculos ou milênios e, dessa forma, devemos, sim, alocar parte de nossos esforços na solução do atual problema, que tem uma probabilidade diferente de zero de poder ser efetivamente aplicada em um futuro não tão próximo. Se um dia esta mudança tornar-se possível, em nada será útil se aqueles que a efetivarem não souberem para onde ir, que outros caminhos seguirem e que novos sistemas construírem para que, desta vez, se sustente uma sociedade que se aproxime da ideal. E mais ainda: a própria ideação de novos caminhos a serem seguidos pode, através do estímulo das mentes brilhantes, visionárias e revolucionárias com que essas ideias possam entrar em contato, nos dizer como fazer para possibilitarmos esta transição na prática.

Portanto, iniciaremos agora uma série de quebra de paradigmas e exploração de novas ideias para construir aquilo que, ao terminarmos, possamos chamar de “a sociedade do outro lado”, do outro lado da história, o lado que ainda não conhecemos e que provavelmente não viveremos, mas que podemos desde agora ajudar a desenvolver.

Antes de descobrir quais são os primeiros tijolos de nossa construção, neste texto, temos de preparar nossos cérebros. Comecemos então com a elaboração de um novo modelo mental, um novo mindset.

Um modelo mental pode ser definido como um “mecanismo do pensamento mediante o qual um ser humano, ou outro animal, tenta explicar como funciona o mundo real”. O modelo mental que, em geral, temos em nossas cabeças atualmente é montado ao longo de nossas vidas, e é intrinsecamente ligado aos sistemas que compõem o mundo de hoje, e que tratamos nos textos da série de textos anterior a esta – O Outro Lado dos Sistemas.

Como exemplo de ideias integrantes de nosso mindset comum atual, vale a pena lembrar de duas características dos atuais sistemas, que já evidenciamos no texto A cega inserção: a falsa impressão de naturalidade e a necessidade de existência destes sistemas. Estas duas ideias, que podemos relembrar suas descrições simplificadamente como a falsa impressão que temos de que os sistemas que regem as sociedades de hoje são consequências de fatores naturais e que devem, necessariamente, existir, como se fossem parte integrante do processo evolutivo de nossa espécie e que sem eles não haveriam outras possibilidades; já foram desmistificadas e descartadas. Ambos os paradigmas citados já foram quebrados ao longo de nossas discussões, mas eles são apenas dois exemplos, uma pequena parte de um todo muito maior, de um modelo mental cheio de ideias deturpadas completamente dependentes das atuais configurações sociais.

Dado o que acabamos de evidenciar, fica fácil perceber que se mantivermos nosso mindset atual, quando pensarmos em alternativas, sobretudo na construção de uma configuração social totalmente nova, entraremos em constantes conflitos internos em nossas cabeças. Por exemplo, ao tentamos imaginar uma sociedade sem a existência de dinheiro, esbarraremos em nossa ideia de que uma sociedade não é nem ao menos possível sem a existência de uma moeda, ou ainda ao tentarmos imaginar uma sociedade sem diferenciação territorial e étnica, esbarraremos em nossa ideia de que é impossível governar um mundo inteiro, sem dividi-lo em países, estados, cidades, municípios e etnias. E assim por diante. Mas devemos perceber que estes conflitos acontecem apenas porquê nosso modelo mental é, em grande parte, formado pelos sistemas atuais, e que devido a isto sempre causará contradições internas ao pensarmos em sistemas completamente diferentes! A atual sociedade, sim, é impossível sem a existência de uma moeda, mas quem é que disse que uma outra sociedade deve seguir a mesma lógica de comércio, compra, venda, lucro e mercado? A atual configuração social global, sim, é impossível de ser governada sem uma divisão do planeta em países, estados, cidades, municípios e etnias, mas quem é que disse que a forma de governo em outras configurações sociais serão as mesmas? Em ambos os casos podemos imaginar e criar lógicas completamente diferentes de economias e governos, ou mesmo criar uma estrutura onde estas características não precisem nem ao menos existir.

Com isto, o que desejo concluir nesta primeira parte do texto é que para desenvolvermos juntos um novo modelo social devemos, primeiramente, abandonar nosso atual modelo mental, devemos inibir os pensamentos provenientes dele, devemos ignorar a estranheza, a negação instantânea e os conflitos internos que nossa mente nos proporcionará quando tivermos contato com diversas ideias novas e completamente diferentes, pois estes pensamentos nem ao menos fazem sentido neste novo mindset que estaremos construindo. Ao longo desta série de textos, estaremos constantemente praticando estes exercícios mentais, sempre reiterando que devemos separar nossas novas ideias, nosso novo modelo mental de nosso modelo mental atual.

Prosseguindo, vamos finalizar este texto introdutório respondendo a uma importantíssima questão que pode muito bem ser feita por nós mesmos, neste ponto da discussão: onde é que queremos chegar? Vamos alinhar, com grande clareza, qual exatamente é nosso objetivo, a finalidade de toda esta discussão, para que possamos nos certificar, a cada linha escrita, que estamos seguindo no caminho certo e, ao final, sabermos que concluímos exatamente o que queríamos desde o começo.

No início deste texto explicitamos a enorme importância de sabermos o que fazer quando conseguirmos transcender as atuais configurações sociais, se é que isto vai acontecer um dia, e isto nos serviu de justificativa para que trabalhemos então no desenvolvimento de uma ou mais configurações sociais alternativas. No entanto, neste momento este desenvolvimento está apenas se iniciando, portanto devemos explicitar aqui também a enorme importância de sabermos qual é o objetivo desta nova configuração social, e isto nos dará o direcionamento para o nosso desenvolvimento de cada uma das partes que comporão nossa sociedade.

Vale a pena ressaltar que o fato de podermos realizar este questionamento, definir um objetivo e construir uma configuração social global por meio de discussões e uso orquestrado do intelecto e conhecimento humano é algo completamente inovador e diferente de tudo o que já ocorreu em nossa história. A construção da atual configuração social global e de suas antecessoras, bem como de cada um dos sistemas muito bem estabelecidos que a compõe, não foram feitas dessa forma, mas foram sendo construídas de forma orgânica.

Em outras palavras, o rumo que as sociedades humanas tomaram, resultando no cenário global atual, foram definidos, em sua maioria, por condições ambientais, tecnológicas e até mesmo influenciado pelas doenças que por vezes assolaram a raça humana; jamais de forma planejada, pensada e desenvolvida de modo a atingir um dado objetivo. Isto nos diz muito do porquê, apesar de funcionarem, os atuais sistemas deram tão errado em tantos aspectos, e nos motiva a aproveitar esta oportunidade para conseguir, de fato, desenvolver algo diferenciado e bastante superior.

Então qual é o nosso objetivo? Construiremos uma nova configuração social com que propósito? O que queremos proporcionar, e a quem queremos proporcionar isto, com esta construção? Definiremos nosso objetivo como: construir uma configuração social global que proporcione o mais elevado nível possível de felicidade para todos os seres sencientes (capazes de sentir).

Para não desvirtuar o assunto do texto, e nem alonga-lo demais, não entraremos a fundo aqui nas questões filosóficas inerentes a afirmação feita. Para um maior detalhamento do conceito de sentir, do conceito de felicidade e como quantifica-la, o leitor mais curioso deve recorrer ao espetacular livro “Genismo”, do filósofo brasileiro João Carlos Holland de Barcellos – Jocax – a quem tenho o prazer de ter como amigo, onde desenvolveu e discorreu detalhadamente sobre estes e muitos outros conceitos filosóficos.

Por fim, iniciamos nossa discussão reconhecendo a importância da existência de configurações sociais alternativas que têm uma probabilidade diferente de zero de serem utilizadas no futuro. Em seguida, reconhecemos a importância de se traçar um objetivo que norteasse todo o desenvolvimento dessas novas ideias e enfim o definimos. Sabemos agora que, com este objetivo alcançado, teremos então desenvolvido uma sociedade que proporcionará, em todos os seus aspectos, o maior nível possível de felicidade para todos os seres humanos e os animais que tem consciência e que, portanto, são capazes de sentir.

No próximo texto, começaremos a construir, tijolo a tijolo, esta que, longe de alcançar a inalcançável perfeição, será uma sociedade que se aproxima ao máximo de uma sociedade ideal, uma configuração global que minimiza ao máximo o sofrimento de todos os seres capazes de sofrer e que maximiza ao máximo a felicidade de todos os seres capazes de senti-la. Iniciaremos juntos, abandonando nosso atual mindset e fazendo o uso de um modelo mental completamente novo, a árdua construção da sociedade do outro lado, do outro lado da história, de um futuro que talvez um dia exista, e possa dar lugar à sociedade do OUTRO LADO DA MOEDA.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

10 centavos - Ensaios sobre a perfeição - Parte 2

Pré-requisito (obrigatório): Ensaios sobre a perfeição - Parte 1

Autor: Gustavo Spina


Na primeira parte deste artigo, vasculhamos simples e brevemente o conceito de perfeição, demonstrando que seus pilares fundamentais são os conceitos de máximo e infinito, chegando à conclusão de que toda e qualquer qualidade que desejarmos incluir como parte integrante da perfeição deverá ser máxima e infinita. [1]

Nesta continuação, aplicaremos este conceito para descobrir as implicações práticas da perfeição. Quais serão as implicações quando tentamos aplicar o conceito de perfeição a algo e a um ser?

Antes mesmo de iniciar a aplicação do conceito de perfeição, devemos levar em consideração que esta é uma característica maleável, indefinida. Como discutimos até agora, podemos adicionar qualquer qualidade como parte integrante da perfeição, e assim estaremos criando uma direção e um sentido pelo qual começamos a medir seus graus de maximização e infinidade. Em outras palavras, a perfeição por si só não adiciona qualidade nenhuma. Dizer que algo ou alguém é perfeito, não significa nada, até que você adicione ao menos uma qualidade à perfeição em questão. É perfeito como? É perfeito em que? A perfeição, apesar de ser constantemente relacionada com a bondade, pode ser apontada para qualquer outra direção. Hipoteticamente, uma forma pode ser perfeitamente quadrada, uma superfície pode ser perfeitamente lisa, ou uma criatura ser perfeitamente maligna; e nenhuma dessas características estão ligadas a algo bom em seu significado mais geral. Ao aplicarmos a característica da perfeição, devemos então primeiramente conferir ao menos uma qualidade, norteando-a, para que possamos prosseguir com as implicações que esta aplicação nos trará.

Começando pela aplicação do conceito de perfeição a algo, lembrando que como “algo” estamos nos referindo a qualquer coisa sem vida, inanimada. Vamos adicionar à perfeição a qualidade da velocidade. Suponhamos então que uma esfera deva ser perfeitamente rápida, veloz.

Aplicando o conceito, devemos:

1. Garantir que a velocidade seja máxima;
2. Garantir que a velocidade seja infinita;

Para a nossa primeira tarefa, sabemos que a máxima velocidade, a qual pode se atingir neste universo é a velocidade da luz [2], de aproximadamente 299.792.458 metros por segundo (m/s) ou 1.079.252.848,8 quilômetros por hora (km/h). [3]

Entretanto, para a nossa segunda tarefa, nos deparamos com um problema. Devemos garantir que a velocidade seja infinita, no entanto, sabemos que não há como ultrapassar a velocidade da luz. Portanto, uma velocidade infinita não é sequer possível de se existir. Mas, por isto, a esfera não pode mais ser perfeitamente veloz? Sim ela pode, e nós acabamos de nos deparar com a primeira implicação resultante da aplicação do conceito de perfeição: o limite teórico.

Ao aplicarmos o conceito da perfeição a um objeto, devemos levar em consideração se a qualidade a que adicionamos à perfeição tem um limite teórico. Havendo um limite, devemos então considerar apenas a primeira de nossas tarefas: garantir que ela seja a máxima possível.

Uma esfera viajando no espaço à velocidade da luz se caracteriza então, em nosso exemplo hipotético, como uma esfera perfeitamente veloz. Na verdade, qualquer esfera viajando à velocidade da luz é uma esfera perfeitamente veloz. Mas, qual delas é mais perfeita? A perfeição não é um conjunto único de características? Sim, esta é apenas a nossa segunda implicação resultante da aplicação do conceito de perfeição: a pluralidade de perfeições.

Uma vez que a qualidade incluída à perfeição possui um limite teórico, isto nos leva a inviabilizar a garantia de que esta qualidade atinja o infinito, garantindo tão somente que esta atinja o seu máximo, ou mínimo: seu limite teórico. Por sua vez, garantir apenas que esta qualidade atinja seu limite teórico inviabiliza sua unicidade, que somente o infinito nos possibilita, resultando na possibilidade da coexistência de infinitas perfeições idênticas! Por isso, é completamente possível que haja duas ou trezentas e quarenta e sete mil esferas igualmente perfeitamente velozes, todas na mesmíssima velocidade, viajando tão rápido quanto a luz no vácuo.

Vamos então deixar esta discussão ainda mais interessante, partindo para a aplicação do conceito de perfeição a um ser, lembrando que como “ser” estamos nos referindo ao conceito inverso de “algo”, qualquer entidade viva, animada. Suponhamos então que uma pessoa deva ser perfeitamente amorosa.

Aplicando o conceito, devemos:

1. Garantir que seu amor seja máximo;
2. Garantir que seu amor seja infinito;

Para a nossa primeira tarefa, sabemos que não há um amor “máximo”. Por maior que possamos imaginar este sentimento, sempre podemos adicionar uma pitada de intensidade e tamanho, aumentando-o ainda mais. Portanto, chegamos a nossa segunda tarefa, garantindo que este amor seja infinito e, por consequência, garantindo a primeira tarefa também.

Dessa forma, somente uma única pessoa, aquela com um amor infinitamente máximo, seria perfeitamente amorosa. Mas, e se esta mesma pessoa sentisse, em qualquer momento, o mais ínfimo sentimento de ódio ou raiva, ela continuaria sendo perfeitamente amorosa? A resposta é não, e nós chegamos à nossa terceira implicação: a contradição lógica.

Quando lidamos com seres, que são intrinsecamente complexos em quantidades de características, devemos nos preocupar não somente em garantir a maximização e a infinidade da qualidade que adicionamos à perfeição, mas também à anulação de todas as características que entrem em contradição lógica com ela. Não é logicamente coerente que um ser com um amor infinito e máximo, sinta raiva ou ódio, portanto, estas características devem ser também excluídas deste ser, para que se concretize sua perfeição.

Para finalizar este texto e esta discussão, não devemos deixar de lado o fato de que o conceito de infinito é um conceito de caráter puramente teórico, jamais observado na prática. [5] E se o infinito não existe na prática, o que acontece com o conceito de perfeição, também na prática? Sendo o infinito inviável praticamente, o conceito de perfeição também se inviabiliza, com exceção apenas nos casos em que existe um limite teórico. Incrível conclusão, não? O fato é que não existe limite teórico para a bondade. Quais serão as implicações disso?

Estes foram meus 10 centavos acerca do conceito de perfeição e suas implicações práticas.

[1] - Publicado em: 2018-25-03. Disponível em: http://ooldam.blogspot.com.br/2018/03/10-centavos-ensaios-sobre-perfeicao.html. Acesso em: 26.04.2018

[4] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Infinito Acesso em: 26.04.2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A Sucessão

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina


Depois de três semanas sozinho em uma casa abandonada e parcialmente destruída, acredite em mim: nada o impede de sair nas ruas. Nada! Especialmente quando não se come nada por três dias. O desespero foi maior. Minha imaginação, de tudo o que poderia acontecer comigo se eu fosse visto e reconhecido foi, ao longo do tempo, dando lugar a outros pensamentos, a outras prioridades, à minha própria sobrevivência. Até que cheguei a uma conclusão: se me capturassem, talvez eu sobreviveria, mas ali; com o frio cada dia mais intenso e com o estoque de alimentos findado, eu com certeza morreria.

Só mesmo o instinto animal de sobrevivência para vencer meu medo de ser encontrado. Atirei-me pela porta dos fundos. Já no meu segundo passo fora daquela velha casa, meu coração disparou. Vi, de longe, uma mulher vestida de amarelo. Só podia ser um deles! Os pelos do meu corpo se arrepiaram, minhas pupilas dilataram e, com a claridade do reflexo da luz do dia na neve que cobria quase tudo, fiquei completamente cego. Não enxergar me deixou ainda mais nervoso, e isto tudo foi como uma bola de neve até que meu sistema nervoso colapsou.

Bem, eu não entendo nada dessas coisas, meu campo de conhecimento é completamente outro, mas esta foi mais ou menos a explicação que aquela moça me deu quando acordei em uma cela e perguntei o que é que havia acontecido comigo. Não que tenha tornado as coisas mais claras, afinal, eu continuava sem saber onde estava, quem era ela, e porquê eu estava preso ali. Mas só o que ela respondia para todas as outras perguntas, sempre com um sorriso de satisfação no rosto, era: “aguarde um momento que tudo já lhe será esclarecido”.

Estava meio zonzo. Sentia uma dor dos infernos na cabeça, devo tê-la batido quando desmaiei na rua. Sentei-me no colchão duro e sujo que havia atrás de mim, no qual havia acordado em cima, há alguns minutos. Não havia mais nada naquele cubículo além daquele colchão e de mim. Aquela moça, que até então havia me parecido bastante doce e muito contente, levantou-se e se esvaiu pelo corredor, que ficava um pouco na diagonal da porta da cela, de modo que só pude acompanhar seus movimentos até metade do caminho. Para ver onde aquele corredor obscuro entregaria aquela moça tão simpática, eu teria de levantar, e meu corpo doía muito para isto.

Continuei, portanto, apenas a mover meus olhos, passeando com minhas pupilas por todos os lados, examinando cada centímetro à minha volta. Você pode estar se perguntando o porquê eu não estou apavorado, afinal acordei preso em uma cela sem informação nenhuma sobre nada, mas, confie em mim; se eu estava vivo até agora, aquelas pessoas não poderiam ser inimigas. Se algum deles tivesse me pego eu provavelmente estaria sendo torturado. E, afinal, havia ali um colchão! Por mais duro, sujo e velho que era, ainda assim era um colchão de verdade. Se não me falha a memória, desde antes da revolução acontecer eu não deitava em uma beleza dessas.

Continuei observando tudo, entretanto, a única coisa que havia ali, além da sujeira e de duas baratas que passeavam pelo chão, era uma chapa de metal, de mais ou menos trinta centímetros quadrados, embutida em uma das paredes laterais da cela.

A moça não retornava, o silêncio cortava os ouvidos como uma navalha. O cansaço voltou a me dominar e, sem perceber, caí no sono. Acordei num pulo quando a chapa de metal se levantou, grunhindo um barulho estridente de metais se arranhando. Uma bandeja com um prato de comida e um copo de água deslizou pelo buraco e, antes mesmo de esboçar alguma reação, a chapa de metal se abaixou, ecoando seu grunhido novamente pelas paredes sujas daquele calabouço.

Não demorei a comer e beber tudo o que haviam me dado. Mesmo acostumado com a escassez que já durava anos, a fome e a sede me retorciam por dentro. Passado mais algum tempo, a moça retorna. Ouvi seus passos, se aproximando pelo mesmo corredor através do qual havia se esvaído mais cedo. Porém, quanto mais alto era o som, mais era distinguível que haviam mais pessoas. Será que era mesmo a moça? Aquele medo, que havia dado lugar à tranquilidade nas últimas horas, se espalhou pelo meu corpo novamente.

Sentei-me no colchão, olhando para o corredor. A moça então aparece, mas em vez daquela cena me tranquilizar, ela confirmou o que eu mais temia: ela vestia um casaco amarelo. Como eu não pude perceber? Ela era a menina que eu avistei de longe na rua antes de desmaiar! Ela era um deles!

“Ele está acordado, podem levá-lo”, disse ela, com o mesmo sorriso de satisfação no rosto, que agora soou muito mais maligno do que das primeiras vezes. Os sons de botinas marchando, quase que num sincronismo perfeito, deu lugar à imagem de dois homens mal-encarados na porta da cela. Colapsei novamente. Fui carregado pelos dois, sem maiores dificuldades, aos berros, pela cela afora. Minhas pupilas se dilataram novamente. Pouco pude enxergar do caminho através do qual me carregavam, sem poder saber se era o mesmo corredor diagonal que partia da porta da cela. Mas em quê isso importava?

Não tinha mais forças para gritar. Fui posto sentado em uma cadeira, meus pés e mãos foram atados firme, mas cuidadosamente a ela. Aos poucos, minha situação foi voltando ao normal, minha respiração foi ficando mais lenta, fui recuperando minha visão e a imagem de uma cadeira foi ficando cada vez mais nítida na minha frente. Olhei ao meu redor, estava em uma sala vazia, com apenas a minha cadeira e uma cadeira na minha frente. Os homens que haviam me trazido e me posicionado ali, estavam um em cada canto da parede, atrás de mim. Não havia janelas, apenas uma porta de ferro, com as quinas enferrujadas, na parede ao meu lado esquerdo.

Era uma cena clássica de interrogatório, faltava apenas o interrogador. Para completar o cenário, já começava a ouvir os passos de alguém se aproximando pela porta, mas, contanto que tudo aquilo estava um tanto quanto óbvio, nem em todo o tempo que passei temendo que este dia chegasse eu pude imaginar quem é que entraria por aquela porta para me interrogar.

Meus olhos não acreditavam no que viam: Adam Walton, o maior capitalista do século, estava à minha frente! Era ele mesmo, apesar de o ter visto apenas pelos diversos meios midiáticos, não tinha como confundir – ele fora o rosto mais evidente nos últimos anos, tão evidente quanto o meu. Sentou na cadeira à minha frente e fitou-me durante alguns segundos. Eu fazia o mesmo, enquanto minha mente tentava processar toda aquela informação. Ele vestia terno e gravata, e deslizava em cima de dois sapatos de couro brilhantes. Como isso era possível, nos dias de hoje? Como é que ele sabia que eu estava ali e onde diabos seria aquele lugar, afinal? Minha cabeça estava à mil!


-Até que enfim estamos frente a frente. Cheguei a pensar que você seria capaz de fugir de mim durante a vida toda.


Com uma voz rouca e ligeiramente trêmula, respondi.


-Eu não fugi de você. Você não compareceu aos debates.


-Eu não estou falando de antes da Grande Queda. Depois que sua revolução ruiu em migalhas, você se escondeu como um rato por entre os escombros, por anos! Covarde!
-Mas não estou aqui para te atacar, você já teve o que mereceu. Bem... ao menos uma boa parte. Estou aqui para entender. Estou aqui para ouvir de você, toda a história por trás disso tudo e dar meu toque final a esta história de terror.
-Então eu quero que você me conte. Eu quero saber de cada detalhe, de tudo o que aconteceu nos bastidores, onde os holofotes não iluminavam, e então, vou conseguir colocar nessa sua cabeça vazia o porquê o resultado foi esse.
-Vamos! Comece! Eu não tenho todo o tempo do mundo. Aliás, nós dois não temos muito tempo.


Minha mente não conseguia acompanhar a tudo aquilo acontecendo de uma só vez. Se fosse há alguns anos atrás, eu enfrentaria uma situação como esta com facilidade; mas hoje, meu cérebro já não era mais o mesmo. Não fui capaz de reagir de forma inteligente, questionar, entender e nem mesmo me recusar a fazer o que ele pedia. Fiquei apático e apenas segui sua ordem, como se estivesse atendendo a um pedido de um amigo de longa data.


-Está bem. Vou tentar detalhar ao máximo.
-Eu nasci em uma família pobre, assim como era 99% da população mundial, graças ao seu querido sistema. Assistir aos meus pais darem suas vidas para seus empregos e ainda assim termos apenas o mínimo para nossa sobrevivência, durante toda minha infância, moldou minha cabeça com uma revolta latente contra o que causava tudo aquilo.
-Durante minha adolescência, superei todas as dificuldades que me cercavam por conta de minha classe social e me tornei um estudioso de tudo o que permeava os grandes sistemas que governavam nosso mundo naquela época, sobretudo o sistema capitalista e monetário. Me tornei um exímio estudante e fui o destaque, não só de minha escola e de minha cidade, mas de todo meu país, sendo nacionalmente conhecido.
-Comecei minhas fortes críticas ao sistema capitalista, ao mesmo tempo que, por ter vindo debaixo, diferentemente de quase todo grande filósofo, economista e escritor; eu escrevia, palestrava e divulgava o meu trabalho em uma linguagem acessível e familiar a maior parte da população mundial. Talvez tenha sido isto que deu tanta força às minhas ideias.
-Aos vinte e oito anos já viajava o mundo todo em conferências, palestras, debates e workshops sobre o porquê o capitalismo deveria ser destruído. Foi nesta época que nos conhecemos. A sede das pessoas por separar tudo em dois lados acabou tornando-nos os principais rostos no cenário global: o homem mais rico da atualidade contra o homem que mais odiava o dinheiro, o capitalismo contra o não-capitalismo, o vermelho da revolução contra o amarelo da moeda, eu contra você. A partir de então, você começou o seu jogo sujo, e eu passei a não estar mais seguro em nenhum lugar do planeta.


-Ora, não despeje acusações infundadas, por favor. Você acha que eu estava preocupado pensando em que lugar você estaria a cada noite? Você realmente acha que eu era sozinho, que eu planejava e ordenava tudo? Não seja tolo.


- Eu estou sendo tolo? Eu sei que não era só você, mas da mesma forma que você não estava sozinho, eu também não estava! De que adiantaria me matar? Hein?!


-Você estudou muito, mas se esqueceu de estudar a forma como as pessoas pensam. Eu sei muito bem que você não era sozinho, mas você era o representante, a figura que simbolizava toda aquela ideia. Com você morto, tudo morria junto, na cabeça das pessoas! Ainda que seus aliados quisessem continuar suas ideias, tudo perderia força e o capitalismo não estaria mais ameaçado. É assim que sempre funcionou, e que conseguimos manter nossa hegemonia por tanto tempo.


-A ideologia de vocês é realmente inescrupulosa! Eu jamais pensei em te matar! Já não basta a vida dos milhares de pessoas que seu sistema maldito matava de fome todos os dias?!


-Basta! Me poupe do seu moralismo barato. Continue sua história ridícula porque estou ansioso para esfregar seus erros na sua cara. Ande logo! Continue!


-Os anos seguintes que passei escondido, com medo de ser morto por algum verme endinheirado como você, foram justamente os anos que me asseguraram a vitória. Este foi o seu erro! Sem comparecer a eventos, fazendo apenas vídeos para a internet que comprovavam que eu estava vivo e que deixavam aqueles que também queriam o fim do capitalismo ainda mais fervorosos, me sobrou muito mais tempo para estudar de que forma poderíamos derrubar de uma vez por todas este reinado de séculos. E enfim chegávamos a 2043! Eu nunca vou me esquecer daquele ano. Os rumores de uma nova crise no mercado imobiliário dos Estados Unidos, que vinham criando um medo global há dois anos, por fim se tornaram realidade.
-Mas, desta vez, havia um elemento que os bancos não esperavam, não é mesmo? Após o estouro da bolha, que desta vez já nasceu muito maior que a de 2007, a própria população interferiu, justamente quando os bancos já iniciavam seus planos de recuperação mútua. Sob minha liderança, milhões de pessoas sacavam dinheiro de seus bancos, todos ao mesmo tempo. Foi a minha manobra monetária contra a sua e, com isto, ficou impossível a recuperação do sistema todo. Com a economia dos EUA quebrada de uma forma como nunca havia acontecido antes, a economia internacional foi gravemente afetada, e isto encorajou países rivais a arriscar tudo para consolidar o que seria o fim do império norte-americano.
-O que se iniciou com quatro países em guerra, se multiplicou para dezoito em seis meses. O colapso econômico culminou em guerras civis em quase todos os países do ocidente. A existência da ONU já era em vão, e em mais alguns meses, nem mesmo as fronteiras entre um país e outro fazia sentido. A revolução foi mais rápida que eu imaginei, confesso. Eu sonhei minha vida toda com os dias em que derrubaríamos o capitalismo, e eu sabia que haveria muito sangue derramado, mas aquilo foi assustador. O pouco que conseguíamos saber por mídias alternativas era que a população mundial havia decrescido dois terços – fenômeno assustador que ficou conhecido como A Grande Queda. Não tive tempo nem ao menos de tentar liderar qualquer parcela que fosse do levante, no país em que eu estava na época. Assim que o mundo se cobriu numa cadeia de guerras, eu já havia me tornado o principal vilão. Meu rosto continuava sendo o mais popular daquilo que restava do mundo, mas, desta vez, eu era o causador de tudo aquilo, eu era o homem mais odiado da face da Terra.


-Era? Ainda é! Você fala como se tivesse passado muito tempo, desde então. Eu não sei se você ainda consegue raciocinar, no estado deplorável que você se encontra, mas nós estamos no dia 4 de abril de 2046!
-Passaram-se apenas três anos desde que você organizou aquele motim financeiro vergonhoso. E agora, você está feliz com seu resultado? Era isso que você queria? Um mundo inteiro completamente destruído, com as pessoas morrendo de fome?


-Quem é você para falar que as pessoas estão morrendo de fome? Agora você se importa com elas? O mundo não era tão diferente do que está agora, com o seu culto ao Dólar!
-Mas, se é isso o que você quer ouvir, eu digo: NÃO! Eu não estou feliz! Não era isso o que eu queria. Eu não sei o que aconteceu! Eu passei a minha vida inteira pensando em como mudar tudo, em como tornar o mundo um lugar melhor, sem toda aquela desigualdade social, sem má distribuição de renda, sem a existência do dinheiro! E eu consegui! Eu fiz o impossível, eu destruí o capitalismo! Onde foi que eu errei?


-Imbecil. Imbecil! Mil vezes imbecil! Como pode ser tão burro? Ao menos sua burrice está me proporcionando justamente o que eu queria quando te encontrasse: esfregar seu erro na sua cara, para você passar o que resta de sua existência miserável no mundo que você deixou para si mesmo pensando como foi que você não percebeu!


Clap! Clap! Clap! Clap!

Neste momento ele levantou-se da cadeira e começou a me rodear, enquanto batia palmas.


-Parabéns! Você realmente conseguiu fazer o impossível! Você destruiu o capitalismo. Você passou sua vida inteira planejando como faria isso, como faria sua porcaria de revolução; você só se esqueceu de pensar em uma coisa: A SUCESSÃO.
-E depois? Depois de derrubar o capitalismo, o que é que você colocaria no lugar? Isso realmente nunca passou pela sua cabeça?
-De que adianta retirar do poder um rei, se você não tem ninguém para colocar no lugar dele? De que adianta retirar do poder um presidente, se os outros candidatos estão dentro do mesmo sistema, e têm as mesmas características que têm todo político? De que adianta retirar da sociedade o sistema capitalista se você não tem nada para colocar no lugar?
-Por quê você acha que o socialismo não deu certo? O fracasso do socialismo, em cada uma de suas pífias tentativas práticas, é deveras parecido com o seu. Tirar o capitalismo para colocar uma porcaria de sistema tão falho quanto, em um local específico dentro de um mundo predominantemente capitalista? Isso não soa como uma piada para você? É claro que nunca daria certo. Mas, ainda assim, eles tinham algo para colocar no lugar, certo?


A sala foi tomada por uma gargalhada um tanto quanto forçada.


-Seu objetivo era apenas destruir, mas após a destruição, vem a reconstrução, vem a sucessão – e esta, meu caro, é a principal parte de uma revolução!


Ao ouvir tudo aquilo que ele dizia, meus pensamentos foram longe. Meu olhar ficou vago. Olhava para aquele rosto com expressões vívidas e ameaçadoras, mas via a mim mesmo. Via toda minha vida como um filme passando diante dos meus olhos. Todos aqueles anos estudando. O turbilhão de acontecimentos e polêmicas que tive inserido todos esses anos. Tudo aquilo por que passei e tudo aquilo que consegui. Para nada! Para culminar em um resultado ainda pior do que era antes. E tudo aquilo por tão pouco. Por um erro bobo. Como não pensei nisso? Como não pensei no que fazer depois?

Fui atingido por um leve tapa na cara.


-Você está ouvindo o que eu estou dizendo? Eu te fiz uma pergunta! Você sabe o que vai acontecer agora?


-Não. Ninguém sabe o que vai acontecer agora.


Adam tornou a soltar uma gargalhada.


-É aí que você se engana. Só porque você é um imbecil, não significa que todas as outras pessoas também o são. Mas não quero estender muito mais esta conversa, a hora já está chegando.


-A hora para que?!


-Você já vai saber. Vou finalizar o que tenho para te dizer e, em dezoito minutos, vamos para o grand finale!
-Ao contrário de você, eu pensei na sucessão. Desde que você conseguiu arrancar o capitalismo do mundo eu tenho moldado a ideia de como vamos recuperá-lo. Assim como meu erro garantiu sua vitória, o seu também garantiu a minha. Durante estes três anos, em vez de me esconder nos escombros como você, eu mantive contato com os principais líderes mundiais que conseguiram se manter vivos. Nossas conversas foram muito satisfatórias! Se tivéssemos mais tempo, adoraria te mostrar nosso planejamento detalhado para os próximos anos, vai ser histórico! Será mais grandioso do que os acordos de Bretton Woods em 1944! Meu sobrenome vai permanecer nos livros de história por muito tempo, não só como o sobrenome da família mais poderosa do século, mas também como o nome da ascensão do capitalismo ao mundo todo!
-Na verdade, tudo sempre esteve planejado caso alguém como você um dia conseguisse seu glorioso feito. Eu só estive ajeitando os detalhes e tudo já está prontinho há algum tempo, só faltava um pequeno elemento: você! É chegado o momento!
-Homens, por favor, executar o procedimento! Esta conversa está terminada.


Sem dizer mais nada, ele se afastou em direção à porta e saiu da sala. Os dois homens que estavam nos cantos de trás da sala desde o início da conversa se aproximaram, e logo entraram duas moças, vestidas de branco. Eram enfermeiras, e me aplicaram uma injeção no meu braço direito.

O pavor tornou a tomar conta do meu corpo, mas, desta vez, meu coração não acelerou e minhas pupilas não dilataram. Devia ser este o exato motivo daquela injeção: impedir meu sistema nervoso de colapsar e não me deixar ver a tudo o que aconteceria comigo nos momentos seguintes. Me sentia mole, sem forças. Os homens me desataram da cadeira e me carregaram pelos braços por entre os corredores daquele labirinto sujo e vazio. Meus pés trepidavam levemente conforme passavam por cima das pequenas concentrações de pedrinhas e areia que haviam pelo chão.

Um clarão invadiu minha vista. Estávamos ao ar livre. Um barulho intenso de vozes se intensificou, característico de uma multidão que estava tendo, finalmente, o que esperavam: a mim. Os homens me viraram e pude ver, do alto de uma ribanceira, uma plateia de milhares de pessoas que comemoravam ao me ver. Eu estava na ponta daquele barranco, abaixo de uma enorme estrutura de madeira. Ao meu lado esquerdo, Adam vestia um terno inteiro amarelo, que se completava com uma cartola em sua cabeça. Ele estava realmente decidido a voltar às origens do capitalismo. Com um microfone ligado à enormes caixas de som, ele começou a falar.


-Senhoras e senhores, conforme prometido, apresento a vocês o espetáculo do começo de uma nova era! A reconstrução do mundo como conhecíamos antes, o recomeço do capitalismo, o fim da Grande Queda!


O barulho das pessoas alvoroçadas, como ao ouvir sua música preferida em um show de rock, era ensurdecedor.


-Como vocês sabem, todo recomeço vem após algum final, e o final de hoje vocês já sabem qual é, não sabem? O começo desta nova se inicia após o fim dele!


Ao dizer isto, ele apontou para mim.


-Homens, deem a este homem o final que ele merece!


Neste momento, aqueles homens que ainda me seguravam pelos braços amarraram minhas mãos uma à outra, e envolveram meu pescoço em uma corda grossa que descia devagar da estrutura de madeira. Era uma forca. Eles iam me enforcar diante de milhares de pessoas, que provavelmente só estavam ali para assistir à minha morte.

Com um sorriso no rosto, e muito entusiasmo, Adam veio até mim e disse: “Obrigado!”. Voltou ao microfone.


-Quero ouvir todos vocês em uma contagem regressiva, junto comigo.
-Cinco!


Não conseguia nem ao menos chorar. Estava fortemente dopado.


-Quatro!


Será que eu realmente merecia aquilo?


-Três!


No meio da multidão começou a se desenrolar uma enorme bandeira, com aquilo que deveria ser o nome daquela nova revolução comandada por Adam.


-Dois!


Engoli a seco, esperando a morte. Parece que Adam teve realmente o que queria, pois na minha mente ecoava, em loop eterno, a pergunta: “Como é que eu não pensei nisso?”.


-Um!


Meu corpo inteiro se gelou. Senti um forte empurrão que me jogou do alto daquela ribanceira, direto para a morte. Meu corpo caía em câmera lenta. Já em queda, fiz a última coisa em vida: terminei de ler o que estava escrito na bandeira, que agora já havia se desenrolado por completo. Ele nomeou a revolução dele, com uma frase minha em um dos meus livros. Estava escrito “O OUTRO LADO DA MOEDA”.