quarta-feira, 4 de abril de 2018

A Sucessão

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina


Depois de três semanas sozinho em uma casa abandonada e parcialmente destruída, acredite em mim: nada o impede de sair nas ruas. Nada! Especialmente quando não se come nada por três dias. O desespero foi maior. Minha imaginação, de tudo o que poderia acontecer comigo se eu fosse visto e reconhecido foi, ao longo do tempo, dando lugar a outros pensamentos, a outras prioridades, à minha própria sobrevivência. Até que cheguei a uma conclusão: se me capturassem, talvez eu sobreviveria, mas ali; com o frio cada dia mais intenso e com o estoque de alimentos findado, eu com certeza morreria.

Só mesmo o instinto animal de sobrevivência para vencer meu medo de ser encontrado. Atirei-me pela porta dos fundos. Já no meu segundo passo fora daquela velha casa, meu coração disparou. Vi, de longe, uma mulher vestida de amarelo. Só podia ser um deles! Os pelos do meu corpo se arrepiaram, minhas pupilas dilataram e, com a claridade do reflexo da luz do dia na neve que cobria quase tudo, fiquei completamente cego. Não enxergar me deixou ainda mais nervoso, e isto tudo foi como uma bola de neve até que meu sistema nervoso colapsou.

Bem, eu não entendo nada dessas coisas, meu campo de conhecimento é completamente outro, mas esta foi mais ou menos a explicação que aquela moça me deu quando acordei em uma cela e perguntei o que é que havia acontecido comigo. Não que tenha tornado as coisas mais claras, afinal, eu continuava sem saber onde estava, quem era ela, e porquê eu estava preso ali. Mas só o que ela respondia para todas as outras perguntas, sempre com um sorriso de satisfação no rosto, era: “aguarde um momento que tudo já lhe será esclarecido”.

Estava meio zonzo. Sentia uma dor dos infernos na cabeça, devo tê-la batido quando desmaiei na rua. Sentei-me no colchão duro e sujo que havia atrás de mim, no qual havia acordado em cima, há alguns minutos. Não havia mais nada naquele cubículo além daquele colchão e de mim. Aquela moça, que até então havia me parecido bastante doce e muito contente, levantou-se e se esvaiu pelo corredor, que ficava um pouco na diagonal da porta da cela, de modo que só pude acompanhar seus movimentos até metade do caminho. Para ver onde aquele corredor obscuro entregaria aquela moça tão simpática, eu teria de levantar, e meu corpo doía muito para isto.

Continuei, portanto, apenas a mover meus olhos, passeando com minhas pupilas por todos os lados, examinando cada centímetro à minha volta. Você pode estar se perguntando o porquê eu não estou apavorado, afinal acordei preso em uma cela sem informação nenhuma sobre nada, mas, confie em mim; se eu estava vivo até agora, aquelas pessoas não poderiam ser inimigas. Se algum deles tivesse me pego eu provavelmente estaria sendo torturado. E, afinal, havia ali um colchão! Por mais duro, sujo e velho que era, ainda assim era um colchão de verdade. Se não me falha a memória, desde antes da revolução acontecer eu não deitava em uma beleza dessas.

Continuei observando tudo, entretanto, a única coisa que havia ali, além da sujeira e de duas baratas que passeavam pelo chão, era uma chapa de metal, de mais ou menos trinta centímetros quadrados, embutida em uma das paredes laterais da cela.

A moça não retornava, o silêncio cortava os ouvidos como uma navalha. O cansaço voltou a me dominar e, sem perceber, caí no sono. Acordei num pulo quando a chapa de metal se levantou, grunhindo um barulho estridente de metais se arranhando. Uma bandeja com um prato de comida e um copo de água deslizou pelo buraco e, antes mesmo de esboçar alguma reação, a chapa de metal se abaixou, ecoando seu grunhido novamente pelas paredes sujas daquele calabouço.

Não demorei a comer e beber tudo o que haviam me dado. Mesmo acostumado com a escassez que já durava anos, a fome e a sede me retorciam por dentro. Passado mais algum tempo, a moça retorna. Ouvi seus passos, se aproximando pelo mesmo corredor através do qual havia se esvaído mais cedo. Porém, quanto mais alto era o som, mais era distinguível que haviam mais pessoas. Será que era mesmo a moça? Aquele medo, que havia dado lugar à tranquilidade nas últimas horas, se espalhou pelo meu corpo novamente.

Sentei-me no colchão, olhando para o corredor. A moça então aparece, mas em vez daquela cena me tranquilizar, ela confirmou o que eu mais temia: ela vestia um casaco amarelo. Como eu não pude perceber? Ela era a menina que eu avistei de longe na rua antes de desmaiar! Ela era um deles!

“Ele está acordado, podem levá-lo”, disse ela, com o mesmo sorriso de satisfação no rosto, que agora soou muito mais maligno do que das primeiras vezes. Os sons de botinas marchando, quase que num sincronismo perfeito, deu lugar à imagem de dois homens mal-encarados na porta da cela. Colapsei novamente. Fui carregado pelos dois, sem maiores dificuldades, aos berros, pela cela afora. Minhas pupilas se dilataram novamente. Pouco pude enxergar do caminho através do qual me carregavam, sem poder saber se era o mesmo corredor diagonal que partia da porta da cela. Mas em quê isso importava?

Não tinha mais forças para gritar. Fui posto sentado em uma cadeira, meus pés e mãos foram atados firme, mas cuidadosamente a ela. Aos poucos, minha situação foi voltando ao normal, minha respiração foi ficando mais lenta, fui recuperando minha visão e a imagem de uma cadeira foi ficando cada vez mais nítida na minha frente. Olhei ao meu redor, estava em uma sala vazia, com apenas a minha cadeira e uma cadeira na minha frente. Os homens que haviam me trazido e me posicionado ali, estavam um em cada canto da parede, atrás de mim. Não havia janelas, apenas uma porta de ferro, com as quinas enferrujadas, na parede ao meu lado esquerdo.

Era uma cena clássica de interrogatório, faltava apenas o interrogador. Para completar o cenário, já começava a ouvir os passos de alguém se aproximando pela porta, mas, contanto que tudo aquilo estava um tanto quanto óbvio, nem em todo o tempo que passei temendo que este dia chegasse eu pude imaginar quem é que entraria por aquela porta para me interrogar.

Meus olhos não acreditavam no que viam: Adam Walton, o maior capitalista do século, estava à minha frente! Era ele mesmo, apesar de o ter visto apenas pelos diversos meios midiáticos, não tinha como confundir – ele fora o rosto mais evidente nos últimos anos, tão evidente quanto o meu. Sentou na cadeira à minha frente e fitou-me durante alguns segundos. Eu fazia o mesmo, enquanto minha mente tentava processar toda aquela informação. Ele vestia terno e gravata, e deslizava em cima de dois sapatos de couro brilhantes. Como isso era possível, nos dias de hoje? Como é que ele sabia que eu estava ali e onde diabos seria aquele lugar, afinal? Minha cabeça estava à mil!


-Até que enfim estamos frente a frente. Cheguei a pensar que você seria capaz de fugir de mim durante a vida toda.


Com uma voz rouca e ligeiramente trêmula, respondi.


-Eu não fugi de você. Você não compareceu aos debates.


-Eu não estou falando de antes da Grande Queda. Depois que sua revolução ruiu em migalhas, você se escondeu como um rato por entre os escombros, por anos! Covarde!
-Mas não estou aqui para te atacar, você já teve o que mereceu. Bem... ao menos uma boa parte. Estou aqui para entender. Estou aqui para ouvir de você, toda a história por trás disso tudo e dar meu toque final a esta história de terror.
-Então eu quero que você me conte. Eu quero saber de cada detalhe, de tudo o que aconteceu nos bastidores, onde os holofotes não iluminavam, e então, vou conseguir colocar nessa sua cabeça vazia o porquê o resultado foi esse.
-Vamos! Comece! Eu não tenho todo o tempo do mundo. Aliás, nós dois não temos muito tempo.


Minha mente não conseguia acompanhar a tudo aquilo acontecendo de uma só vez. Se fosse há alguns anos atrás, eu enfrentaria uma situação como esta com facilidade; mas hoje, meu cérebro já não era mais o mesmo. Não fui capaz de reagir de forma inteligente, questionar, entender e nem mesmo me recusar a fazer o que ele pedia. Fiquei apático e apenas segui sua ordem, como se estivesse atendendo a um pedido de um amigo de longa data.


-Está bem. Vou tentar detalhar ao máximo.
-Eu nasci em uma família pobre, assim como era 99% da população mundial, graças ao seu querido sistema. Assistir aos meus pais darem suas vidas para seus empregos e ainda assim termos apenas o mínimo para nossa sobrevivência, durante toda minha infância, moldou minha cabeça com uma revolta latente contra o que causava tudo aquilo.
-Durante minha adolescência, superei todas as dificuldades que me cercavam por conta de minha classe social e me tornei um estudioso de tudo o que permeava os grandes sistemas que governavam nosso mundo naquela época, sobretudo o sistema capitalista e monetário. Me tornei um exímio estudante e fui o destaque, não só de minha escola e de minha cidade, mas de todo meu país, sendo nacionalmente conhecido.
-Comecei minhas fortes críticas ao sistema capitalista, ao mesmo tempo que, por ter vindo debaixo, diferentemente de quase todo grande filósofo, economista e escritor; eu escrevia, palestrava e divulgava o meu trabalho em uma linguagem acessível e familiar a maior parte da população mundial. Talvez tenha sido isto que deu tanta força às minhas ideias.
-Aos vinte e oito anos já viajava o mundo todo em conferências, palestras, debates e workshops sobre o porquê o capitalismo deveria ser destruído. Foi nesta época que nos conhecemos. A sede das pessoas por separar tudo em dois lados acabou tornando-nos os principais rostos no cenário global: o homem mais rico da atualidade contra o homem que mais odiava o dinheiro, o capitalismo contra o não-capitalismo, o vermelho da revolução contra o amarelo da moeda, eu contra você. A partir de então, você começou o seu jogo sujo, e eu passei a não estar mais seguro em nenhum lugar do planeta.


-Ora, não despeje acusações infundadas, por favor. Você acha que eu estava preocupado pensando em que lugar você estaria a cada noite? Você realmente acha que eu era sozinho, que eu planejava e ordenava tudo? Não seja tolo.


- Eu estou sendo tolo? Eu sei que não era só você, mas da mesma forma que você não estava sozinho, eu também não estava! De que adiantaria me matar? Hein?!


-Você estudou muito, mas se esqueceu de estudar a forma como as pessoas pensam. Eu sei muito bem que você não era sozinho, mas você era o representante, a figura que simbolizava toda aquela ideia. Com você morto, tudo morria junto, na cabeça das pessoas! Ainda que seus aliados quisessem continuar suas ideias, tudo perderia força e o capitalismo não estaria mais ameaçado. É assim que sempre funcionou, e que conseguimos manter nossa hegemonia por tanto tempo.


-A ideologia de vocês é realmente inescrupulosa! Eu jamais pensei em te matar! Já não basta a vida dos milhares de pessoas que seu sistema maldito matava de fome todos os dias?!


-Basta! Me poupe do seu moralismo barato. Continue sua história ridícula porque estou ansioso para esfregar seus erros na sua cara. Ande logo! Continue!


-Os anos seguintes que passei escondido, com medo de ser morto por algum verme endinheirado como você, foram justamente os anos que me asseguraram a vitória. Este foi o seu erro! Sem comparecer a eventos, fazendo apenas vídeos para a internet que comprovavam que eu estava vivo e que deixavam aqueles que também queriam o fim do capitalismo ainda mais fervorosos, me sobrou muito mais tempo para estudar de que forma poderíamos derrubar de uma vez por todas este reinado de séculos. E enfim chegávamos a 2043! Eu nunca vou me esquecer daquele ano. Os rumores de uma nova crise no mercado imobiliário dos Estados Unidos, que vinham criando um medo global há dois anos, por fim se tornaram realidade.
-Mas, desta vez, havia um elemento que os bancos não esperavam, não é mesmo? Após o estouro da bolha, que desta vez já nasceu muito maior que a de 2007, a própria população interferiu, justamente quando os bancos já iniciavam seus planos de recuperação mútua. Sob minha liderança, milhões de pessoas sacavam dinheiro de seus bancos, todos ao mesmo tempo. Foi a minha manobra monetária contra a sua e, com isto, ficou impossível a recuperação do sistema todo. Com a economia dos EUA quebrada de uma forma como nunca havia acontecido antes, a economia internacional foi gravemente afetada, e isto encorajou países rivais a arriscar tudo para consolidar o que seria o fim do império norte-americano.
-O que se iniciou com quatro países em guerra, se multiplicou para dezoito em seis meses. O colapso econômico culminou em guerras civis em quase todos os países do ocidente. A existência da ONU já era em vão, e em mais alguns meses, nem mesmo as fronteiras entre um país e outro fazia sentido. A revolução foi mais rápida que eu imaginei, confesso. Eu sonhei minha vida toda com os dias em que derrubaríamos o capitalismo, e eu sabia que haveria muito sangue derramado, mas aquilo foi assustador. O pouco que conseguíamos saber por mídias alternativas era que a população mundial havia decrescido dois terços – fenômeno assustador que ficou conhecido como A Grande Queda. Não tive tempo nem ao menos de tentar liderar qualquer parcela que fosse do levante, no país em que eu estava na época. Assim que o mundo se cobriu numa cadeia de guerras, eu já havia me tornado o principal vilão. Meu rosto continuava sendo o mais popular daquilo que restava do mundo, mas, desta vez, eu era o causador de tudo aquilo, eu era o homem mais odiado da face da Terra.


-Era? Ainda é! Você fala como se tivesse passado muito tempo, desde então. Eu não sei se você ainda consegue raciocinar, no estado deplorável que você se encontra, mas nós estamos no dia 4 de abril de 2046!
-Passaram-se apenas três anos desde que você organizou aquele motim financeiro vergonhoso. E agora, você está feliz com seu resultado? Era isso que você queria? Um mundo inteiro completamente destruído, com as pessoas morrendo de fome?


-Quem é você para falar que as pessoas estão morrendo de fome? Agora você se importa com elas? O mundo não era tão diferente do que está agora, com o seu culto ao Dólar!
-Mas, se é isso o que você quer ouvir, eu digo: NÃO! Eu não estou feliz! Não era isso o que eu queria. Eu não sei o que aconteceu! Eu passei a minha vida inteira pensando em como mudar tudo, em como tornar o mundo um lugar melhor, sem toda aquela desigualdade social, sem má distribuição de renda, sem a existência do dinheiro! E eu consegui! Eu fiz o impossível, eu destruí o capitalismo! Onde foi que eu errei?


-Imbecil. Imbecil! Mil vezes imbecil! Como pode ser tão burro? Ao menos sua burrice está me proporcionando justamente o que eu queria quando te encontrasse: esfregar seu erro na sua cara, para você passar o que resta de sua existência miserável no mundo que você deixou para si mesmo pensando como foi que você não percebeu!


Clap! Clap! Clap! Clap!

Neste momento ele levantou-se da cadeira e começou a me rodear, enquanto batia palmas.


-Parabéns! Você realmente conseguiu fazer o impossível! Você destruiu o capitalismo. Você passou sua vida inteira planejando como faria isso, como faria sua porcaria de revolução; você só se esqueceu de pensar em uma coisa: A SUCESSÃO.
-E depois? Depois de derrubar o capitalismo, o que é que você colocaria no lugar? Isso realmente nunca passou pela sua cabeça?
-De que adianta retirar do poder um rei, se você não tem ninguém para colocar no lugar dele? De que adianta retirar do poder um presidente, se os outros candidatos estão dentro do mesmo sistema, e têm as mesmas características que têm todo político? De que adianta retirar da sociedade o sistema capitalista se você não tem nada para colocar no lugar?
-Por quê você acha que o socialismo não deu certo? O fracasso do socialismo, em cada uma de suas pífias tentativas práticas, é deveras parecido com o seu. Tirar o capitalismo para colocar uma porcaria de sistema tão falho quanto, em um local específico dentro de um mundo predominantemente capitalista? Isso não soa como uma piada para você? É claro que nunca daria certo. Mas, ainda assim, eles tinham algo para colocar no lugar, certo?


A sala foi tomada por uma gargalhada um tanto quanto forçada.


-Seu objetivo era apenas destruir, mas após a destruição, vem a reconstrução, vem a sucessão – e esta, meu caro, é a principal parte de uma revolução!


Ao ouvir tudo aquilo que ele dizia, meus pensamentos foram longe. Meu olhar ficou vago. Olhava para aquele rosto com expressões vívidas e ameaçadoras, mas via a mim mesmo. Via toda minha vida como um filme passando diante dos meus olhos. Todos aqueles anos estudando. O turbilhão de acontecimentos e polêmicas que tive inserido todos esses anos. Tudo aquilo por que passei e tudo aquilo que consegui. Para nada! Para culminar em um resultado ainda pior do que era antes. E tudo aquilo por tão pouco. Por um erro bobo. Como não pensei nisso? Como não pensei no que fazer depois?

Fui atingido por um leve tapa na cara.


-Você está ouvindo o que eu estou dizendo? Eu te fiz uma pergunta! Você sabe o que vai acontecer agora?


-Não. Ninguém sabe o que vai acontecer agora.


Adam tornou a soltar uma gargalhada.


-É aí que você se engana. Só porque você é um imbecil, não significa que todas as outras pessoas também o são. Mas não quero estender muito mais esta conversa, a hora já está chegando.


-A hora para que?!


-Você já vai saber. Vou finalizar o que tenho para te dizer e, em dezoito minutos, vamos para o grand finale!
-Ao contrário de você, eu pensei na sucessão. Desde que você conseguiu arrancar o capitalismo do mundo eu tenho moldado a ideia de como vamos recuperá-lo. Assim como meu erro garantiu sua vitória, o seu também garantiu a minha. Durante estes três anos, em vez de me esconder nos escombros como você, eu mantive contato com os principais líderes mundiais que conseguiram se manter vivos. Nossas conversas foram muito satisfatórias! Se tivéssemos mais tempo, adoraria te mostrar nosso planejamento detalhado para os próximos anos, vai ser histórico! Será mais grandioso do que os acordos de Bretton Woods em 1944! Meu sobrenome vai permanecer nos livros de história por muito tempo, não só como o sobrenome da família mais poderosa do século, mas também como o nome da ascensão do capitalismo ao mundo todo!
-Na verdade, tudo sempre esteve planejado caso alguém como você um dia conseguisse seu glorioso feito. Eu só estive ajeitando os detalhes e tudo já está prontinho há algum tempo, só faltava um pequeno elemento: você! É chegado o momento!
-Homens, por favor, executar o procedimento! Esta conversa está terminada.


Sem dizer mais nada, ele se afastou em direção à porta e saiu da sala. Os dois homens que estavam nos cantos de trás da sala desde o início da conversa se aproximaram, e logo entraram duas moças, vestidas de branco. Eram enfermeiras, e me aplicaram uma injeção no meu braço direito.

O pavor tornou a tomar conta do meu corpo, mas, desta vez, meu coração não acelerou e minhas pupilas não dilataram. Devia ser este o exato motivo daquela injeção: impedir meu sistema nervoso de colapsar e não me deixar ver a tudo o que aconteceria comigo nos momentos seguintes. Me sentia mole, sem forças. Os homens me desataram da cadeira e me carregaram pelos braços por entre os corredores daquele labirinto sujo e vazio. Meus pés trepidavam levemente conforme passavam por cima das pequenas concentrações de pedrinhas e areia que haviam pelo chão.

Um clarão invadiu minha vista. Estávamos ao ar livre. Um barulho intenso de vozes se intensificou, característico de uma multidão que estava tendo, finalmente, o que esperavam: a mim. Os homens me viraram e pude ver, do alto de uma ribanceira, uma plateia de milhares de pessoas que comemoravam ao me ver. Eu estava na ponta daquele barranco, abaixo de uma enorme estrutura de madeira. Ao meu lado esquerdo, Adam vestia um terno inteiro amarelo, que se completava com uma cartola em sua cabeça. Ele estava realmente decidido a voltar às origens do capitalismo. Com um microfone ligado à enormes caixas de som, ele começou a falar.


-Senhoras e senhores, conforme prometido, apresento a vocês o espetáculo do começo de uma nova era! A reconstrução do mundo como conhecíamos antes, o recomeço do capitalismo, o fim da Grande Queda!


O barulho das pessoas alvoroçadas, como ao ouvir sua música preferida em um show de rock, era ensurdecedor.


-Como vocês sabem, todo recomeço vem após algum final, e o final de hoje vocês já sabem qual é, não sabem? O começo desta nova se inicia após o fim dele!


Ao dizer isto, ele apontou para mim.


-Homens, deem a este homem o final que ele merece!


Neste momento, aqueles homens que ainda me seguravam pelos braços amarraram minhas mãos uma à outra, e envolveram meu pescoço em uma corda grossa que descia devagar da estrutura de madeira. Era uma forca. Eles iam me enforcar diante de milhares de pessoas, que provavelmente só estavam ali para assistir à minha morte.

Com um sorriso no rosto, e muito entusiasmo, Adam veio até mim e disse: “Obrigado!”. Voltou ao microfone.


-Quero ouvir todos vocês em uma contagem regressiva, junto comigo.
-Cinco!


Não conseguia nem ao menos chorar. Estava fortemente dopado.


-Quatro!


Será que eu realmente merecia aquilo?


-Três!


No meio da multidão começou a se desenrolar uma enorme bandeira, com aquilo que deveria ser o nome daquela nova revolução comandada por Adam.


-Dois!


Engoli a seco, esperando a morte. Parece que Adam teve realmente o que queria, pois na minha mente ecoava, em loop eterno, a pergunta: “Como é que eu não pensei nisso?”.


-Um!


Meu corpo inteiro se gelou. Senti um forte empurrão que me jogou do alto daquela ribanceira, direto para a morte. Meu corpo caía em câmera lenta. Já em queda, fiz a última coisa em vida: terminei de ler o que estava escrito na bandeira, que agora já havia se desenrolado por completo. Ele nomeou a revolução dele, com uma frase minha em um dos meus livros. Estava escrito “O OUTRO LADO DA MOEDA”.

domingo, 25 de março de 2018

10 centavos - Ensaios sobre a perfeição - Parte 1

Autor: Gustavo Spina


De acordo com o dicionário Aurélio de língua portuguesa, Perfeição é um substantivo qualitativo significando “o grau de excelência, bondade ou beleza a que pode chegar alguma coisa” [1]. Filosoficamente, o conceito de perfeição é muito mais amplo, e já foi bastante discutido, passando por nomes como Santo Agostinho e Leibniz.

No âmbito social, em nosso cotidiano, a perfeição é um conceito de uso subliminar, diário e, paradoxalmente, quase nunca discutido. Isso se deve ao fato de que, basicamente, este conceito é cega e popularmente aceito e, concomitantemente a isto, possui fundamentação teórica extremamente grande e difícil. Analisemos.

Começando pelo primeiro motivo, o conceito de perfeição é intrinsecamente ligado ao conceito de Deus, ou deus. Uma vez que vivemos em um mundo majoritariamente monoteísta [2], é de se esperar que qualquer conceito que circunde esta atmosfera seja popular e cegamente aceito. Chegando ao segundo motivo, basta que façamos uma rápida pesquisa no Google para nos depararmos com uma infinidade de grandes nomes da Filosofia mundial despendendo páginas e mais páginas acerca deste conceito. Sua complexidade teórica é assombrosa e, portanto, vai na contramão de uma ideia corriqueiramente discutida. Dessa forma, apesar de utilizarmos este conceito o tempo todo, afirmando que algo ou alguém é perfeito ou imperfeito, nem ao menos sabemos do que realmente se trata a perfeição.

Vamos então despender mais algumas linhas para compreendermos um pouco melhor este conceito, de forma simples, mas chegando a conclusões muito interessantes.

Vamos inspecionar este conceito verificando sua natureza e unicidade. Quais os fundamentos básicos acerca da perfeição? Seria a perfeição uma característica única? O intuito deste pequeno artigo é explorar de forma superficial o conceito a fim de definir seus alicerces e descobrir se é possível haver graus ou tipos diferentes de perfeição.

O conceito de perfeição é um compilado de muitos outros conceitos, é uma qualidade suprema, feita de inúmeras outras qualidades. A perfeição é uma característica que abrange diversas outras, mas, podemos definir seus pilares fundamentais os conceitos de “máximo” e “infinito”. A perfeição deve ser entendida primordialmente como uma qualidade máxima e infinita. Tudo o mais que pertencer à qualidade da perfeição deverá, portanto, ser máximo e infinito. Como exemplo, se incluirmos a característica de bondade à perfeição, esta bondade deverá então ser máxima e infinita. Desta forma, por definição devemos assumir que nenhuma outra bondade é maior ou igual (nada é maior ou igual que o infinito) nem melhor (não há como ultrapassar o máximo de uma qualidade). Isto responde, automaticamente, ao nosso segundo questionamento. Através de seus pilares fundamentais, a perfeição se caracteriza única, não deixando a hipótese de haver mais de um tipo ou diferentes graus de perfeição no mundo das possibilidades reais.

Para simplificar o entendimento, vamos fazer uma representação pictórica do conceito de perfeição como uma escala de medida em metros: suponhamos que, nesta escala de medida que criamos, a máxima medida em metros corresponde à perfeição. Para iniciar a disputa, imaginemos que se levante a opinião de que o Sol, de nosso sistema solar, seja tido como perfeito. Nosso Sol de fato é uma estrela muito grande, com um diâmetro de cerca de 1.392.000 km [3]. Entretanto, vasculhando um pouco mais o universo, nos deparamos com a estrela Antares, aproximadamente 700 vezes maior que nosso Sol [4]. Sendo assim, o Sol deixa de ser perfeito, dando lugar à nova perfeição: Antares! Nada pode ser maior. Será? E o espaço percorrido entre o nosso Sol e Antares, não é muito maior do que qualquer uma dessas estrelas?

Enfim, para toda e qualquer distância absurdamente grande candidata ao título de perfeita, sempre poderemos adicionar mais alguns centímetros, e assim por diante ad infinitum. Como não há, fisicamente, um limite superior em metros, somente um tamanho infinito corresponderia, neste nosso exemplo hipotético, a um tamanho perfeito. Qualquer distância próxima ao limite máximo, será inferior a este e, portanto, imperfeita (e não com algum grau de perfeição ou com algum outro tipo de perfeição).

Sendo assim, podemos estender essa compreensão para toda e qualquer qualidade que desejarmos incluir como parte integrante da perfeição: a bondade, a sapiência, a potência etc. Quais serão as implicações quando tentamos aplicar o conceito de perfeição a um ser?

[1] - https://dicionariodoaurelio.com/perfeicao Acesso em: 25 Mar. 2018



[4] - http://www.apolo11.com/escala_planetas.php Acesso em: 25 Mar. 2018

sábado, 3 de março de 2018

O Outro Lado da Música 1 - Pátria que me pariu - Gabriel, O Pensador

(4x)Pátria que me pariu!
Quem foi a Pátria que me pariu!?

Uma prostituta, chamada Brasil se esqueceu de tomar a pílula,
e a barriga cresceu.
Um bebê não estava nos planos dessa pobre meretriz de dezessete anos.
Um aborto era uma fortuna e ela sem dinheiro
Teve que tentar fazer um aborto caseiro.
Tomou remédio, tomou cachaça, tomou purgante
Mas a gravidez era cada vez mais flagrante.
Aquele filho era pior que uma lombriga
E ela pediu prum mendigo esmurrar sua barriga.
E a cada chute que levava o moleque revidava lá de dentro
Aprendeu a ser um feto violento.
Um feto forte escapou da morte
Não se sabe se foi muito azar ou muita sorte
Mas nove meses depois foi encontrado, com fome e com frio,
Abandonado num terreno baldio.

(4x)Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu!?

A criança é a cara dos pais mas não tem pai nem mãe
Então qual é a cara da criança?
A cara do perdão ou da vingança?
Será a cara do desespero ou da esperança?
Num futuro melhor, um emprego, um lar
Sinal vermelho, não da tempo pra sonhar
Vendendo bala, chiclete...
"Num fecha o vidro que eu num sou pivete
Eu não vou virar ladrão se você me der um leite, um pão, um vídeo game e uma televisão, uma chuteira e uma camisa do mengão.
Pra eu jogar na seleção, que nem o Ronaldinho
Vou pra copa, vou pra Europa..."
Coitadinho!
Acorda moleque! Cê num tem futuro!
Seu time não tem nada a perder
E o jogo é duro! Você não tem defesa, então ataca!
Pra não sair de maca!
Chega de bancar o babaca!
Eu não aguento mais dar murro em ponta de faca
E tudo o que eu tenho é uma faca na mão
Agora eu quero o queijo. Cadê?
cansado de apanhar. na hora de bater!

(4x)Pátria que me pariu!
Quem foi a pátria que me pariu!?

Mostra tua cara, moleque! Devia tá na escola
Mas cheirando cola, fumando um beck
Vendendo brizola e crack
Nunca joga bola mais sempre no ataque
Pistola na mão, moleque sangue bom
É melhor correr porque lá vem o camburão
É matar ou morrer! São quatro contra um!
Eu me rendo! Bum! Clá! Clá! Bum! Bum! Bum!
Boi ,boi, boi da cara preta pega essa criança com um tiro de escopeta
Calibre doze na cara do Brasil
Idade 14, estado civil morto
Demorou, mas a pátria mãe gentil conseguiu realizar o aborto.

(4x)Pátria que me pariu
Quem foi a Pátria que me pariu?

O povo brasileiro, entre muitas outras icônicas características, tem a incrível capacidade de crer apaixonadamente em contradições. E não estou falando das maiores e mais complicadas contradições que o ser humano insiste em acreditar, como crer ao mesmo tempo em um Deus onisciente e onipotente e em um Demônio autônomo; são contradições ainda mais simples de se identificar.

Por aqui, as pessoas que frequentemente saem nas ruas para levantar suas bandeiras “anti-aborto”, são as mesmas que, em qualquer conversa informal em família ou oportunidade de se expressar nas redes sociais, clamam pela diminuição da maioridade penal e comemoram com a morte diária de jovens marginais e delinquentes. A hipocrisia provinda da doutrina cristã, de um amor puro, falso e frágil, é responsável pelos princípios desta ideia, onde no primeiro caso leva as pessoas a serem “pró-vida”, mas no segundo, a defesa da vida dá lugar a um senso de justiça totalmente desprovido de lógica. Uma crença contraditória gerada por uma doutrina contraditória.
Este senso de justiça que faz com que essas pessoas não percebam que estão se apaixonando por mais uma contradição, se baseia na ideia de que, no caso do feto, estamos tratando de uma vida totalmente inocente, e no caso do adolescente, estamos tratando de um criminoso que deve ser punido da forma mais severa possível por sua pátria. Falta a estas pessoas, então, analisar um pouco melhor o que ocorreu neste intervalo de pouco mais de dez anos.

Nascer, ele nasceu. Mas o problema está longe de ser resolvido, de fato, ele está só começando. Não tem pai nem mãe, cresceu criado pela sua pátria. Sua pátria, por sua vez, não foi capaz de lhe proporcionar condições mínimas de sobrevivência: alimentação, segurança, saneamento básico e educação. Este problema endêmico do país, acontece há décadas, senão séculos, daí o motivo de ter sido abandonado por sua mãe biológica, que provavelmente nem sabia quem era o pai daquela criança, em um terreno baldio, ao nascer.

Para ele não tem leite, não tem pão, videogame, televisão, chuteira nem camisa de futebol. Uma das suas únicas companheiras é a fome, mas o que é que se pode fazer para conseguir alguns trocados, já que a mesma sociedade que defendeu seu nascimento é a primeira a se recusar a dar alguma oportunidade para um pivete, favelado? Até mesmo o mísero assistencialismo social promovido por alguns governos para diminuir esta triste desigualdade social é alvo de crítica destas pessoas detentoras da religião do amor e da caridade.

Com sorte, em vez de já leva-lo para o caminho mais fácil, mais acessível, do vício ou do tráfico de drogas, que mascara sua realidade por um tempo maior ou que lhe retorna uma quantia maior em dinheiro; seu destino pode leva-lo a vender bala, chiclete, ou fazer malabarismos nos semáforos em troca de algumas moedas. Mesmo tendo seguido por este caminho, a opção mais escolhida pelos defensores da vida é virar a cara ou fechar o vidro para estes vagabundos.
Sua estratégia não dá certo, e como é que haveria de dar? Os trocados ganhos de um carro ou outro não são suficientes para o alimentar, quem dirá para resolver os problemas de um futuro inteiro pela frente. Aos quatorze anos, cansado de apanhar, aquele feto crescido não vê outra alternativa, decide então que está na hora de bater. Agora ele é usuário de drogas, carrega uma pistola na mão e alguns delitos cometidos em nome do desespero causado por toda uma existência sem direção, orientação, base e estrutura.

É chegada a hora tão esperada pelos amantes de pensamentos contraditórios, de pedir a prisão ou de aplaudir a morte de mais um ladrãozinho miserável. É hora de clamar pela justiça! Uma justiça injusta, que culpa e pune mais uma vítima social, que deseja que a pátria elimine o indivíduo pelos erros cometidos pela própria pátria, a pátria que o pariu, que o criou, e que não o deu outra escolha.

O que falta a estas pessoas é perceber que, no fim das contas, demorou, mas a nossa pátria, longe de ser mãe gentil, longe de ser justa, longe de ser “pró-vida”, conseguiu realizar o aborto.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O Outro Lado dos Sistemas 6 – O Espectador no Papel Principal

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 5

Autor: Gustavo Spina

Quando assistimos a uma peça teatral sabemos, desde o início, que tudo aquilo não passa de uma mera encenação. Entretanto, mesmo tendo ciência deste fato, se a produção for de grandiosa qualidade podemos, ainda que por alguns instantes, incorporar aquilo que vemos à nossa realidade, tendo fortes sensações e reações durante a peça como, por exemplo, chorar pela trágica morte de algum personagem ao longo da história. Neste texto, traremos nossa discussão para um pouco mais perto de nossa vida cotidiana, para descobrir o porquê este assunto está tão longe dela; mergulhando de cabeça no grande teatro da vida real, o qual somos espectadores todos os dias, chamado POLÍTICA.

Apesar de termos obtido, através dos últimos textos, uma boa noção das razões pelas quais nós somos quem somos, estamos onde estamos e mantemo-nos nesta situação, ainda DEVE restar alguma inquietação. Esta inquietação deve estar em nossas cabeças desde o fim do texto anterior, como uma indignação, no sentido de que não seria possível que trabalhássemos para a manutenção desse sistema doentio, veementemente, em razão de algumas poucas ideologias, como o consumismo e o otimismo, salpicadas com alguns outros fatores. Não pode ser assim, tão simples. De fato, não é.

Analisando tudo o que discutimos até agora de uma forma mais perspicaz, podemos perceber que encontramos os meios através dos quais nós consumimos a nós mesmos, trabalhamos para a manutenção do próprio sistema, e louvamos a nossa própria miséria. Encontramos os porquês, as formas pelas quais agimos e os motivos pelos quais agimos da maneira que agimos. Mas até agora não sabemos como chegamos a este ponto, como estas ideologias são mantidas constantes em nosso senso comum, tampouco como isto tudo começou. Para obter respostas satisfatórias a estes questionamentos, percorreremos todas as linhas que ainda restam ser escritas nesta série de textos, concluindo-a e abrindo espaço para um outro leque de discussões e investigações talvez ainda mais interessantes.

Sem mais delongas, a política é a resposta para estas perguntas. É através do sistema político como chegamos a este ponto. Entre todas as características globais comuns entre os mais diversos sistemas políticos existentes no mundo de hoje, classifico três como as principais responsáveis pelos efeitos sociais citados nos textos anteriores: a hierarquização, o distanciamento e a proteção. Estas três características podem explicar, resumida e simplificadamente, o processo de politização do mundo.

Começando pela hierarquização, devemos voltar um pouco em nossa história evolutiva para que a entendamos: de acordo com a teoria da evolução, nossa espécie advém de antepassados com características amplamente estudadas e, por isto, muito bem conhecidas, sendo uma delas a de se dispor em grupos, a de socializar. Isso significa que trazemos em nosso código genético uma forte propensão a ser sociáveis, o que se traduz de forma óbvia em nosso atual estágio evolutivo, basta olhar a imensa sociedade, que construímos durante milhares de anos, ao nosso redor.

Viver em sociedade significa, em termos genéricos, interagir uns com os outros de forma minimamente organizada e toda e qualquer interação social, devido ao fato de agrupar diversas características individuais, traz consigo algumas características de grupo. Para o propósito deste ponto da discussão, a característica individual em questão é a liderança: a habilidade ou inabilidade de ser um líder provém, entre outros fatores, de uma maior ou menor propensão genética a esta característica. Se pudéssemos medir com precisão o nível de propensão genética em cada um de nós, analisando uma grande quantidade de indivíduos, certamente veríamos uma enorme variabilidade de valores, onde cada indivíduo teria um nível diferente afinidade à liderança. Uma vez que este grande grupo comece a interagir uns com os outros, nos momentos em que o uso desta característica for necessário, como na tomada de uma decisão que afeta todo ou grande parte do grupo, por exemplo; fica claro que os indivíduos com o nível mais alto de propensão genética à liderança vão se sobressair.

Tendo em vista que nossas características genéticas formam grande parte de nossa personalidade e não mudam em um período tão curto quanto o de nossas vidas (a evolução é um processo extremamente moroso), podemos logicamente supor que haverá recorrência deste fato. Em outras palavras, isso significa que na maioria das vezes em que houver uma situação que reivindique o uso desta característica individual, serão os mesmos indivíduos que se sobressaltarão ao grupo – aqueles com os níveis mais altos de propensão genética à característica da liderança. A recorrência deste fato, por sua vez, gerará uma liderança contínua, uma espécie de manutenção do poder para estes indivíduos e, com isto, podemos concluir o raciocínio enxergando que os indivíduos mais aptos a ser líderes se aproximam e se mantém, naturalmente, às decisões, ao poder, afastando-se, por consequência, dos outros indivíduos, formando nada menos do que uma hierarquia.

A hierarquização do grupo, apesar de ser uma das três principais características comuns aos mais variados sistemas políticos que existem e já existiram, é, na verdade, a base de tudo. Sem ela, as outras características não existiriam. De fato, o distanciamento e a proteção mantêm a hierarquização do grupo. O exemplo dado nos parágrafos anteriores remeteu a característica da hierarquização à algo natural, entretanto, é fundamental que se tenha em mente que esta naturalidade da hierarquização foi apenas uma forma de se compreender o porquê ela é uma característica de grupo e como ela pode ter surgido. Quanto mais longe de nossas raízes animais e instintivas estivermos socialmente, mais longe da naturalidade estarão as nossas características sociais, portanto, para manter esta característica tão presente em nossas sociedades ao longo da história, especialmente nos últimos séculos, muita inteligência foi (e é) necessária para isto e é deste fato que surgem as outras duas características as quais discutiremos a seguir.

Grande parte desta inteligência foi gasta na criação de um conjunto de ideias que, juntas, pudessem nos distanciar o máximo possível do poder, a ponto de nos impedir que chegássemos a ele e que, principalmente, puséssemos em risco a manutenção do poder a quem já o possui; ideias estas que formam a característica social que tomei a liberdade de chamar de distanciamento. Uma vez no poder, uma das formas mais simples que podemos imaginar de manter esta posição é evitar que outras pessoas possam chegar até ela. A escalada até o topo pode se tornar tão difícil quanto possível, à medida que quem já está lá em cima adiciona quantos obstáculos quanto puder imaginar.

Com o crescimento e intensificação das sociedades e suas relações internas, a complexidade e a quantidade de variações de atividades – trâmites – foi crescendo exponencialmente. O monitoramento e o controle dos trâmites de sociedades complexas como as nossas é inevitável, mas, o que acontece quando os tornamos excessivos? A resposta desta pergunta nos leva diretamente à porta de entrada para a criação da primeira ideia pertencente à característica do distanciamento que discutiremos: a burocracia, que pode ser definida como um “...sistema de execução da atividade pública, por funcionários com cargos bem definidos, e que se pautam por um regulamento fixo, determinada rotina e hierarquia com linhas de autoridade e responsabilidade bem demarcadas...”.

Basta que se eleve o monitoramento e controle dos trâmites sociais a um limite extremo, criando uma dificuldade absurda até nos mais simples afazeres sociais, para que as pessoas sejam vencidas por esta burocracia, sufocando seu dia-a-dia no oceano de atividades cotidianas que deveriam ser simples ou, em um mundo ideal, nem ao menos existir. Este sufocamento iminente nos ocupa, desencoraja e, em muitos casos, nos faz desistir de levar a realização de objetivos, planos e sonhos adiante, antes mesmo de tentar começá-la. Para ilustrar esta ideia, basta tentar encontrar algum meio de tornar-se político, no Brasil, sem contar com a sorte de nascer na família de algum deles.

Seguindo em frente em nossa discussão, não podemos deixar de observar que nossas condições de subsistência e nosso estilo de vida também são fatores cruciais para o distanciamento. Quanto mais privada de condições e oportunidades como saneamento básico e estudo de qualidade, e quanto mais imersa na necessidade de trabalhar para garantir essas poucas e lamentáveis condições de vida uma população é, mais distante mantêm-se da política, dos políticos e, consequentemente, de exercer alguma diferença significativa no poder das nações. E isto, para ser um pouco redundante, mantem a hierarquização: “nós” continuamos sendo a população e “eles” continuam sendo os políticos.

E por falar em exercer alguma diferença significativa no poder das nações, aposto que o fantasma da democracia já esteja rodeando seus pensamentos neste momento. A pobreza do argumento que utiliza a velha e conhecida frase de Winston Churchill, para dizer algo parecido com “a democracia é a pior forma de governo imaginável, com exceção de todas as outras experimentadas”, consiste no fato de dar crédito a algo ruim, por não ter existido nada menos pior até o momento. É triste perceber que estamos tão habituados à miséria, que nos orgulhamos de nivelar os sistemas por baixo, classificando a democracia como satisfatória, pelo simples fato de não ser péssima (e será mesmo que não é?).

Churchill tinha razão, mas apenas até a primeira vírgula de sua frase. A democracia, ao menos como é empregada hoje, ouso dizer que é a forma mais inteligentemente maligna de governar. É através da ilusão de que fazemos parte das decisões significativas no poder de nossa nação que ela proporciona a nós, muitas vezes, o conformismo com tais decisões: quando caminham para o lado que gostaríamos, nos sentimos feliz pois acreditamos estar entre os responsáveis; quando caminham para o lado contrário, culpamos aqueles que pensam diferente de nós ou, no mínimo, aguardamos obedientes até a próxima oportunidade de manifestar nosso “poder democrático”, na esperança de mudar aquela situação. Há maneira mais inteligentemente maligna de governar, que não mantendo a população tão distante quanto possível do poder, mas, ao mesmo tempo, fazendo-a acreditar que são as maiores responsáveis pelas grandes decisões, decisões estas que caminham exatamente na direção de nos manter distantes do poder? É um ciclo fascinantemente triste. Esta é a versão política da famosa ideia religiosa de que somos merecedores ou culpados pela nossa situação; afinal, todo governo é o reflexo de seu povo, certo? Não, isto definitivamente não está certo.

Para finalizar este manual de como se manter no poder, quase como uma versão moderna da clássica obra O Príncipe, de Maquiavel, temos a característica da proteção. Apesar de não termos acesso a um sistema de saúde básica de qualidade, o que muitas vezes nos toma grande parte ou até todo o tempo de uma vida preso a tratamentos médicos contínuos e recorrência de doenças, quando não nos mata na fila de espera por um transplante ou por um simples atendimento médico; apesar de não termos acesso a uma educação de qualidade, não raramente podendo concluir o ensino médio sem saber as regras básicas de nossa própria linguagem, mais ignorantes ainda em política, que não se configura como parte integrante do currículo de quase nenhum sistema de ensino nacional; apesar de trabalhar, em média, oito horas por dia, sem contar o tempo gasto com as enormes distâncias que devem ser atravessadas dentro das grandes cidades nos trajetos de ida e volta, e o tempo preso em engarrafamentos e falhas no transporte público, para garantir as mínimas condições de sobrevivência; apesar de estarmos tão ocupados com a quantidade colossal de afazeres inúteis ou fúteis os quais não podemos escapar, como pagar contas, resolver problemas em instituições financeiras e estatais, os quais nem ao menos existiriam sem a burocracia; apesar de sermos constantemente seduzidos pela doce ilusão de que fazemos a diferença e de que possuímos força, sendo bombardeados pelas ideias de que nós somos os responsáveis pela nossa situação e pela atual situação de nosso país; apesar de TUDO isto ainda pode-se encontrar resistência, força, disciplina, conhecimento e engajamento: ainda pode-se encontrar pessoas que conseguem escapar, com muito custo, de todos esses obstáculos e armadilhas, e que se revoltam contra o sistema. Para se prevenir destes verdadeiros guerreiros, a característica da proteção entra em jogo.

Apesar de todas as dificuldades mencionadas no parágrafo anterior, que obviamente não contemplam nem de perto toda a quantidade real de dificuldades que enfrentamos ao longo de nossa vida, é possível que consigamos nos desvencilhar de tudo isto e nos revoltar contra tudo isto o que sabemos, o que, na teoria, poria em risco a permanência no poder daqueles que já estão lá. Portanto, para que este “problema” não ocorra, nada mais simples do que institucionalizar represálias, usar a força bruta, da forma mais truculenta possível, afinal, nada é contra as regras para quem escreve as leis. É uma sucessão lógica: uma vez no topo da montanha, primeiro se coloca quantos obstáculos quanto possível, tornando a ideia da escalada intangível, depois, cria-se uma ilusão de que estar no pé da montanha é como estar no topo, e para aqueles que, ainda assim, insistirem em subir, mantenha um exército muito bem treinado para derrubá-los, sem nenhuma piedade.

O nome dessa força armada varia de acordo com sua localização mas, no geral, são conhecidos como polícia. Estes, que são verdadeiros cães de guarda adestrados dos políticos, são o que mantêm, em última instância, o status quo: é o último e valioso recurso da alta elite para se manter no poder e que, infelizmente, funciona extremamente bem.

O pífio juramento policial, resumidamente conhecido como servir e proteger [a população?], ou mesmo sua função explícita, de garantir a ordem pública, caem totalmente por terra na primeira manifestação popular que for contrária aos interesses da elite. Este fato é facilmente desnudado no Brasil, onde é descaradamente visível a diferença da violência policial entre manifestações políticas as quais os ideais vão de encontro aos da elite – inexistente – e as quais os ideais são contrários aos da elite – extrema violência. Ainda no Brasil, é igualmente fácil enxergar o real propósito da polícia, através da própria instituição. Sem estudo, mal preparados, mal remunerados, submetidos a tratamentos desumanos comparáveis aos quais se submete ao exército e compartilhando de todas as outras mazelas e frustrações de um brasileiro médio, o policial militar é vítima do sistema que ele próprio defende, com unhas e dentes. Aliás, que outro motivo teríamos para a existência de uma polícia de natureza militar para atuar com a população em geral, que não fosse a mais truculenta e violenta repressão?

Dessa forma, o cerco é fechado, não há saída, não resta nenhuma alternativa, nenhum caminho para que alguma mudança seja feita. Mesmo para os mais árduos guerreiros, como eu e (possivelmente) você que lê este texto, que conseguem se desvencilhar de todos os obstáculos naturais em viver nesta atual sociedade, o fim da linha não é nem próximo do que deveria ser para que pudéssemos realizar alguma mudança significativa nos atuais sistemas. Nossas ideias, discutidas e escritas ao longo de toda esta série de textos, e que agora chega ao fim, começa a ser apagada, linha a linha, pela dura borracha do cassetete que reside nas mãos de cada policial.

Só nos resta, então, como espectadores de uma peça teatral de extrema qualidade e realismo, fingir que acreditamos que tudo isso que estamos assistindo ao nosso redor é real, e não apenas uma encenação; que nada disso foi planejado, estudado, previamente elaborado e finalmente posto em prática, para nos surpreender com seu realismo espetacular. Neste teatro da vida real chamado política, nós somos os espectadores, mas, ao mesmo tempo, protagonistas, estamos no papel principal: aceitar os sistemas como eles são e trabalhar para mantê-los e perpetuá-los, indefinidamente, infinitamente. Apesar de termos chegado juntos à conclusão de que não há caminhos possíveis para a realização de uma mudança significativa, se isso fosse (ou tornar-se um dia) possível, devemos ter em mente o que fazer. O mais importante, sobretudo em uma revolução global, não se trata em apenas derrubar os atuais sistemas, e sim em saber quais outros sistemas deveriam existir, e estar no lugar destes. Nossas árduas discussões e investigações não chegou ao fim e, agora, tomarão um rumo completamente novo e diferente de tudo o que já discutimos por aqui: vamos construir, tijolo a tijolo, uma sociedade inteiramente nova; vamos, de fato, construir O OUTRO LADO DA MOEDA.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Outro Lado dos Sistemas 5 - Louvando a própria miséria


Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 4

Autor: Gustavo Spina

Quase todos os seres humanos do planeta têm o direito de ir e vir, livremente, garantido pelas constituições de quase todas as nações do globo, mas, é possível gozar desta liberdade sem dinheiro? É com este questionamento que inicio este texto, abrindo mais um leque de diversas características de nossa atual sociedade, para que possamos continuar e finalizar a discussão iniciada no texto anterior sobre o modo como os grandes sistemas que regem o mundo, sobretudo os sistemas monetário e capitalista, se mantêm.

Uma sensata resposta ao questionamento proposto pode consistir no argumento de que nós possuímos este direito, mas nem sempre as condições para desfrutá-lo. De fato, nós possuímos nossos direitos garantidos por lei, e o dinheiro configura-se como “uma condição” para que possamos manifestar a maioria deles; e é exatamente aqui que a discussão acalora-se. Sendo assim, esta não passa de uma das inúmeras ilusões que estes sistemas nos proporcionam, afinal, de que vale possuir um “direito garantido” sem uma igual garantia das condições necessárias para manifestá-lo? Pura ilusão.

Ainda pior, o dinheiro, muito além desta aparente “ferramenta auxiliadora” que nos dá condições para que possamos usufruir de nossos direitos; comporta-se como o único, universal e indispensável modo de fazermos QUALQUER COISA. Não se trata apenas de ir e vir livremente, como no exemplo dado. Permita-me que eu refaça a pergunta para que esta ideia fique mais clara: é possível fazer algo sem dinheiro?

Infelizmente a resposta é não. Sem dinheiro não podemos fazer nada, e isto inclui viver. A respeito deste fato, não sei o que mais me assusta: o mundo funcionar desta forma, ou as pessoas enxergarem-no com a maior indiferença e naturalidade a que se pode imaginar. Basta que façamos algumas rasas reflexões, para constatarmos o quão absurda é esta atual característica social; vamos a elas.

A diversidade e unicidade de nossas personalidades, provenientes de nossa já discutida variedade e unicidade genética, é o que faz (ou faria em um mundo com sistemas melhores) com que a raça humana seja um maravilhoso espetáculo de diversidade de aparências e ideias – por fora e por dentro somos particularmente diferentes em tudo, uns dos outros. Quando tentamos encaixar esta diversidade a um sistema que obriga cada um de nós a ganhar dinheiro para poder viver, ou na maioria dos casos sobreviver; uma das consequências mais óbvias é a de que vai haver sempre, necessariamente, pessoas que não conseguirão cumprir esta obrigatoriedade, e vão passar toda a sua vida privadas de suas condições de viver, como mendigos ou miseráveis que realmente e infelizmente existem e não são poucos.

Simplificando esta ideia, traduzindo-a para apenas uma frase, podemos concluir que um sistema que nos obriga a ganhar dinheiro para viver produz, invariavelmente, uma quantidade diferente de zero de pessoas que já nascem fadadas ao triste destino social de apenas existir entre o tempo de seu nascimento e sua morte, sem jamais ter condições de exercer seu garantido direito de viver. E agora, aquilo que nos aparentava ser tão óbvio, já parece absurdo o suficiente? Na verdade, este fato só é passível de aceitação porque nós, ao contrário destas pessoas, nascemos com um conjunto de características que, adicionadas às condições sociais daqueles que nos conceberam, nos permite nossa adequação ao sistema, nos permite ganhar dinheiro e, portanto, nos permite viver. Se fôssemos diferentes e estivéssemos no lugar destas pessoas, garanto que nosso posicionamento seria completamente diferente.

Parte desta frieza vil, que se traduz em nossa indiferença, e em muitos casos até em discursos de ódio para com estas vidas que são criadas e ao mesmo tempo descartadas por nossa sociedade, vulgarmente chamados de vagabundos e imprestáveis; provém também do próprio sistema. Por meio de memes e frases repugnantes como “se eu consigo, ele também consegue”, “todos somos capazes”, que “basta querer” ou “se esforçar” – e até a crença em ideias absurdas como a meritocracia – somos coagidos a projetar “a culpa” por aquela situação no próprio indivíduo, na própria vítima, absolvendo o verdadeiro e dissimulado culpado, que segue impune cometendo suas atrocidades globais.

A busca incessante pelo dinheiro também nos sugere uma constante competição social: disputamos por um lugar na escola, disputamos por uma vaga na universidade, disputamos por limitadas oportunidades de trabalho e, após vencermos, disputamos pela permanência em nosso emprego – passamos a vida em uma disputa sem fim, uns com os outros; tal qual agiam nossos ancestrais, disputando por recursos naturais para garantir sua sobrevivência (não evoluímos o suficiente para mudar este hostil comportamento primata?). Este tipo de comportamento social nos faz enxergar no outro a figura de um competidor, de um inimigo, de alguém que pode tomar o ‘nosso’ lugar nas oportunidades que tanto almejamos conseguir. Talvez isto explique nossa hostilidade social, nossa dificuldade em ser simpáticos e amigáveis uns com os outros, característica esta que se intensifica em locais onde a competição é mais acirrada e corriqueira, como em grandes cidades.

Ainda sobre a magnificência do dinheiro, podemos inferir que: sem trabalho significa sem dinheiro, e sem dinheiro significa sem vida. “trabalhe ou morra” se apresenta como o lema da muito bem disfarçada e institucionalizada escravidão do século XXI. Entretanto, muito mais inteligente do que uma escravidão declarada, onde as pessoas são forçadas a trabalhar a contragosto, o relojoeiro que tudo vê projetou as engrenagens de modo a fazer com que as pessoas, além de não saberem que são escravas, gostem da ideia.

Assim como na sociedade vislumbrada por Aldous Huxley, no clássico da literatura mundial ‘Admirável Mundo Novo’, nós amamos fazer aquilo que somos obrigados a fazer, resultando em uma sociedade majoritariamente estável. Aposto que o autor ficaria assombrado ao saber que chegamos a este ponto mesmo sem a necessidade de nenhuma engenharia genética, fator decisivo para tanto, em sua obra.

Neste ponto da discussão, deve pipocar em nossas cabeças uma intrigante e importante questão: Além da ignorância quanto a estes fatos, que outro fator faz com que aceitemos a isto tudo, quietos? E mais ainda, como dito nos parágrafos anteriores – que amemos o que fazemos e ser quem somos? Vamos à resposta.

Não é apenas o estilo de vida consumista que nos vende uma falsa ideia de felicidade e um sentido supérfluo para nossas vidas através de sonhos prontos e da satisfação em comprar produtos e aparelhos eletrônicos, como vimos em textos anteriores. Ao lado do consumismo, o OTIMISMO desenvolve o segundo mais importante papel em nos fazer pensar que somos felizes. O otimismo é também um estilo de vida, um senso comum que pode ser entendido como uma espécie de fé não religiosa, onde se acredita que todos somos felizes ou, no mínimo, que todos seremos felizes, um dia, e que tudo acabará bem, mesmo sem nenhuma evidência que corrobore com estas afirmações.

Sem saber como o sistema funciona, que o mundo não é feito para nós, e que vivemos apenas para manter tudo da assombrosa forma como está atualmente, acreditamos realmente que somos felizes e que não temos nada do que reclamar. A escolha dos parâmetros é o que mais nos cega em relação a este equivocadíssimo fato. Esbanjamos nossa felicidade por termos onde morar, por termos onde trabalhar e por termos condições de fazê-lo. Nos gabamos de ter saúde e de ter o que comer; mas este não seria o mínimo? Vez ou outra balbuciamos que “tem gente muito pior do que nós”, mas nunca lembramo-nos de que há também “gente muito melhor do que nós”. Ao medir o nível de nossa felicidade, olhamos sempre pra baixo, tendo a falsa impressão de que estamos no topo da escala de felicidade. Se corrigíssemos nossos parâmetros de comparação e começássemos a olhar pra cima, nos assustaríamos com a nossa verdadeira e ínfima posição nesta escala.

A religião e seus deuses, assuntos já amplamente discutidos em textos passados, estão intimamente ligados ao otimismo. Todas as ideias de um “pós-vida”, por mais variadas que sejam suas teorias, nos dão a certeza de que este duro período que vivemos na Terra é apenas passageiro, que iremos para algum outro lugar e que, portanto, tudo irá melhorar, um dia. Da mesma forma, a ideia de uma justiça perfeita e infalível provinda de um ser supremo nos conforta, no sentido de que mesmo o mundo funcione como discutimos exaustivamente até agora, podemos permanecer tranquilos, pois os responsáveis por tudo isto irão “pagar pelo que estão fazendo”. Para que lutar contra, ou tentar mudar isto tudo, se a justiça será feita, de qualquer forma? Uma população toda pensando desta forma é bastante conveniente para quem está no poder, não é mesmo? De fato, Deus é burguês, e a religião é o ópio do proletariado.

Desta forma, munido de frases como “só o melhor me acontece”, o vírus do otimismo se alastra e adoece a cada indivíduo, contaminando toda a população, que apresenta sintomas cada vez mais terríveis. Perdemos o ímpeto de lutar, a força e a motivação para mudar nossa situação, para mudar a situação do mundo todo, pois amamos ser quem somos, amamos estar na situação que estamos e louvamos a nossa própria miséria. O que deveríamos saber é que o conforto que o otimismo e a fé nos proporcionam não é páreo, nem de longe, para os malefícios sociais consequentes destas mesmas ideologias: a estagnação e a aceitação social de nossa situação, mesmo com todos os motivos que nos mostram que esta mesma situação é escandalosamente inaceitável.

Para finalizar o texto, resta apenas a resposta à pergunta feita no final do texto anterior: temos outra escolha, a não ser a de trabalhar para a manutenção do próprio sistema? Voltando ao coração do assunto, o fato de o dinheiro ser dotado de tamanha supremacia – o único meio através do qual podemos viver e, talvez, ser felizes – nos torna absurdamente dependentes dele, e isto já deve estar mais do que evidente, após o que acabamos de discutir ao longo de todo este texto. Sendo assim, nós podemos escapar da ignorância e falta de interesse, intrínsecas às grandes massas, de forma a descobrirmos como o mundo funciona, e qual o nosso verdadeiro e desprezível papel social; podemos ainda fugir ao senso comum danoso e ilusório do otimismo e da fé, deixando de gostar, de aceitar nossa posição social e tudo aquilo que somos obrigados a fazer durante a vida; mas não podemos, de forma alguma, escapar do sistema. Quem não obedece às suas regras, quem não trabalha para a sua manutenção, é automaticamente privado de suas condições de viver. A resposta, mais uma vez, é não: não temos outra escolha.

Com isto, finalizamos a discussão iniciada no texto anterior sobre a forma como o sistema se mantém. De fato, não há outra escolha senão trabalharmos para a manutenção do sistema, fazendo-o funcionar, indefinidamente. Somos ferramentas perfeitas para o relojoeiro, que nos molda em formas muito bem definidas, para servir à manutenção de seu complexo sistema de engrenagens, ponteiros, bateria; cada uma com um formato tão especificamente projetado para desempenhar uma função reparadora que, se não servir, é descartada, de imediato, para junto das ferramentas que já nascem com defeito de fabricação, e não têm nenhuma serventia desde o início. Enxergar que não há outra forma, não cessará nossas discussões, tampouco deve cessar nosso ímpeto pela mudança - ao contrário, enxergar os fatos, como realmente são, é fomentar ainda mais nossa sede pela busca de novas informações, de ainda mais entendimento, de outras alternativas; é nos tornar ainda mais insaciáveis em nossa já longa jornada em direção ao OUTRO LADO DA MOEDA.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Outro Lado dos Sistemas 4 - O relojoeiro que tudo vê


Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 3

Autor: Gustavo Spina

O mecanismo de um bom relógio é complexo, composto por diversas partes que se interconectam por meio de engrenagens. Para que seja de fato bom, deve ser desenvolvido por um bom relojoeiro, que saiba com maestria o que está fazendo, sendo capaz de prever até mesmo por quanto tempo seu mecanismo pode funcionar, antes de parar, seja por falta de bateria, seja por danos em componentes internos. Continuamos, a partir deste texto, nossos estudos analisando o grande mecanismo de relógio no qual estamos imersos; dando uma breve pausa na inspeção de como ele funciona, para inspecionar o modo como ele se mantém.

Saber como os grandes sistemas funcionam, como temos feito até agora, e continuaremos fazendo posteriormente, é de importância indiscutível; mas saber como eles se mantêm é de igual ou até maior importância. Afinal, se um de nossos objetivos for, por ventura, fazer com que o relógio pare de funcionar, para que então possa ser substituído por outro, é imprescindível que saibamos o que exatamente mantém suas engrenagens girando. Ainda com o foco no capitalismo e também no sistema monetário, vamos introduzir o conceito de obsolescência, e discutir, neste texto, as chamadas obsolescências programada e perceptiva.

Em uma rápida e básica pesquisa, o leitor pode confirmar que obsolescência é o ato ou a condição que ocorre a um produto fazendo com que se torne inútil, mesmo em perfeito estado de funcionamento, devido ao surgimento de seu sucessor ou de outra tecnologia mais avançada. Em um primeiro momento, podemos entender este conceito como uma consequência óbvia e natural de nosso progresso científico: à medida que a ciência nos proporciona novos conhecimentos e descobertas, que nos tornam capazes de desenvolver novos e melhores produtos, é bastante intuitivo que os produtos antigos deem lugar às novas tecnologias.

Um bom exemplo deste processo, como consequência natural do progresso científico, é a substituição dos antigos lampiões a gás, ou a querosene, pelas lâmpadas; que ocorreu após o advento da distribuição de energia elétrica em larga escala, no início do século XIX. Desta forma, em um cenário tecnológico completamente diferente, os lampiões tornaram-se inúteis, obsoletos, e tiveram de ser descartados por todos que os utilizavam, mesmo em pleno funcionamento.

Entretanto, nas mentes mais espertas e maléficas (e a esta altura já não temos dúvidas de que elas existem em abundância), este fenômeno pode se tornar uma poderosa estratégia econômica. Uma das definições da obsolescência programada a descreve como a decisão do produtor de propositadamente desenvolver, fabricar e distribuir um produto de forma que se torne obsoleto especificamente para forçar o consumidor a comprar a nova geração do produto. Desta forma, a obsolescência além de natural, a partir da década de 1920, surgindo na indústria automobilística com o intuito de que os consumidores passassem a trocar seus veículos com maior frequência; passou a ser também uma estratégia de mercado, que visa garantir o consumo constante por meio da insatisfação.

No texto anterior a este enxergamos de forma bastante clara que para que a pequena e mais rica parcela da população mundial permaneça em sua posição favorável e privilegiada, deve coagir a outra esmagadoramente grande e mais pobre parcela da população a injetar a maior parte de sua já pequena porção da riqueza mundial de volta às grandes corporações, por meio do consumismo; e a obsolescência programada se mostra como nada mais do que uma das principais ferramentas para que este objetivo seja cumprido com sucesso.

Que escolha temos, quando nossas máquinas de lavar roupas ou geladeiras simplesmente não ligam mais, no intervalo de aproximadamente cinco a dez anos de uso, ou quando algum componente interno de nossos aspiradores de pó, ou mesmo de nossas televisões se danifica poucos meses após a sua garantia válida por alguns poucos anos; sobretudo em um cenário onde o custo do reparo destes componentes, somado ao preço de um componente novo aproxima-se ou, como em grande parte das vezes, ultrapassa o valor de um equipamento novo e tecnologicamente mais avançado? Nenhuma, além de descartar o obsoleto e comprar o novo.

Nas últimas décadas, ficou evidente que a velocidade com que a tecnologia avança tornou-se assustadoramente veloz, e este cenário contribui ainda mais para a instalação da obsolescência programada. Desde então, esta ferramenta vêm sendo cada vez mais explorada, com a criação de cenários onde o que poderia significar apenas uma simples troca de um componente, acaba por acarretar a troca de diversos outros, ou mesmo do todo. Isto fica evidente com os computadores.

Se com o passar de alguns poucos anos, precisamos por ventura de uma maior capacidade de processamento de nossa placa de vídeo, ou simplesmente capacidade de armazenamento de nossas memórias RAM, bastaria que trocássemos nossa placa de vídeo por uma melhor, ou que adicionássemos mais “pentes” – como se diz popularmente – de memória. Entretanto, nem sempre isto se torna possível, já que conforme a tecnologia avança, as formas também mudam, mudando os encaixes e conexões internas, o que em muitos casos nos trazem a necessidade de trocar também, para que seja possível a adição dos novos componentes, a chamada “placa mãe”, o que por sua vez acarreta na troca dos demais componentes, tornando-se, muito provavelmente economicamente inviável se comparada à compra de um novo e completo computador. A troca ou adição de um único componente acaba por se tornar a compra de um novo e completo equipamento.

Ainda mais nociva e também mais intimamente ligada ao nosso estilo de vida fútil e consumista, é a chamada obsolescência perceptiva, que pode ser definida como forma de reduzir a vida útil dos produtos que ainda são perfeitamente funcionais e úteis, por meio do lançamento de novos produtos com aparência inovadora e pequenas mudanças funcionais (ou seria esta a definição da política de mercado da Apple?).

Em outras palavras, com esta técnica não se faz mais necessário que os produtos tornem-se obsoletos, de fato, por terem toda ou parte de sua funcionalidade propositadamente prejudicada com o decorrer do tempo; mas apenas que pareçam obsoletos, que aparentem obsolescência em relação aos novos e periódicos lançamentos sucessores. Para mostrar a si mesmo(a) que somos exemplos vivos dessa vergonhosa e nociva atitude, responda em pensamento: quantas vezes, nos últimos dois anos, você e as pessoas que o(a) rodeiam já trocaram seus smartphones por outros, de gerações posteriores, sem uma REAL necessidade?

A palavra “nociva” foi utilizada uma vez em cada um dos dois parágrafos anteriores. Em suas duas aparições, ela se referia à prática da obsolescência perceptiva, ou seja, do descarte de um produto completamente funcional, para dar lugar a outro, quase que identicamente funcional, como uma forma imbecil de futilidade cultural capitalista. Não é difícil saber o porquê esta prática é absurdamente nociva ao planeta – e eu ficaria muito feliz se o caro leitor o soubesse de antemão. O jargão de que “não se pode ter um consumo infinito em um planeta finito” já se configura como uma resposta razoável, afinal, os recursos de nosso planeta são em sua maioria finitos, e nosso estilo desenfreadamente consumista, sobretudo descartando produtos ainda em plena funcionalidade; anda completamente na contramão deste fato. Basta que façamos um mínimo de filosofia acerca dos produtos que possuímos para que saibamos que, obedecendo a lei de conservação de energia, eles não são criados a partir do nada: são, ainda que processadas, matérias primas retiradas do globo – desperdiçando-os estamos sendo íntimos cúmplices da exploração desenfreada e degradação ambiental, estamos sendo nossos próprios inimigos.

Para finalizar a discussão sobre os conceitos apresentados, podemos entender todo o processo ainda mais profundamente retornando ao exemplo da lâmpada incandescente. Após a transição dos lampiões para as lâmpadas de filamento, tivemos algumas outras transições, chegando às atuais lâmpadas fluorescentes e, neste momento, estamos no meio de outra grande transição deste produto, com o surgimento das lâmpadas de LED. Tomando como exemplo o tipo mais comumente utilizado no presente momento – as fluorescentes – seu tempo de vida útil é de cerca de alguns meses até que tenhamos que substituí-la por uma nova. Por ter sempre sido desta forma, e por ser uma característica comum a todos os tipos e marcas de lâmpadas residenciais, temos a ilusória impressão de que este é o tempo de vida útil natural da melhor lâmpada que pode ser fabricada. Errado!

Benito Muros, espanhol, criador e ex-presidente do Movimento SOP (Sin Obsolescencia Programada – em português Sem Obsolescência Programada) é conhecido polemicamente como o criador da “lâmpada que não queima”. Muros, em sua luta contra a obsolescência programada, realmente foi o inventor de uma lâmpada que dura cerca de 100 anos funcionando – apesar de ter garantia de 25 anos – e que o leitor pode facilmente encontrar à venda pela internet. Em meio a polêmicas e ameaças, como noticiado por todo o mundo no auge de sua invenção, este espanhol é principalmente um grande exemplo de que a obsolescência programada existe e está presente nos mais diversos produtos os quais nem imaginávamos ser predestinados, propositadamente, a perderem toda ou grande parte de sua funcionalidade, somente para que sejamos obrigados – e não mais apenas incentivados ou coagidos – a continuar exercendo aquilo que mantém o sistema em pleno funcionamento: CONSUMIR.

Após ter uma ideia do quão verdadeiramente complexo é este grande mecanismo de relógio no qual estamos imersos, e entender um pouco de seu funcionamento, descobrimos então que nós somos o óleo aplicado às engrenagens para que se desgastem menos. Descobrimos que nós somos também as pequenas e pontiagudas ferramentas de reparo, que a todo o momento permeiam e agem sobre o mecanismo realizando, vez ou outra, até a troca de engrenagens e da bateria que alimenta o sistema, a fim de praticar sua manutenção e perpetuar seu funcionamento. Somos todos ferramentas, instrumentos pertencentes e manipulados pelo relojoeiro, o relojoeiro que, de tão esperto, em vez de prever por quanto tempo seu mecanismo funcionaria, desenvolveu um modo pelo qual ele se auto repara, um modo pelo qual se mantém, um modo pelo qual não para. Desta vez, e infelizmente, o relojoeiro não é cego, pelo contrário: a tudo vê.

Neste texto vagamos pelo conceito de obsolescência, analisando suas várias formas e inferindo sobre suas consequências. Terminamo-lo, então, traduzindo toda a discussão desenvolvida na ideia de que somos os próprios agentes que mantém o sistema funcionando da forma como a qual ele funciona. Mas será que temos alguma escolha, que há outro modo de agir? No próximo texto, trataremos da resposta desta questão por meio de uma profunda discussão acerca de mais detalhes sobre o funcionamento da sociedade à nossa volta, finalizando este tema, prosseguindo em nossa caminhada com mais um passo em direção à verdade, por mais dura que ela possa ser; com mais um passo em direção ao OUTRO LADO DA MOEDA.