sábado, 16 de junho de 2018

O Outro Lado da Música 2 - Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

Prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou

Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor

Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Um dos métodos mais simples e, portanto, um dos primeiros meios pelos quais a humanidade começou a “fazer ciência” foi através da observação de como a natureza funciona. A partir disto, de tentarmos entender aquilo que estamos enxergando bem diante de nossos olhos, surgiram as bases para a formulação de nossas primeiras hipóteses – palpites sobre como as coisas funcionam – e nossas primeiras grandes descobertas.

Com o passar do tempo, até chegarmos aos dias de hoje, nossa forma de se “fazer ciência” mudou completamente, mas, ainda assim, observar como a natureza funciona, ainda que com o uso de tecnologias jamais pensadas há milhares de anos atrás como telescópios e aceleradores de partículas, continua sendo uma das melhores maneiras de aprendermos.

Entre as inúmeras coisas que pudemos aprender observando a forma como a natureza funciona é a importância da mudança. Em toda a história evolutiva da vida, desde os primeiros seres unicelulares que habitavam a Terra até chegar à diversidade e complexidade de formas de vida que existem hoje por aqui, os genes – protagonistas desta história – só foram capazes de fazê-la através da mutação genética.

Ao se replicar, um gene cria uma cópia de si mesmo. O objetivo aqui é criar uma cópia idêntica, para que ambos criem novamente cópias idênticas de si mesmos, e assim sucessivamente, com o objetivo de se proliferar. No entanto, no ato de uma replicação, podem ocorrer erros, ocasionando em um novo gene: uma cópia do anterior, com uma parcela diferente gerada pelo erro, fenômeno aleatório denominado de “mutação genética”. Sem mutações ou, se preferirmos, mudanças nos genes durante sua autorreplicação, todos os genes teriam sidos completamente idênticos, e não poderiam usar suas diferenças entre si para se organizarem em grandes grupos distintos, formando características de seres vivos em cada vez maior número, com cada vez maior complexidade tal qual realmente aconteceu.

Em outras palavras nós, por exemplo, seres inteligentes e de alta complexidade estrutural só existimos por que a forma como a natureza genética trabalhou e continua trabalhando desde os primórdios da vida utiliza, ainda que de forma acidental, a mudança!

Fazendo o uso de nossa inteligência e colocando a razão sobre esta atitude genética impensada, podemos aprender com a forma pela qual a natureza trabalha e trazer a mudança para a nossa realidade, discutindo de que forma ela pode nos ajudar a pensar de uma forma cada vez melhor, da mesma forma que ajudou nossos genes a construir organismos cada vez mais complexos.

No campo da razão e do pensamento, se definirmos que nosso objetivo é, por exemplo, buscar a verdade sobre todas as coisas, podemos chegar à conclusão de que a mudança entre as diversas linhas de pensamento existentes é a melhor maneira de atingirmos nosso objetivo. Vejamos.

Imagine que no exemplo dado anteriormente os genes pudessem pensar e decidir se têm uma mutação genética em sua replicação ou não. Vamos supor também que seu objetivo fosse criar uma estrutura complexa como o elefante, por exemplo. Um gene com apenas a característica de se replicar, em busca deste objetivo tem, inicialmente, apenas três escolhas: se replicar sem mutação, se replicar com mutação e não se replicar. Aqui fica óbvio que, para atingir seu objetivo, a escolha correta é se replicar com mutação, pois nos outros dois caminhos sabemos que as chances de se formar um elefante são nulas.

Suponhamos que a cada mutação feita, o gene aprende como fazê-la e, dali para frente, pode escolher fazê-la novamente ou simplesmente continuar mutando aleatoriamente. Imaginemos que a primeira mutação, realizada a partir da primeira decisão que ele tomou garantiu uma cópia sua com mudanças estruturais que podem, em conjunto com muitos outros genes, possibilitar a formação de tecidos, de peles, vasos sanguíneos etc. Sabemos que para a formação de um ser como um elefante, é essencial que se tenha diversos tipos de tecidos epiteliais, vasos sanguíneos entre outros. Portanto esta mutação ocorreu na direção de seu objetivo, e por isto deve ser refeita pelo gene, até que se tenha uma grande quantidade de genes com esta característica. Entretanto, quando esta quantidade for atingida, o gene precisa novamente escolher entre não se replicar, se replicar sem mutação, se replicar com mutação ou se replicar com característica propensa a formação de tecidos.

Novamente, a replicação com mutação é a melhor opção, a única que pode levar o gene de encontro a seu objetivo. Suponhamos desta vez, para finalizarmos a ideia por trás deste exemplo pictórico, que a mutação que o gene sofreu em sua replicação gerou uma cópia sua com mudanças estruturais que podem, em conjunto com muitos outros genes, possibilitar a formação de um sistema de respiração embaixo d’água, um mecanismo orgânico de conversão de moléculas de água em moléculas de oxigênio. Neste caso, a mutação genética foi na contramão de nossos objetivos, nos levando a uma característica que não nos ajuda em nada em nosso objetivo, uma vez que o elefante não respira embaixo d’água. Porém, e este é o ponto mais importante aqui, ainda assim a opção de escolher o caminho da realização da replicação com mutação continua sendo o melhor caminho, pois mesmo que haja uma probabilidade igual de ser uma mutação “boa” ou uma mutação “ruim” para nossos objetivos, ele é o único caminho que apresenta uma probabilidade diferente de zero de nos levar à nossa realização final.

Trazendo para a nossa realidade, se nosso objetivo final for buscar a verdade sobre todas as coisas como o proposto, devemos escolher quais linhas de pensamento, dentre as centenas de milhares existentes, que nos levam à verdade em cada aspecto do pensamento humano. Suponhamos que, assim como os genes em nosso exemplo anterior, comecemos nossa busca pelo nosso objetivo. Nossa característica inicial é nossa bagagem cultural de pensamentos – linhas de pensamento e ideologias que nos são passadas, desde que nascemos, através da cultura local e de nossos familiares. Dessa forma, nossa escolha inicial, para cada uma das ideologias que temos conosco, fica entre as opções:

1.       Continuar acreditando nesta linha de pensamento;
2.       Aceitar uma linha de pensamento contrária.

E, em um olhar mais amplo, visto que nenhum ser humano é capaz de conhecer todas as linhas de pensamento que existem:

1.       Continuar com o mesmo número de linhas de pensamento;
2.       Procurar outras opções.

Dado que o número de ideologias e linhas de pensamento tende ao infinito, fica fácil saber que, a probabilidade de acertarmos na mosca, de termos conosco, sobretudo apenas pela bagagem cultural e familiar, justamente as linhas de pensamento que nos levam à verdade sobre tudo o que se pode pensar, é extremamente baixa, tendendo a zero, tanto pela baixíssima quantidade com relação ao todo, quanto pelo fato de sequer termos arbitrado sobre elas e suas opostas alguma vez.

Portanto, a opção de número dois, a mudança, em ambos os casos, tanto na composição de nossas crenças e formas de pensar quanto em sua quantidade, nos fornece sempre uma probabilidade maior de nos levar ao nosso objetivo, de nos levar à verdade. E, exatamente como no exemplo anterior, podemos concluir que, mesmo no caso onde mudarmos uma crença “boa” por uma “ruim”, ou adicionarmos ao nosso conhecimento uma pensamentos contendo inverdades, ao final, o caminho da mudança é sempre o melhor, pois mesmo nestes casos, podemos mudar novamente e voltar atrás, retornando à ideologia anterior ou eliminando a nova linha de pensamento. Se ele, assim como eu, aprendeu isto observando a natureza ou não, não sabemos, mas não poderia concordar mais com Raul Seixas: eu também prefiro ser essa metamorfose ambulante.

Música: https://www.youtube.com/watch?v=7VE6PNwmr9g.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A Sociedade do Outro Lado 1 - Expandindo nosso horizonte de possibilidades

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 6

Autor: Gustavo Spina

Tudo aquilo que discutimos desde o primeiro texto deste blog pertence a nossa atual sociedade, e à forma pela qual chegamos a ela. Pincelamos, certa vez, o fato de que esta configuração social, com toda a sua riqueza de características e consequências as quais concluímos que não há como escapar, não é a única possível; mas este fato é tão importante que não deve escapar de uma análise mais aprofundada. Nossa atual sociedade é extremamente diversificada contendo um horizonte de possibilidades, que Yuval Harari descreve como “todo o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais”, em seu fantástico livro Sapiens – Uma breve história da humanidade. Nesta terceira e última série de textos, vamos explorar outras configurações sociais, desenvolver outros sistemas que poderiam (ou poderão) governar o mundo, totalmente diferentes dos que exploramos na série de textos passada; ir além de tudo o que já criamos: vamos trabalhar arduamente na expansão do nosso grande e desajeitado horizonte de possibilidades.

Uma vez tendo explorado por completo o “problema”, não há outra coisa a fazer senão explorar sua possível solução, mesmo quando se chega à conclusão de que ela não é possível; e isso não é uma contradição. Vamos analisar melhor. A conclusão que chegamos no texto passado se baseia na ideia de que, de acordo com tudo o que discutimos até aqui, a magnitude da revolução, seja ela de qual natureza for, necessária para modificar os atuais sistemas que governam o mundo deve ser tão grande, mas tão grande, que a probabilidade de que ela ocorra tende a zero e, portanto, se torna impraticável. No entanto, não é prudente extrapolar esta afirmação para um futuro muito distante. Em outras palavras, por mais sólidos que sejam nossos argumentos, eles não se sustentam ao imaginarmos o futuro, sobretudo em um cenário mundial com ameaças corriqueiras de guerras nucleares e de cada vez mais rapidez no desenvolvimento tecnológico como nossa atualidade.

Sendo assim, não podemos afirmar que esta impossibilidade de uma mudança em escala global significativa será a mesma nos próximos séculos ou milênios e, dessa forma, devemos, sim, alocar parte de nossos esforços na solução do atual problema, que tem uma probabilidade diferente de zero de poder ser efetivamente aplicada em um futuro não tão próximo. Se um dia esta mudança tornar-se possível, em nada será útil se aqueles que a efetivarem não souberem para onde ir, que outros caminhos seguirem e que novos sistemas construírem para que, desta vez, se sustente uma sociedade que se aproxime da ideal. E mais ainda: a própria ideação de novos caminhos a serem seguidos pode, através do estímulo das mentes brilhantes, visionárias e revolucionárias com que essas ideias possam entrar em contato, nos dizer como fazer para possibilitarmos esta transição na prática.

Portanto, iniciaremos agora uma série de quebra de paradigmas e exploração de novas ideias para construir aquilo que, ao terminarmos, possamos chamar de “a sociedade do outro lado”, do outro lado da história, o lado que ainda não conhecemos e que provavelmente não viveremos, mas que podemos desde agora ajudar a desenvolver.

Antes de descobrir quais são os primeiros tijolos de nossa construção, neste texto, temos de preparar nossos cérebros. Comecemos então com a elaboração de um novo modelo mental, um novo mindset.

Um modelo mental pode ser definido como um “mecanismo do pensamento mediante o qual um ser humano, ou outro animal, tenta explicar como funciona o mundo real”. O modelo mental que, em geral, temos em nossas cabeças atualmente é montado ao longo de nossas vidas, e é intrinsecamente ligado aos sistemas que compõem o mundo de hoje, e que tratamos nos textos da série de textos anterior a esta – O Outro Lado dos Sistemas.

Como exemplo de ideias integrantes de nosso mindset comum atual, vale a pena lembrar de duas características dos atuais sistemas, que já evidenciamos no texto A cega inserção: a falsa impressão de naturalidade e a necessidade de existência destes sistemas. Estas duas ideias, que podemos relembrar suas descrições simplificadamente como a falsa impressão que temos de que os sistemas que regem as sociedades de hoje são consequências de fatores naturais e que devem, necessariamente, existir, como se fossem parte integrante do processo evolutivo de nossa espécie e que sem eles não haveriam outras possibilidades; já foram desmistificadas e descartadas. Ambos os paradigmas citados já foram quebrados ao longo de nossas discussões, mas eles são apenas dois exemplos, uma pequena parte de um todo muito maior, de um modelo mental cheio de ideias deturpadas completamente dependentes das atuais configurações sociais.

Dado o que acabamos de evidenciar, fica fácil perceber que se mantivermos nosso mindset atual, quando pensarmos em alternativas, sobretudo na construção de uma configuração social totalmente nova, entraremos em constantes conflitos internos em nossas cabeças. Por exemplo, ao tentamos imaginar uma sociedade sem a existência de dinheiro, esbarraremos em nossa ideia de que uma sociedade não é nem ao menos possível sem a existência de uma moeda, ou ainda ao tentarmos imaginar uma sociedade sem diferenciação territorial e étnica, esbarraremos em nossa ideia de que é impossível governar um mundo inteiro, sem dividi-lo em países, estados, cidades, municípios e etnias. E assim por diante. Mas devemos perceber que estes conflitos acontecem apenas porquê nosso modelo mental é, em grande parte, formado pelos sistemas atuais, e que devido a isto sempre causará contradições internas ao pensarmos em sistemas completamente diferentes! A atual sociedade, sim, é impossível sem a existência de uma moeda, mas quem é que disse que uma outra sociedade deve seguir a mesma lógica de comércio, compra, venda, lucro e mercado? A atual configuração social global, sim, é impossível de ser governada sem uma divisão do planeta em países, estados, cidades, municípios e etnias, mas quem é que disse que a forma de governo em outras configurações sociais serão as mesmas? Em ambos os casos podemos imaginar e criar lógicas completamente diferentes de economias e governos, ou mesmo criar uma estrutura onde estas características não precisem nem ao menos existir.

Com isto, o que desejo concluir nesta primeira parte do texto é que para desenvolvermos juntos um novo modelo social devemos, primeiramente, abandonar nosso atual modelo mental, devemos inibir os pensamentos provenientes dele, devemos ignorar a estranheza, a negação instantânea e os conflitos internos que nossa mente nos proporcionará quando tivermos contato com diversas ideias novas e completamente diferentes, pois estes pensamentos nem ao menos fazem sentido neste novo mindset que estaremos construindo. Ao longo desta série de textos, estaremos constantemente praticando estes exercícios mentais, sempre reiterando que devemos separar nossas novas ideias, nosso novo modelo mental de nosso modelo mental atual.

Prosseguindo, vamos finalizar este texto introdutório respondendo a uma importantíssima questão que pode muito bem ser feita por nós mesmos, neste ponto da discussão: onde é que queremos chegar? Vamos alinhar, com grande clareza, qual exatamente é nosso objetivo, a finalidade de toda esta discussão, para que possamos nos certificar, a cada linha escrita, que estamos seguindo no caminho certo e, ao final, sabermos que concluímos exatamente o que queríamos desde o começo.

No início deste texto explicitamos a enorme importância de sabermos o que fazer quando conseguirmos transcender as atuais configurações sociais, se é que isto vai acontecer um dia, e isto nos serviu de justificativa para que trabalhemos então no desenvolvimento de uma ou mais configurações sociais alternativas. No entanto, neste momento este desenvolvimento está apenas se iniciando, portanto devemos explicitar aqui também a enorme importância de sabermos qual é o objetivo desta nova configuração social, e isto nos dará o direcionamento para o nosso desenvolvimento de cada uma das partes que comporão nossa sociedade.

Vale a pena ressaltar que o fato de podermos realizar este questionamento, definir um objetivo e construir uma configuração social global por meio de discussões e uso orquestrado do intelecto e conhecimento humano é algo completamente inovador e diferente de tudo o que já ocorreu em nossa história. A construção da atual configuração social global e de suas antecessoras, bem como de cada um dos sistemas muito bem estabelecidos que a compõe, não foram feitas dessa forma, mas foram sendo construídas de forma orgânica.

Em outras palavras, o rumo que as sociedades humanas tomaram, resultando no cenário global atual, foram definidos, em sua maioria, por condições ambientais, tecnológicas e até mesmo influenciado pelas doenças que por vezes assolaram a raça humana; jamais de forma planejada, pensada e desenvolvida de modo a atingir um dado objetivo. Isto nos diz muito do porquê, apesar de funcionarem, os atuais sistemas deram tão errado em tantos aspectos, e nos motiva a aproveitar esta oportunidade para conseguir, de fato, desenvolver algo diferenciado e bastante superior.

Então qual é o nosso objetivo? Construiremos uma nova configuração social com que propósito? O que queremos proporcionar, e a quem queremos proporcionar isto, com esta construção? Definiremos nosso objetivo como: construir uma configuração social global que proporcione o mais elevado nível possível de felicidade para todos os seres sencientes (capazes de sentir).

Para não desvirtuar o assunto do texto, e nem alonga-lo demais, não entraremos a fundo aqui nas questões filosóficas inerentes a afirmação feita. Para um maior detalhamento do conceito de sentir, do conceito de felicidade e como quantifica-la, o leitor mais curioso deve recorrer ao espetacular livro “Genismo”, do filósofo brasileiro João Carlos Holland de Barcellos – Jocax – a quem tenho o prazer de ter como amigo, onde desenvolveu e discorreu detalhadamente sobre estes e muitos outros conceitos filosóficos.

Por fim, iniciamos nossa discussão reconhecendo a importância da existência de configurações sociais alternativas que têm uma probabilidade diferente de zero de serem utilizadas no futuro. Em seguida, reconhecemos a importância de se traçar um objetivo que norteasse todo o desenvolvimento dessas novas ideias e enfim o definimos. Sabemos agora que, com este objetivo alcançado, teremos então desenvolvido uma sociedade que proporcionará, em todos os seus aspectos, o maior nível possível de felicidade para todos os seres humanos e os animais que tem consciência e que, portanto, são capazes de sentir.

No próximo texto, começaremos a construir, tijolo a tijolo, esta que, longe de alcançar a inalcançável perfeição, será uma sociedade que se aproxima ao máximo de uma sociedade ideal, uma configuração global que minimiza ao máximo o sofrimento de todos os seres capazes de sofrer e que maximiza ao máximo a felicidade de todos os seres capazes de senti-la. Iniciaremos juntos, abandonando nosso atual mindset e fazendo o uso de um modelo mental completamente novo, a árdua construção da sociedade do outro lado, do outro lado da história, de um futuro que talvez um dia exista, e possa dar lugar à sociedade do OUTRO LADO DA MOEDA.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

10 centavos - Ensaios sobre a perfeição - Parte 2

Pré-requisito (obrigatório): Ensaios sobre a perfeição - Parte 1

Autor: Gustavo Spina


Na primeira parte deste artigo, vasculhamos simples e brevemente o conceito de perfeição, demonstrando que seus pilares fundamentais são os conceitos de máximo e infinito, chegando à conclusão de que toda e qualquer qualidade que desejarmos incluir como parte integrante da perfeição deverá ser máxima e infinita. [1]

Nesta continuação, aplicaremos este conceito para descobrir as implicações práticas da perfeição. Quais serão as implicações quando tentamos aplicar o conceito de perfeição a algo e a um ser?

Antes mesmo de iniciar a aplicação do conceito de perfeição, devemos levar em consideração que esta é uma característica maleável, indefinida. Como discutimos até agora, podemos adicionar qualquer qualidade como parte integrante da perfeição, e assim estaremos criando uma direção e um sentido pelo qual começamos a medir seus graus de maximização e infinidade. Em outras palavras, a perfeição por si só não adiciona qualidade nenhuma. Dizer que algo ou alguém é perfeito, não significa nada, até que você adicione ao menos uma qualidade à perfeição em questão. É perfeito como? É perfeito em que? A perfeição, apesar de ser constantemente relacionada com a bondade, pode ser apontada para qualquer outra direção. Hipoteticamente, uma forma pode ser perfeitamente quadrada, uma superfície pode ser perfeitamente lisa, ou uma criatura ser perfeitamente maligna; e nenhuma dessas características estão ligadas a algo bom em seu significado mais geral. Ao aplicarmos a característica da perfeição, devemos então primeiramente conferir ao menos uma qualidade, norteando-a, para que possamos prosseguir com as implicações que esta aplicação nos trará.

Começando pela aplicação do conceito de perfeição a algo, lembrando que como “algo” estamos nos referindo a qualquer coisa sem vida, inanimada. Vamos adicionar à perfeição a qualidade da velocidade. Suponhamos então que uma esfera deva ser perfeitamente rápida, veloz.

Aplicando o conceito, devemos:

1. Garantir que a velocidade seja máxima;
2. Garantir que a velocidade seja infinita;

Para a nossa primeira tarefa, sabemos que a máxima velocidade, a qual pode se atingir neste universo é a velocidade da luz [2], de aproximadamente 299.792.458 metros por segundo (m/s) ou 1.079.252.848,8 quilômetros por hora (km/h). [3]

Entretanto, para a nossa segunda tarefa, nos deparamos com um problema. Devemos garantir que a velocidade seja infinita, no entanto, sabemos que não há como ultrapassar a velocidade da luz. Portanto, uma velocidade infinita não é sequer possível de se existir. Mas, por isto, a esfera não pode mais ser perfeitamente veloz? Sim ela pode, e nós acabamos de nos deparar com a primeira implicação resultante da aplicação do conceito de perfeição: o limite teórico.

Ao aplicarmos o conceito da perfeição a um objeto, devemos levar em consideração se a qualidade a que adicionamos à perfeição tem um limite teórico. Havendo um limite, devemos então considerar apenas a primeira de nossas tarefas: garantir que ela seja a máxima possível.

Uma esfera viajando no espaço à velocidade da luz se caracteriza então, em nosso exemplo hipotético, como uma esfera perfeitamente veloz. Na verdade, qualquer esfera viajando à velocidade da luz é uma esfera perfeitamente veloz. Mas, qual delas é mais perfeita? A perfeição não é um conjunto único de características? Sim, esta é apenas a nossa segunda implicação resultante da aplicação do conceito de perfeição: a pluralidade de perfeições.

Uma vez que a qualidade incluída à perfeição possui um limite teórico, isto nos leva a inviabilizar a garantia de que esta qualidade atinja o infinito, garantindo tão somente que esta atinja o seu máximo, ou mínimo: seu limite teórico. Por sua vez, garantir apenas que esta qualidade atinja seu limite teórico inviabiliza sua unicidade, que somente o infinito nos possibilita, resultando na possibilidade da coexistência de infinitas perfeições idênticas! Por isso, é completamente possível que haja duas ou trezentas e quarenta e sete mil esferas igualmente perfeitamente velozes, todas na mesmíssima velocidade, viajando tão rápido quanto a luz no vácuo.

Vamos então deixar esta discussão ainda mais interessante, partindo para a aplicação do conceito de perfeição a um ser, lembrando que como “ser” estamos nos referindo ao conceito inverso de “algo”, qualquer entidade viva, animada. Suponhamos então que uma pessoa deva ser perfeitamente amorosa.

Aplicando o conceito, devemos:

1. Garantir que seu amor seja máximo;
2. Garantir que seu amor seja infinito;

Para a nossa primeira tarefa, sabemos que não há um amor “máximo”. Por maior que possamos imaginar este sentimento, sempre podemos adicionar uma pitada de intensidade e tamanho, aumentando-o ainda mais. Portanto, chegamos a nossa segunda tarefa, garantindo que este amor seja infinito e, por consequência, garantindo a primeira tarefa também.

Dessa forma, somente uma única pessoa, aquela com um amor infinitamente máximo, seria perfeitamente amorosa. Mas, e se esta mesma pessoa sentisse, em qualquer momento, o mais ínfimo sentimento de ódio ou raiva, ela continuaria sendo perfeitamente amorosa? A resposta é não, e nós chegamos à nossa terceira implicação: a contradição lógica.

Quando lidamos com seres, que são intrinsecamente complexos em quantidades de características, devemos nos preocupar não somente em garantir a maximização e a infinidade da qualidade que adicionamos à perfeição, mas também à anulação de todas as características que entrem em contradição lógica com ela. Não é logicamente coerente que um ser com um amor infinito e máximo, sinta raiva ou ódio, portanto, estas características devem ser também excluídas deste ser, para que se concretize sua perfeição.

Para finalizar este texto e esta discussão, não devemos deixar de lado o fato de que o conceito de infinito é um conceito de caráter puramente teórico, jamais observado na prática. [5] E se o infinito não existe na prática, o que acontece com o conceito de perfeição, também na prática? Sendo o infinito inviável praticamente, o conceito de perfeição também se inviabiliza, com exceção apenas nos casos em que existe um limite teórico. Incrível conclusão, não? O fato é que não existe limite teórico para a bondade. Quais serão as implicações disso?

Estes foram meus 10 centavos acerca do conceito de perfeição e suas implicações práticas.

[1] - Publicado em: 2018-25-03. Disponível em: http://ooldam.blogspot.com.br/2018/03/10-centavos-ensaios-sobre-perfeicao.html. Acesso em: 26.04.2018

[4] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Infinito Acesso em: 26.04.2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A Sucessão

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina


Depois de três semanas sozinho em uma casa abandonada e parcialmente destruída, acredite em mim: nada o impede de sair nas ruas. Nada! Especialmente quando não se come nada por três dias. O desespero foi maior. Minha imaginação, de tudo o que poderia acontecer comigo se eu fosse visto e reconhecido foi, ao longo do tempo, dando lugar a outros pensamentos, a outras prioridades, à minha própria sobrevivência. Até que cheguei a uma conclusão: se me capturassem, talvez eu sobreviveria, mas ali; com o frio cada dia mais intenso e com o estoque de alimentos findado, eu com certeza morreria.

Só mesmo o instinto animal de sobrevivência para vencer meu medo de ser encontrado. Atirei-me pela porta dos fundos. Já no meu segundo passo fora daquela velha casa, meu coração disparou. Vi, de longe, uma mulher vestida de amarelo. Só podia ser um deles! Os pelos do meu corpo se arrepiaram, minhas pupilas dilataram e, com a claridade do reflexo da luz do dia na neve que cobria quase tudo, fiquei completamente cego. Não enxergar me deixou ainda mais nervoso, e isto tudo foi como uma bola de neve até que meu sistema nervoso colapsou.

Bem, eu não entendo nada dessas coisas, meu campo de conhecimento é completamente outro, mas esta foi mais ou menos a explicação que aquela moça me deu quando acordei em uma cela e perguntei o que é que havia acontecido comigo. Não que tenha tornado as coisas mais claras, afinal, eu continuava sem saber onde estava, quem era ela, e porquê eu estava preso ali. Mas só o que ela respondia para todas as outras perguntas, sempre com um sorriso de satisfação no rosto, era: “aguarde um momento que tudo já lhe será esclarecido”.

Estava meio zonzo. Sentia uma dor dos infernos na cabeça, devo tê-la batido quando desmaiei na rua. Sentei-me no colchão duro e sujo que havia atrás de mim, no qual havia acordado em cima, há alguns minutos. Não havia mais nada naquele cubículo além daquele colchão e de mim. Aquela moça, que até então havia me parecido bastante doce e muito contente, levantou-se e se esvaiu pelo corredor, que ficava um pouco na diagonal da porta da cela, de modo que só pude acompanhar seus movimentos até metade do caminho. Para ver onde aquele corredor obscuro entregaria aquela moça tão simpática, eu teria de levantar, e meu corpo doía muito para isto.

Continuei, portanto, apenas a mover meus olhos, passeando com minhas pupilas por todos os lados, examinando cada centímetro à minha volta. Você pode estar se perguntando o porquê eu não estou apavorado, afinal acordei preso em uma cela sem informação nenhuma sobre nada, mas, confie em mim; se eu estava vivo até agora, aquelas pessoas não poderiam ser inimigas. Se algum deles tivesse me pego eu provavelmente estaria sendo torturado. E, afinal, havia ali um colchão! Por mais duro, sujo e velho que era, ainda assim era um colchão de verdade. Se não me falha a memória, desde antes da revolução acontecer eu não deitava em uma beleza dessas.

Continuei observando tudo, entretanto, a única coisa que havia ali, além da sujeira e de duas baratas que passeavam pelo chão, era uma chapa de metal, de mais ou menos trinta centímetros quadrados, embutida em uma das paredes laterais da cela.

A moça não retornava, o silêncio cortava os ouvidos como uma navalha. O cansaço voltou a me dominar e, sem perceber, caí no sono. Acordei num pulo quando a chapa de metal se levantou, grunhindo um barulho estridente de metais se arranhando. Uma bandeja com um prato de comida e um copo de água deslizou pelo buraco e, antes mesmo de esboçar alguma reação, a chapa de metal se abaixou, ecoando seu grunhido novamente pelas paredes sujas daquele calabouço.

Não demorei a comer e beber tudo o que haviam me dado. Mesmo acostumado com a escassez que já durava anos, a fome e a sede me retorciam por dentro. Passado mais algum tempo, a moça retorna. Ouvi seus passos, se aproximando pelo mesmo corredor através do qual havia se esvaído mais cedo. Porém, quanto mais alto era o som, mais era distinguível que haviam mais pessoas. Será que era mesmo a moça? Aquele medo, que havia dado lugar à tranquilidade nas últimas horas, se espalhou pelo meu corpo novamente.

Sentei-me no colchão, olhando para o corredor. A moça então aparece, mas em vez daquela cena me tranquilizar, ela confirmou o que eu mais temia: ela vestia um casaco amarelo. Como eu não pude perceber? Ela era a menina que eu avistei de longe na rua antes de desmaiar! Ela era um deles!

“Ele está acordado, podem levá-lo”, disse ela, com o mesmo sorriso de satisfação no rosto, que agora soou muito mais maligno do que das primeiras vezes. Os sons de botinas marchando, quase que num sincronismo perfeito, deu lugar à imagem de dois homens mal-encarados na porta da cela. Colapsei novamente. Fui carregado pelos dois, sem maiores dificuldades, aos berros, pela cela afora. Minhas pupilas se dilataram novamente. Pouco pude enxergar do caminho através do qual me carregavam, sem poder saber se era o mesmo corredor diagonal que partia da porta da cela. Mas em quê isso importava?

Não tinha mais forças para gritar. Fui posto sentado em uma cadeira, meus pés e mãos foram atados firme, mas cuidadosamente a ela. Aos poucos, minha situação foi voltando ao normal, minha respiração foi ficando mais lenta, fui recuperando minha visão e a imagem de uma cadeira foi ficando cada vez mais nítida na minha frente. Olhei ao meu redor, estava em uma sala vazia, com apenas a minha cadeira e uma cadeira na minha frente. Os homens que haviam me trazido e me posicionado ali, estavam um em cada canto da parede, atrás de mim. Não havia janelas, apenas uma porta de ferro, com as quinas enferrujadas, na parede ao meu lado esquerdo.

Era uma cena clássica de interrogatório, faltava apenas o interrogador. Para completar o cenário, já começava a ouvir os passos de alguém se aproximando pela porta, mas, contanto que tudo aquilo estava um tanto quanto óbvio, nem em todo o tempo que passei temendo que este dia chegasse eu pude imaginar quem é que entraria por aquela porta para me interrogar.

Meus olhos não acreditavam no que viam: Adam Walton, o maior capitalista do século, estava à minha frente! Era ele mesmo, apesar de o ter visto apenas pelos diversos meios midiáticos, não tinha como confundir – ele fora o rosto mais evidente nos últimos anos, tão evidente quanto o meu. Sentou na cadeira à minha frente e fitou-me durante alguns segundos. Eu fazia o mesmo, enquanto minha mente tentava processar toda aquela informação. Ele vestia terno e gravata, e deslizava em cima de dois sapatos de couro brilhantes. Como isso era possível, nos dias de hoje? Como é que ele sabia que eu estava ali e onde diabos seria aquele lugar, afinal? Minha cabeça estava à mil!


-Até que enfim estamos frente a frente. Cheguei a pensar que você seria capaz de fugir de mim durante a vida toda.


Com uma voz rouca e ligeiramente trêmula, respondi.


-Eu não fugi de você. Você não compareceu aos debates.


-Eu não estou falando de antes da Grande Queda. Depois que sua revolução ruiu em migalhas, você se escondeu como um rato por entre os escombros, por anos! Covarde!
-Mas não estou aqui para te atacar, você já teve o que mereceu. Bem... ao menos uma boa parte. Estou aqui para entender. Estou aqui para ouvir de você, toda a história por trás disso tudo e dar meu toque final a esta história de terror.
-Então eu quero que você me conte. Eu quero saber de cada detalhe, de tudo o que aconteceu nos bastidores, onde os holofotes não iluminavam, e então, vou conseguir colocar nessa sua cabeça vazia o porquê o resultado foi esse.
-Vamos! Comece! Eu não tenho todo o tempo do mundo. Aliás, nós dois não temos muito tempo.


Minha mente não conseguia acompanhar a tudo aquilo acontecendo de uma só vez. Se fosse há alguns anos atrás, eu enfrentaria uma situação como esta com facilidade; mas hoje, meu cérebro já não era mais o mesmo. Não fui capaz de reagir de forma inteligente, questionar, entender e nem mesmo me recusar a fazer o que ele pedia. Fiquei apático e apenas segui sua ordem, como se estivesse atendendo a um pedido de um amigo de longa data.


-Está bem. Vou tentar detalhar ao máximo.
-Eu nasci em uma família pobre, assim como era 99% da população mundial, graças ao seu querido sistema. Assistir aos meus pais darem suas vidas para seus empregos e ainda assim termos apenas o mínimo para nossa sobrevivência, durante toda minha infância, moldou minha cabeça com uma revolta latente contra o que causava tudo aquilo.
-Durante minha adolescência, superei todas as dificuldades que me cercavam por conta de minha classe social e me tornei um estudioso de tudo o que permeava os grandes sistemas que governavam nosso mundo naquela época, sobretudo o sistema capitalista e monetário. Me tornei um exímio estudante e fui o destaque, não só de minha escola e de minha cidade, mas de todo meu país, sendo nacionalmente conhecido.
-Comecei minhas fortes críticas ao sistema capitalista, ao mesmo tempo que, por ter vindo debaixo, diferentemente de quase todo grande filósofo, economista e escritor; eu escrevia, palestrava e divulgava o meu trabalho em uma linguagem acessível e familiar a maior parte da população mundial. Talvez tenha sido isto que deu tanta força às minhas ideias.
-Aos vinte e oito anos já viajava o mundo todo em conferências, palestras, debates e workshops sobre o porquê o capitalismo deveria ser destruído. Foi nesta época que nos conhecemos. A sede das pessoas por separar tudo em dois lados acabou tornando-nos os principais rostos no cenário global: o homem mais rico da atualidade contra o homem que mais odiava o dinheiro, o capitalismo contra o não-capitalismo, o vermelho da revolução contra o amarelo da moeda, eu contra você. A partir de então, você começou o seu jogo sujo, e eu passei a não estar mais seguro em nenhum lugar do planeta.


-Ora, não despeje acusações infundadas, por favor. Você acha que eu estava preocupado pensando em que lugar você estaria a cada noite? Você realmente acha que eu era sozinho, que eu planejava e ordenava tudo? Não seja tolo.


- Eu estou sendo tolo? Eu sei que não era só você, mas da mesma forma que você não estava sozinho, eu também não estava! De que adiantaria me matar? Hein?!


-Você estudou muito, mas se esqueceu de estudar a forma como as pessoas pensam. Eu sei muito bem que você não era sozinho, mas você era o representante, a figura que simbolizava toda aquela ideia. Com você morto, tudo morria junto, na cabeça das pessoas! Ainda que seus aliados quisessem continuar suas ideias, tudo perderia força e o capitalismo não estaria mais ameaçado. É assim que sempre funcionou, e que conseguimos manter nossa hegemonia por tanto tempo.


-A ideologia de vocês é realmente inescrupulosa! Eu jamais pensei em te matar! Já não basta a vida dos milhares de pessoas que seu sistema maldito matava de fome todos os dias?!


-Basta! Me poupe do seu moralismo barato. Continue sua história ridícula porque estou ansioso para esfregar seus erros na sua cara. Ande logo! Continue!


-Os anos seguintes que passei escondido, com medo de ser morto por algum verme endinheirado como você, foram justamente os anos que me asseguraram a vitória. Este foi o seu erro! Sem comparecer a eventos, fazendo apenas vídeos para a internet que comprovavam que eu estava vivo e que deixavam aqueles que também queriam o fim do capitalismo ainda mais fervorosos, me sobrou muito mais tempo para estudar de que forma poderíamos derrubar de uma vez por todas este reinado de séculos. E enfim chegávamos a 2043! Eu nunca vou me esquecer daquele ano. Os rumores de uma nova crise no mercado imobiliário dos Estados Unidos, que vinham criando um medo global há dois anos, por fim se tornaram realidade.
-Mas, desta vez, havia um elemento que os bancos não esperavam, não é mesmo? Após o estouro da bolha, que desta vez já nasceu muito maior que a de 2007, a própria população interferiu, justamente quando os bancos já iniciavam seus planos de recuperação mútua. Sob minha liderança, milhões de pessoas sacavam dinheiro de seus bancos, todos ao mesmo tempo. Foi a minha manobra monetária contra a sua e, com isto, ficou impossível a recuperação do sistema todo. Com a economia dos EUA quebrada de uma forma como nunca havia acontecido antes, a economia internacional foi gravemente afetada, e isto encorajou países rivais a arriscar tudo para consolidar o que seria o fim do império norte-americano.
-O que se iniciou com quatro países em guerra, se multiplicou para dezoito em seis meses. O colapso econômico culminou em guerras civis em quase todos os países do ocidente. A existência da ONU já era em vão, e em mais alguns meses, nem mesmo as fronteiras entre um país e outro fazia sentido. A revolução foi mais rápida que eu imaginei, confesso. Eu sonhei minha vida toda com os dias em que derrubaríamos o capitalismo, e eu sabia que haveria muito sangue derramado, mas aquilo foi assustador. O pouco que conseguíamos saber por mídias alternativas era que a população mundial havia decrescido dois terços – fenômeno assustador que ficou conhecido como A Grande Queda. Não tive tempo nem ao menos de tentar liderar qualquer parcela que fosse do levante, no país em que eu estava na época. Assim que o mundo se cobriu numa cadeia de guerras, eu já havia me tornado o principal vilão. Meu rosto continuava sendo o mais popular daquilo que restava do mundo, mas, desta vez, eu era o causador de tudo aquilo, eu era o homem mais odiado da face da Terra.


-Era? Ainda é! Você fala como se tivesse passado muito tempo, desde então. Eu não sei se você ainda consegue raciocinar, no estado deplorável que você se encontra, mas nós estamos no dia 4 de abril de 2046!
-Passaram-se apenas três anos desde que você organizou aquele motim financeiro vergonhoso. E agora, você está feliz com seu resultado? Era isso que você queria? Um mundo inteiro completamente destruído, com as pessoas morrendo de fome?


-Quem é você para falar que as pessoas estão morrendo de fome? Agora você se importa com elas? O mundo não era tão diferente do que está agora, com o seu culto ao Dólar!
-Mas, se é isso o que você quer ouvir, eu digo: NÃO! Eu não estou feliz! Não era isso o que eu queria. Eu não sei o que aconteceu! Eu passei a minha vida inteira pensando em como mudar tudo, em como tornar o mundo um lugar melhor, sem toda aquela desigualdade social, sem má distribuição de renda, sem a existência do dinheiro! E eu consegui! Eu fiz o impossível, eu destruí o capitalismo! Onde foi que eu errei?


-Imbecil. Imbecil! Mil vezes imbecil! Como pode ser tão burro? Ao menos sua burrice está me proporcionando justamente o que eu queria quando te encontrasse: esfregar seu erro na sua cara, para você passar o que resta de sua existência miserável no mundo que você deixou para si mesmo pensando como foi que você não percebeu!


Clap! Clap! Clap! Clap!

Neste momento ele levantou-se da cadeira e começou a me rodear, enquanto batia palmas.


-Parabéns! Você realmente conseguiu fazer o impossível! Você destruiu o capitalismo. Você passou sua vida inteira planejando como faria isso, como faria sua porcaria de revolução; você só se esqueceu de pensar em uma coisa: A SUCESSÃO.
-E depois? Depois de derrubar o capitalismo, o que é que você colocaria no lugar? Isso realmente nunca passou pela sua cabeça?
-De que adianta retirar do poder um rei, se você não tem ninguém para colocar no lugar dele? De que adianta retirar do poder um presidente, se os outros candidatos estão dentro do mesmo sistema, e têm as mesmas características que têm todo político? De que adianta retirar da sociedade o sistema capitalista se você não tem nada para colocar no lugar?
-Por quê você acha que o socialismo não deu certo? O fracasso do socialismo, em cada uma de suas pífias tentativas práticas, é deveras parecido com o seu. Tirar o capitalismo para colocar uma porcaria de sistema tão falho quanto, em um local específico dentro de um mundo predominantemente capitalista? Isso não soa como uma piada para você? É claro que nunca daria certo. Mas, ainda assim, eles tinham algo para colocar no lugar, certo?


A sala foi tomada por uma gargalhada um tanto quanto forçada.


-Seu objetivo era apenas destruir, mas após a destruição, vem a reconstrução, vem a sucessão – e esta, meu caro, é a principal parte de uma revolução!


Ao ouvir tudo aquilo que ele dizia, meus pensamentos foram longe. Meu olhar ficou vago. Olhava para aquele rosto com expressões vívidas e ameaçadoras, mas via a mim mesmo. Via toda minha vida como um filme passando diante dos meus olhos. Todos aqueles anos estudando. O turbilhão de acontecimentos e polêmicas que tive inserido todos esses anos. Tudo aquilo por que passei e tudo aquilo que consegui. Para nada! Para culminar em um resultado ainda pior do que era antes. E tudo aquilo por tão pouco. Por um erro bobo. Como não pensei nisso? Como não pensei no que fazer depois?

Fui atingido por um leve tapa na cara.


-Você está ouvindo o que eu estou dizendo? Eu te fiz uma pergunta! Você sabe o que vai acontecer agora?


-Não. Ninguém sabe o que vai acontecer agora.


Adam tornou a soltar uma gargalhada.


-É aí que você se engana. Só porque você é um imbecil, não significa que todas as outras pessoas também o são. Mas não quero estender muito mais esta conversa, a hora já está chegando.


-A hora para que?!


-Você já vai saber. Vou finalizar o que tenho para te dizer e, em dezoito minutos, vamos para o grand finale!
-Ao contrário de você, eu pensei na sucessão. Desde que você conseguiu arrancar o capitalismo do mundo eu tenho moldado a ideia de como vamos recuperá-lo. Assim como meu erro garantiu sua vitória, o seu também garantiu a minha. Durante estes três anos, em vez de me esconder nos escombros como você, eu mantive contato com os principais líderes mundiais que conseguiram se manter vivos. Nossas conversas foram muito satisfatórias! Se tivéssemos mais tempo, adoraria te mostrar nosso planejamento detalhado para os próximos anos, vai ser histórico! Será mais grandioso do que os acordos de Bretton Woods em 1944! Meu sobrenome vai permanecer nos livros de história por muito tempo, não só como o sobrenome da família mais poderosa do século, mas também como o nome da ascensão do capitalismo ao mundo todo!
-Na verdade, tudo sempre esteve planejado caso alguém como você um dia conseguisse seu glorioso feito. Eu só estive ajeitando os detalhes e tudo já está prontinho há algum tempo, só faltava um pequeno elemento: você! É chegado o momento!
-Homens, por favor, executar o procedimento! Esta conversa está terminada.


Sem dizer mais nada, ele se afastou em direção à porta e saiu da sala. Os dois homens que estavam nos cantos de trás da sala desde o início da conversa se aproximaram, e logo entraram duas moças, vestidas de branco. Eram enfermeiras, e me aplicaram uma injeção no meu braço direito.

O pavor tornou a tomar conta do meu corpo, mas, desta vez, meu coração não acelerou e minhas pupilas não dilataram. Devia ser este o exato motivo daquela injeção: impedir meu sistema nervoso de colapsar e não me deixar ver a tudo o que aconteceria comigo nos momentos seguintes. Me sentia mole, sem forças. Os homens me desataram da cadeira e me carregaram pelos braços por entre os corredores daquele labirinto sujo e vazio. Meus pés trepidavam levemente conforme passavam por cima das pequenas concentrações de pedrinhas e areia que haviam pelo chão.

Um clarão invadiu minha vista. Estávamos ao ar livre. Um barulho intenso de vozes se intensificou, característico de uma multidão que estava tendo, finalmente, o que esperavam: a mim. Os homens me viraram e pude ver, do alto de uma ribanceira, uma plateia de milhares de pessoas que comemoravam ao me ver. Eu estava na ponta daquele barranco, abaixo de uma enorme estrutura de madeira. Ao meu lado esquerdo, Adam vestia um terno inteiro amarelo, que se completava com uma cartola em sua cabeça. Ele estava realmente decidido a voltar às origens do capitalismo. Com um microfone ligado à enormes caixas de som, ele começou a falar.


-Senhoras e senhores, conforme prometido, apresento a vocês o espetáculo do começo de uma nova era! A reconstrução do mundo como conhecíamos antes, o recomeço do capitalismo, o fim da Grande Queda!


O barulho das pessoas alvoroçadas, como ao ouvir sua música preferida em um show de rock, era ensurdecedor.


-Como vocês sabem, todo recomeço vem após algum final, e o final de hoje vocês já sabem qual é, não sabem? O começo desta nova se inicia após o fim dele!


Ao dizer isto, ele apontou para mim.


-Homens, deem a este homem o final que ele merece!


Neste momento, aqueles homens que ainda me seguravam pelos braços amarraram minhas mãos uma à outra, e envolveram meu pescoço em uma corda grossa que descia devagar da estrutura de madeira. Era uma forca. Eles iam me enforcar diante de milhares de pessoas, que provavelmente só estavam ali para assistir à minha morte.

Com um sorriso no rosto, e muito entusiasmo, Adam veio até mim e disse: “Obrigado!”. Voltou ao microfone.


-Quero ouvir todos vocês em uma contagem regressiva, junto comigo.
-Cinco!


Não conseguia nem ao menos chorar. Estava fortemente dopado.


-Quatro!


Será que eu realmente merecia aquilo?


-Três!


No meio da multidão começou a se desenrolar uma enorme bandeira, com aquilo que deveria ser o nome daquela nova revolução comandada por Adam.


-Dois!


Engoli a seco, esperando a morte. Parece que Adam teve realmente o que queria, pois na minha mente ecoava, em loop eterno, a pergunta: “Como é que eu não pensei nisso?”.


-Um!


Meu corpo inteiro se gelou. Senti um forte empurrão que me jogou do alto daquela ribanceira, direto para a morte. Meu corpo caía em câmera lenta. Já em queda, fiz a última coisa em vida: terminei de ler o que estava escrito na bandeira, que agora já havia se desenrolado por completo. Ele nomeou a revolução dele, com uma frase minha em um dos meus livros. Estava escrito “O OUTRO LADO DA MOEDA”.

domingo, 25 de março de 2018

10 centavos - Ensaios sobre a perfeição - Parte 1

Pré-requisito: Nenhum.

Autor: Gustavo Spina


De acordo com o dicionário Aurélio de língua portuguesa, Perfeição é um substantivo qualitativo significando “o grau de excelência, bondade ou beleza a que pode chegar alguma coisa” [1]. Filosoficamente, o conceito de perfeição é muito mais amplo, e já foi bastante discutido, passando por nomes como Santo Agostinho e Leibniz.

No âmbito social, em nosso cotidiano, a perfeição é um conceito de uso subliminar, diário e, paradoxalmente, quase nunca discutido. Isso se deve ao fato de que, basicamente, este conceito é cega e popularmente aceito e, concomitantemente a isto, possui fundamentação teórica extremamente grande e difícil. Analisemos.

Começando pelo primeiro motivo, o conceito de perfeição é intrinsecamente ligado ao conceito de Deus, ou deus. Uma vez que vivemos em um mundo majoritariamente monoteísta [2], é de se esperar que qualquer conceito que circunde esta atmosfera seja popular e cegamente aceito. Chegando ao segundo motivo, basta que façamos uma rápida pesquisa no Google para nos depararmos com uma infinidade de grandes nomes da Filosofia mundial despendendo páginas e mais páginas acerca deste conceito. Sua complexidade teórica é assombrosa e, portanto, vai na contramão de uma ideia corriqueiramente discutida. Dessa forma, apesar de utilizarmos este conceito o tempo todo, afirmando que algo ou alguém é perfeito ou imperfeito, nem ao menos sabemos do que realmente se trata a perfeição.

Vamos então despender mais algumas linhas para compreendermos um pouco melhor este conceito, de forma simples, mas chegando a conclusões muito interessantes.

Vamos inspecionar este conceito verificando sua natureza e unicidade. Quais os fundamentos básicos acerca da perfeição? Seria a perfeição uma característica única? O intuito deste pequeno artigo é explorar de forma superficial o conceito a fim de definir seus alicerces e descobrir se é possível haver graus ou tipos diferentes de perfeição.

O conceito de perfeição é um compilado de muitos outros conceitos, é uma qualidade suprema, feita de inúmeras outras qualidades. A perfeição é uma característica que abrange diversas outras, mas, podemos definir seus pilares fundamentais os conceitos de “máximo” e “infinito”. A perfeição deve ser entendida primordialmente como uma qualidade máxima e infinita. Tudo o mais que pertencer à qualidade da perfeição deverá, portanto, ser máximo e infinito. Como exemplo, se incluirmos a característica de bondade à perfeição, esta bondade deverá então ser máxima e infinita. Desta forma, por definição devemos assumir que nenhuma outra bondade é maior ou igual (nada é maior ou igual que o infinito) nem melhor (não há como ultrapassar o máximo de uma qualidade). Isto responde, automaticamente, ao nosso segundo questionamento. Através de seus pilares fundamentais, a perfeição se caracteriza única, não deixando a hipótese de haver mais de um tipo ou diferentes graus de perfeição no mundo das possibilidades reais.

Para simplificar o entendimento, vamos fazer uma representação pictórica do conceito de perfeição como uma escala de medida em metros: suponhamos que, nesta escala de medida que criamos, a máxima medida em metros corresponde à perfeição. Para iniciar a disputa, imaginemos que se levante a opinião de que o Sol, de nosso sistema solar, seja tido como perfeito. Nosso Sol de fato é uma estrela muito grande, com um diâmetro de cerca de 1.392.000 km [3]. Entretanto, vasculhando um pouco mais o universo, nos deparamos com a estrela Antares, aproximadamente 700 vezes maior que nosso Sol [4]. Sendo assim, o Sol deixa de ser perfeito, dando lugar à nova perfeição: Antares! Nada pode ser maior. Será? E o espaço percorrido entre o nosso Sol e Antares, não é muito maior do que qualquer uma dessas estrelas?

Enfim, para toda e qualquer distância absurdamente grande candidata ao título de perfeita, sempre poderemos adicionar mais alguns centímetros, e assim por diante ad infinitum. Como não há, fisicamente, um limite superior em metros, somente um tamanho infinito corresponderia, neste nosso exemplo hipotético, a um tamanho perfeito. Qualquer distância próxima ao limite máximo, será inferior a este e, portanto, imperfeita (e não com algum grau de perfeição ou com algum outro tipo de perfeição).

Sendo assim, podemos estender essa compreensão para toda e qualquer qualidade que desejarmos incluir como parte integrante da perfeição: a bondade, a sapiência, a potência etc. Quais serão as implicações quando tentamos aplicar o conceito de perfeição a um ser?

[1] - https://dicionariodoaurelio.com/perfeicao Acesso em: 25 Mar. 2018



[4] - http://www.apolo11.com/escala_planetas.php Acesso em: 25 Mar. 2018