quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Outro Lado dos Sistemas 5 - Louvando a própria miséria

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 4
Autor: Gustavo Spina

Quase todos os seres humanos do planeta têm o direito de ir e vir, livremente, garantido pelas constituições de quase todas as nações do globo, mas, é possível gozar desta liberdade sem dinheiro? É com este questionamento que inicio este texto, abrindo mais um leque de diversas características de nossa atual sociedade, para que possamos continuar e finalizar a discussão iniciada no texto anterior sobre o modo como os grandes sistemas que regem o mundo, sobretudo os sistemas monetário e capitalista, se mantêm.

Uma sensata resposta ao questionamento proposto pode consistir no argumento de que nós possuímos este direito, mas nem sempre as condições para desfrutá-lo. De fato, nós possuímos nossos direitos garantidos por lei, e o dinheiro configura-se como “uma condição” para que possamos manifestar a maioria deles; e é exatamente aqui que a discussão acalora-se. Sendo assim, esta não passa de uma das inúmeras ilusões que estes sistemas nos proporcionam, afinal, de que vale possuir um “direito garantido” sem uma igual garantia das condições necessárias para manifestá-lo? Pura ilusão.

Ainda pior, o dinheiro, muito além desta aparente “ferramenta auxiliadora” que nos dá condições para que possamos usufruir de nossos direitos; comporta-se como o único, universal e indispensável modo de fazermos QUALQUER COISA. Não se trata apenas de ir e vir livremente, como no exemplo dado. Permita-me que eu refaça a pergunta para que esta ideia fique mais clara: é possível fazer algo sem dinheiro?

Infelizmente a resposta é não. Sem dinheiro não podemos fazer nada, e isto inclui viver. A respeito deste fato, não sei o que mais me assusta: o mundo funcionar desta forma, ou as pessoas enxergarem-no com a maior indiferença e naturalidade a que se pode imaginar. Basta que façamos algumas rasas reflexões, para constatarmos o quão absurda é esta atual característica social; vamos a elas.

A diversidade e unicidade de nossas personalidades, provenientes de nossa já discutida variedade e unicidade genética, é o que faz (ou faria em um mundo com sistemas melhores) com que a raça humana seja um maravilhoso espetáculo de diversidade de aparências e ideias – por fora e por dentro somos particularmente diferentes em tudo, uns dos outros. Quando tentamos encaixar esta diversidade a um sistema que obriga cada um de nós a ganhar dinheiro para poder viver, ou na maioria dos casos sobreviver; uma das consequências mais óbvias é a de que vai haver sempre, necessariamente, pessoas que não conseguirão cumprir esta obrigatoriedade, e vão passar toda a sua vida privadas de suas condições de viver, como mendigos ou miseráveis que realmente e infelizmente existem e não são poucos.

Simplificando esta ideia, traduzindo-a para apenas uma frase, podemos concluir que um sistema que nos obriga a ganhar dinheiro para viver produz, invariavelmente, uma quantidade diferente de zero de pessoas que já nascem fadadas ao triste destino social de apenas existir entre o tempo de seu nascimento e sua morte, sem jamais ter condições de exercer seu garantido direito de viver. E agora, aquilo que nos aparentava ser tão óbvio, já parece absurdo o suficiente? Na verdade, este fato só é passível de aceitação porque nós, ao contrário destas pessoas, nascemos com um conjunto de características que, adicionadas às condições sociais daqueles que nos conceberam, nos permite nossa adequação ao sistema, nos permite ganhar dinheiro e, portanto, nos permite viver. Se fôssemos diferentes e estivéssemos no lugar destas pessoas, garanto que nosso posicionamento seria completamente diferente.

Parte desta frieza vil, que se traduz em nossa indiferença, e em muitos casos até em discursos de ódio para com estas vidas que são criadas e ao mesmo tempo descartadas por nossa sociedade, vulgarmente chamados de vagabundos e imprestáveis; provém também do próprio sistema. Por meio de memes e frases repugnantes como “se eu consigo, ele também consegue”, “todos somos capazes”, que “basta querer” ou “se esforçar” – e até a crença em ideias absurdas como a meritocracia – somos coagidos a projetar “a culpa” por aquela situação no próprio indivíduo, na própria vítima, absolvendo o verdadeiro e dissimulado culpado, que segue impune cometendo suas atrocidades globais.

A busca incessante pelo dinheiro também nos sugere uma constante competição social: disputamos por um lugar na escola, disputamos por uma vaga na universidade, disputamos por limitadas oportunidades de trabalho e, após vencermos, disputamos pela permanência em nosso emprego – passamos a vida em uma disputa sem fim, uns com os outros; tal qual agiam nossos ancestrais, disputando por recursos naturais para garantir sua sobrevivência (não evoluímos o suficiente para mudar este hostil comportamento primata?). Este tipo de comportamento social nos faz enxergar no outro a figura de um competidor, de um inimigo, de alguém que pode tomar o ‘nosso’ lugar nas oportunidades que tanto almejamos conseguir. Talvez isto explique nossa hostilidade social, nossa dificuldade em ser simpáticos e amigáveis uns com os outros, característica esta que se intensifica em locais onde a competição é mais acirrada e corriqueira, como em grandes cidades.

Ainda sobre a magnificência do dinheiro, podemos inferir que: sem trabalho significa sem dinheiro, e sem dinheiro significa sem vida. “trabalhe ou morra” se apresenta como o lema da muito bem disfarçada e institucionalizada escravidão do século XXI. Entretanto, muito mais inteligente do que uma escravidão declarada, onde as pessoas são forçadas a trabalhar a contragosto, o relojoeiro que tudo vê projetou as engrenagens de modo a fazer com que as pessoas, além de não saberem que são escravas, gostem da ideia.

Assim como na sociedade vislumbrada por Aldous Huxley, no clássico da literatura mundial ‘Admirável Mundo Novo’, nós amamos fazer aquilo que somos obrigados a fazer, resultando em uma sociedade majoritariamente estável. Aposto que o autor ficaria assombrado ao saber que chegamos a este ponto mesmo sem a necessidade de nenhuma engenharia genética, fator decisivo para tanto, em sua obra.

Neste ponto da discussão, deve pipocar em nossas cabeças uma intrigante e importante questão: Além da ignorância quanto a estes fatos, que outro fator faz com que aceitemos a isto tudo, quietos? E mais ainda, como dito nos parágrafos anteriores – que amemos o que fazemos e ser quem somos? Vamos à resposta.

Não é apenas o estilo de vida consumista que nos vende uma falsa ideia de felicidade e um sentido supérfluo para nossas vidas através de sonhos prontos e da satisfação em comprar produtos e aparelhos eletrônicos, como vimos em textos anteriores. Ao lado do consumismo, o OTIMISMO desenvolve o segundo mais importante papel em nos fazer pensar que somos felizes. O otimismo é também um estilo de vida, um senso comum que pode ser entendido como uma espécie de fé não religiosa, onde se acredita que todos somos felizes ou, no mínimo, que todos seremos felizes, um dia, e que tudo acabará bem, mesmo sem nenhuma evidência que corrobore com estas afirmações.

Sem saber como o sistema funciona, que o mundo não é feito para nós, e que vivemos apenas para manter tudo da assombrosa forma como está atualmente, acreditamos realmente que somos felizes e que não temos nada do que reclamar. A escolha dos parâmetros é o que mais nos cega em relação a este equivocadíssimo fato. Esbanjamos nossa felicidade por termos onde morar, por termos onde trabalhar e por termos condições de fazê-lo. Nos gabamos de ter saúde e de ter o que comer; mas este não seria o mínimo? Vez ou outra balbuciamos que “tem gente muito pior do que nós”, mas nunca lembramo-nos de que há também “gente muito melhor do que nós”. Ao medir o nível de nossa felicidade, olhamos sempre pra baixo, tendo a falsa impressão de que estamos no topo da escala de felicidade. Se corrigíssemos nossos parâmetros de comparação e começássemos a olhar pra cima, nos assustaríamos com a nossa verdadeira e ínfima posição nesta escala.

A religião e seus deuses, assuntos já amplamente discutidos em textos passados, estão intimamente ligados ao otimismo. Todas as ideias de um “pós-vida”, por mais variadas que sejam suas teorias, nos dão a certeza de que este duro período que vivemos na Terra é apenas passageiro, que iremos para algum outro lugar e que, portanto, tudo irá melhorar, um dia. Da mesma forma, a ideia de uma justiça perfeita e infalível provinda de um ser supremo nos conforta, no sentido de que mesmo o mundo funcione como discutimos exaustivamente até agora, podemos permanecer tranquilos, pois os responsáveis por tudo isto irão “pagar pelo que estão fazendo”. Para que lutar contra, ou tentar mudar isto tudo, se a justiça será feita, de qualquer forma? Uma população toda pensando desta forma é bastante conveniente para quem está no poder, não é mesmo? De fato, Deus é burguês, e a religião é o ópio do proletariado.

Desta forma, munido de frases como “só o melhor me acontece”, o vírus do otimismo se alastra e adoece a cada indivíduo, contaminando toda a população, que apresenta sintomas cada vez mais terríveis. Perdemos o ímpeto de lutar, a força e a motivação para mudar nossa situação, para mudar a situação do mundo todo, pois amamos ser quem somos, amamos estar na situação que estamos e louvamos a nossa própria miséria. O que deveríamos saber é que o conforto que o otimismo e a fé nos proporcionam não é páreo, nem de longe, para os malefícios sociais consequentes destas mesmas ideologias: a estagnação e a aceitação social de nossa situação, mesmo com todos os motivos que nos mostram que esta mesma situação é escandalosamente inaceitável.

Para finalizar o texto, resta apenas a resposta à pergunta feita no final do texto anterior: temos outra escolha, a não ser a de trabalhar para a manutenção do próprio sistema? Voltando ao coração do assunto, o fato de o dinheiro ser dotado de tamanha supremacia – o único meio através do qual podemos viver e, talvez, ser felizes – nos torna absurdamente dependentes dele, e isto já deve estar mais do que evidente, após o que acabamos de discutir ao longo de todo este texto. Sendo assim, nós podemos escapar da ignorância e falta de interesse, intrínsecas às grandes massas, de forma a descobrirmos como o mundo funciona, e qual o nosso verdadeiro e desprezível papel social; podemos ainda fugir ao senso comum danoso e ilusório do otimismo e da fé, deixando de gostar, de aceitar nossa posição social e tudo aquilo que somos obrigados a fazer durante a vida; mas não podemos, de forma alguma, escapar do sistema. Quem não obedece às suas regras, quem não trabalha para a sua manutenção, é automaticamente privado de suas condições de viver. A resposta, mais uma vez, é não: não temos outra escolha.

Com isto, finalizamos a discussão iniciada no texto anterior sobre a forma como o sistema se mantém. De fato, não há outra escolha senão trabalharmos para a manutenção do sistema, fazendo-o funcionar, indefinidamente. Somos ferramentas perfeitas para o relojoeiro, que nos molda em formas muito bem definidas, para servir à manutenção de seu complexo sistema de engrenagens, ponteiros, bateria; cada uma com um formato tão especificamente projetado para desempenhar uma função reparadora que, se não servir, é descartada, de imediato, para junto das ferramentas que já nascem com defeito de fabricação, e não têm nenhuma serventia desde o início. Enxergar que não há outra forma, não cessará nossas discussões, tampouco deve cessar nosso ímpeto pela mudança - ao contrário, enxergar os fatos, como realmente são, é fomentar ainda mais nossa sede pela busca de novas informações, de ainda mais entendimento, de outras alternativas; é nos tornar ainda mais insaciáveis em nossa já longa jornada em direção ao OUTRO LADO DA MOEDA.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Outro Lado dos Sistemas 4 - O relojoeiro que tudo vê

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 3
Autor: Gustavo Spina

O mecanismo de um bom relógio é complexo, composto por diversas partes que se interconectam por meio de engrenagens. Para que seja de fato bom, deve ser desenvolvido por um bom relojoeiro, que saiba com maestria o que está fazendo, sendo capaz de prever até mesmo por quanto tempo seu mecanismo pode funcionar, antes de parar, seja por falta de bateria, seja por danos em componentes internos. Continuamos, a partir deste texto, nossos estudos analisando o grande mecanismo de relógio no qual estamos imersos; dando uma breve pausa na inspeção de como ele funciona, para inspecionar o modo como ele se mantém.

Saber como os grandes sistemas funcionam, como temos feito até agora, e continuaremos fazendo posteriormente, é de importância indiscutível; mas saber como eles se mantêm é de igual ou até maior importância. Afinal, se um de nossos objetivos for, por ventura, fazer com que o relógio pare de funcionar, para que então  possa ser substituído por outro, é imprescindível que saibamos o que exatamente mantém suas engrenagens girando. Ainda com o foco no capitalismo e também no sistema monetário, vamos introduzir o conceito de obsolescência, e discutir, neste texto, as chamadas obsolescências programada e perceptiva.

Em uma rápida e básica pesquisa, o leitor pode confirmar que obsolescência é o ato ou a condição que ocorre a um produto fazendo com que se torne inútil, mesmo em perfeito estado de funcionamento, devido ao surgimento de seu sucessor ou de outra tecnologia mais avançada. Em um primeiro momento, podemos entender este conceito como uma consequência óbvia e natural de nosso progresso científico: à medida que a ciência nos proporciona novos conhecimentos e descobertas, que nos tornam capazes de desenvolver novos e melhores produtos, é bastante intuitivo que os produtos antigos deem lugar às novas tecnologias.

Um bom exemplo deste processo, como consequência natural do progresso científico, é a substituição dos antigos lampiões a gás, ou a querosene, pelas lâmpadas; que ocorreu após o advento da distribuição de energia elétrica em larga escala, no início do século XIX. Desta forma, em um cenário tecnológico completamente diferente, os lampiões tornaram-se inúteis, obsoletos, e tiveram de ser descartados por todos que os utilizavam, mesmo em pleno funcionamento.

Entretanto, nas mentes mais espertas e maléficas (e a esta altura já não temos dúvidas de que elas existem em abundância), este fenômeno pode se tornar uma poderosa estratégia econômica. Uma das definições da obsolescência programada a descreve como a decisão do produtor de propositadamente desenvolver, fabricar e distribuir um produto de forma que se torne obsoleto especificamente para forçar o consumidor a comprar a nova geração do produto. Desta forma, a obsolescência além de natural, a partir da década de 1920, surgindo na indústria automobilística com o intuito de que os consumidores passassem a trocar seus veículos com maior frequência; passou a ser também uma estratégia de mercado, que visa garantir o consumo constante por meio da insatisfação.

No texto anterior a este enxergamos de forma bastante clara que para que a pequena e mais rica parcela da população mundial permaneça em sua posição favorável e privilegiada, deve coagir a outra esmagadoramente grande e mais pobre parcela da população a injetar a maior parte de sua já pequena porção da riqueza mundial de volta às grandes corporações, por meio do consumismo; e a obsolescência programada se mostra como nada mais do que uma das principais ferramentas para que este objetivo seja cumprido com sucesso.

Que escolha temos, quando nossas máquinas de lavar roupas ou geladeiras simplesmente não ligam mais, no intervalo de aproximadamente cinco a dez anos de uso, ou quando algum componente interno de nossos aspiradores de pó, ou mesmo de nossas televisões se danifica poucos meses após a sua garantia válida por alguns poucos anos; sobretudo em um cenário onde o custo do reparo destes componentes, somado ao preço de um componente novo aproxima-se ou, como em grande parte das vezes, ultrapassa o valor de um equipamento novo e tecnologicamente mais avançado? Nenhuma, além de descartar o obsoleto e comprar o novo.

Nas últimas décadas, ficou evidente que a velocidade com que a tecnologia avança tornou-se assustadoramente veloz, e este cenário contribui ainda mais para a instalação da obsolescência programada. Desde então, esta ferramenta vêm sendo cada vez mais explorada, com a criação de cenários onde o que poderia significar apenas uma simples troca de um componente, acaba por acarretar a troca de diversos outros, ou mesmo do todo. Isto fica evidente com os computadores:

Se com o passar de alguns poucos anos, precisamos por ventura de uma maior capacidade de processamento de nossa placa de vídeo, ou simplesmente capacidade de armazenamento de nossas memórias RAM, bastaria que trocássemos nossa placa de vídeo por uma melhor, ou que adicionássemos mais “pentes” – como se diz popularmente – de memória. Entretanto, nem sempre isto se torna possível, já que conforme a tecnologia avança, as formas também mudam, mudando os encaixes e conexões internas, o que em muitos casos nos trazem a necessidade de trocar também, para que seja possível a adição dos novos componentes, a chamada “placa mãe”, o que por sua vez acarreta na troca dos demais componentes, tornando-se, muito provavelmente economicamente inviável se comparada à compra de um novo e completo computador. A troca ou adição de um único componente acaba por se tornar a compra de um novo e completo equipamento.

Ainda mais nociva e também mais intimamente ligada ao nosso estilo de vida fútil e consumista, é a chamada obsolescência perceptiva, que pode ser definida como forma de reduzir a vida útil dos produtos que ainda são perfeitamente funcionais e úteis, por meio do lançamento de novos produtos com aparência inovadora e pequenas mudanças funcionais (ou seria esta a definição da política de mercado da Apple?).

Em outras palavras, com esta técnica não se faz mais necessário que os produtos tornem-se obsoletos, de fato, por terem toda ou parte de sua funcionalidade propositadamente prejudicada com o decorrer do tempo; mas apenas que pareçam obsoletos, que aparentem obsolescência em relação aos novos e periódicos lançamentos sucessores. Para mostrar a si mesmo(a) que somos exemplos vivos dessa vergonhosa e nociva atitude, responda em pensamento: quantas vezes, nos últimos dois anos, você e as pessoas que o(a) rodeiam já trocaram seus smartphones por outros, de gerações posteriores, sem uma REAL necessidade?

A palavra “nociva” foi utilizada uma vez em cada um dos dois parágrafos anteriores. Em suas duas aparições, ela se referia à prática da obsolescência perceptiva, ou seja, do descarte de um produto completamente funcional, para dar lugar a outro, quase que identicamente funcional, como uma forma imbecil de futilidade cultural capitalista. Não é difícil saber o porquê esta prática é absurdamente nociva ao planeta – e eu ficaria muito feliz se o caro leitor o soubesse de antemão. O jargão de que “não se pode ter um consumo infinito em um planeta finito” já se configura como uma resposta razoável, afinal, os recursos de nosso planeta são em sua maioria finitos, e nosso estilo desenfreadamente consumista, sobretudo descartando produtos ainda em plena funcionalidade; anda completamente na contramão deste fato. Basta que façamos um mínimo de filosofia acerca dos produtos que possuímos para que saibamos que, obedecendo a lei de conservação de energia, eles não são criados a partir do nada: são, ainda que processadas, matérias primas retiradas do globo – desperdiçando-os estamos sendo íntimos cúmplices da exploração desenfreada e degradação ambiental, estamos sendo nossos próprios inimigos.

Para finalizar a discussão sobre os conceitos apresentados, podemos entender todo o processo ainda mais profundamente retornando ao exemplo da lâmpada incandescente. Após a transição dos lampiões para as lâmpadas de filamento, tivemos algumas outras transições, chegando às atuais lâmpadas fluorescentes e, neste momento, estamos no meio de outra grande transição deste produto, com o surgimento das lâmpadas de LED. Tomando como exemplo o tipo mais comumente utilizado no presente momento – as fluorescentes – seu tempo de vida útil é de cerca de alguns meses até que tenhamos que substituí-la por uma nova. Por ter sempre sido desta forma, e por ser uma característica comum a todos os tipos e marcas de lâmpadas residenciais, temos a ilusória impressão de que este é o tempo de vida útil natural da melhor lâmpada que pode ser fabricada. Errado!

Benito Muros, espanhol, criador e ex-presidente do Movimento SOP (Sin Obsolescencia Programada – em português Sem Obsolescência Programada - http://movimientosop.org/) é conhecido polemicamente como o criador da “lâmpada que não queima”. Muros, em sua luta contra a obsolescência programada, realmente foi o inventor de uma lâmpada que dura cerca de 100 anos funcionando – apesar de ter garantia de 25 anos – e que o leitor pode facilmente encontrar à venda pela internet. Em meio a polêmicas e ameaças, como noticiado por todo o mundo no auge de sua invenção, este espanhol é principalmente um grande exemplo de que a obsolescência programada existe e está presente nos mais diversos produtos os quais nem imaginávamos ser predestinados, propositadamente, a perderem toda ou grande parte de sua funcionalidade, somente para que sejamos obrigados – e não mais apenas incentivados ou coagidos – a continuar exercendo aquilo que mantém o sistema em pleno funcionamento: CONSUMIR.

Após ter uma ideia do quão verdadeiramente complexo é este grande mecanismo de relógio no qual estamos imersos, e entender um pouco de seu funcionamento, descobrimos então que nós somos o óleo aplicado às engrenagens para que se desgastem menos. Descobrimos que nós somos também as pequenas e pontiagudas ferramentas de reparo, que a todo o momento permeiam e agem sobre o mecanismo realizando, vez ou outra, até a troca de engrenagens e da bateria que alimenta o sistema, a fim de praticar sua manutenção e perpetuar seu funcionamento. Somos todos ferramentas, instrumentos pertencentes e manipulados pelo relojoeiro, o relojoeiro que, de tão esperto, em vez de prever por quanto tempo seu mecanismo funcionaria, desenvolveu um modo pelo qual ele se auto repara, um modo pelo qual se mantém, um modo pelo qual não para. Desta vez, e infelizmente, o relojoeiro não é cego, pelo contrário: a tudo vê.

Neste texto vagamos pelo conceito de obsolescência, analisando suas várias formas e inferindo sobre suas consequências. Terminamo-lo, então, traduzindo toda a discussão desenvolvida na ideia de que somos os próprios agentes que mantém o sistema funcionando da forma como a qual ele funciona. Mas será que temos alguma escolha, que há outro modo de agir? No próximo texto, trataremos da resposta desta questão por meio de uma profunda discussão acerca de mais detalhes sobre o funcionamento da sociedade à nossa volta, finalizando este tema, prosseguindo em nossa caminhada com mais um passo em direção à verdade, por mais dura que ela possa ser; com mais um passo em direção ao OUTRO LADO DA MOEDA.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Outro Lado dos Sistemas 3 - Consumindo a nós mesmos

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 2
Autor: Gustavo Spina

Continuando nossa discussão sobre a construção humana do sentido da vida, dada a componente religiosa no final do texto passado, analisemos agora sua componente social. O sentido da vida sob a ótica social se traduz melhor como o nosso OBJETIVO. O que queremos fazer em toda a nossa vida, quais são os maiores feitios que desejamos realizar, quais são os nossos grandes planos e sonhos, quais são os nossos principais objetivos de vida? As respostas dessas perguntas configuram-se como o nosso sentido da vida sob a ótica social e que, apesar de serem diferentes para cada indivíduo, têm uma grande parte comum.

Para constatar a veracidade desta última afirmação, basta que você, em um rápido exercício mental, identifique quantas pessoas, dentro de todas aquelas que você conhece, NÃO querem, por exemplo, ter um ou mais filhos, ter uma casa própria, um carro e um emprego estável, de preferência em uma grande corporação. Se houver, são proporcionalmente pouquíssimas, certo? E você, agora, pode estar pensando: “mas é claro que é isto o que as pessoas querem. O que mais poderiam querer?”. E a resposta para esta pergunta vem ao longo de todo este texto, pois isto não é tão simples quanto essa afirmação sugere.

Os objetivos de vida citados no parágrafo anterior estão presentes na aniquilante maioria das pessoas, em especial daquelas que vivem em grandes centros urbanos, assim como este que vos escreve. E esta última observação é de extrema importância para que entendamos o porquê isto ocorre – o meio em que vivemos é decisivo neste processo. Se você, caro leitor, não for um habitante de um grande centro urbano, muito provavelmente você conhece sim, proporcionalmente, muitas pessoas que não têm como objetivo de vida um ou mais daqueles exemplos dados acima. Isto se deve ao fato de que o estilo de vida de cidadãos campestres ou rurais é completamente diferente do estilo de vida de um cidadão urbanoide ou metropolitano.

De uma forma mais simples, o que quero evidenciar no início deste texto é que o meio onde vivemos nos enquadra em um determinado estilo de vida, e este por sua vez nos fornece “sonhos prontos” que, sem que possamos perceber, acreditamos ser o que realmente queremos, e fazemos deles os nossos objetivos de vida. A princípio, isto tudo parece um tanto quanto óbvio e inofensivo, mas é muito mais danoso do que você pode imaginar.

Focando no estilo de vida urbano, que abrange uma parcela exorbitantemente maior da população mundial, não é difícil perceber que um padrão de felicidade nos é enfiado goela abaixo constantemente. Ligue a sua televisão, e assista às propagandas de margarinas, onde há sempre uma família composta por um pai, uma mãe, um ou dois filhos e um animal de estimação, todos sempre sorridentes, contemplando uma mesa farta; e você saberá do que estou falando. A felicidade é o objetivo em comum de todos, mas será que o que dizem sobre “ser feliz” serve mesmo para você?

Reflita: você realmente sonha em ser mãe? Você será realmente feliz tendo sua casa própria? O seu maior objetivo é, de fato, conseguir trabalhar em uma empresa multinacional e atingir o salário de dez mil reais por mês? Tudo o que você mais quer é um modelo específico de carro e alguém do sexo oposto no banco do passageiro? ISSO REALMENTE TE FARÁ FELIZ?

Vamos analisar então de que forma os grandes sistemas que regem o mundo em que vivemos hoje trabalham para nos moldar em um estilo de vida específico e muito bem definido, e qual é o objetivo por trás disto. Para tanto, devemos entender um pouco melhor sobre o funcionamento do capitalismo, e algumas de suas características mais expressivas, e é exatamente isto o que faremos nos próximos parágrafos deste texto.

Uma primeira constatação extremamente importante sobre o funcionamento do capitalismo é a forma de como o dinheiro é distribuído, a qual tomei a liberdade de chamar de distribuição de dinheiro espelhada. Esta simples ideia nos mostra que em um sistema capitalista, a desigualdade social é endêmica, ou seja, ela vem de dentro, faz parte do sistema, é uma consequência natural de suas próprias características.

Para entender esta simples ideia, vamos realizar uma breve discussão: uma vez que sabemos que há um número total finito de dinheiro no mundo, suponhamos que ele seja distribuído de forma igualitária para cada um dos habitantes da terra e a partir daí, o mundo comece a funcionar exatamente como ele funciona, de fato, hoje. Pensando coletivamente, não é difícil constatar que, através dos diferentes valores agregados a cada matéria prima ou produto final, após alguns dias no grande jogo de compra e venda mundial, a riqueza vai começar a se concentrar nos cofres daqueles países que possuem maior quantidade dos bens de maior valor agregado.

Da mesma forma, pensando individualmente, os diferentes valores de remuneração, baseados na importância social de cada vertente trabalhista, também causará uma maior concentração natural de dinheiro nos bolsos daquelas pessoas consideradas mais importantes socialmente. Entretanto, como havíamos dado como premissa em nosso exemplo, o dinheiro total do mundo é finito, e foi distribuído de forma igualitária para todos. Logo, para que haja um acréscimo de riqueza de uma quantidade qualquer para quaisquer indivíduos, é necessário que haja um decréscimo da exata mesma quantidade de riqueza para outros quaisquer indivíduos.

Esta última afirmação evidencia a forma de distribuição de dinheiro espelhada, pois assim como acontece na frente de um espelho, quanto mais distante você fica da superfície do vidro, ou quanto mais dinheiro um ou mais indivíduos concentram, mais distante a sua imagem espelhada também fica para o lado oposto, ou menos dinheiro um ou mais indivíduos concentram, na mesma exata proporção. E se isto ocorre naturalmente para o exemplo dado, em que a quantidade de dinheiro começou distribuída de forma igualitária para todos, se agrava ainda mais no caso real, onde esta distribuição não ocorreu.


Há ainda uma pequena, porém não menos importante, observação a ser feita sobre esta ideia. Voltando novamente à premissa de que toda a quantidade finita de dinheiro foi distribuída por todos os seres humanos, sabemos que há uma quantidade X de dinheiro com cada pessoa. Sendo assim, a partir do que acabamos de discutir, para que um indivíduo tenha um aumento em sua quantia total de dinheiro de X para X+ΔX, outro indivíduo deverá ter uma diminuição em sua quantia total de dinheiro de X para X-ΔX. Entretanto, podemos observar que se um indivíduo aumenta de forma exorbitante sua quantidade total de dinheiro, de modo que a quantia “ΔX” ultrapasse o valor de X, esta quantidade estará sendo retirada de mais de um indivíduo.

Isto significa que a quantidade de ricos e pobres não é proporcional “um para um”, porque o decréscimo de dinheiro tem um limite (o zero) muito mais fácil de ser alcançado do que o limite do acréscimo de dinheiro (o todo). Em outras palavras, a existência de um milionário não gera apenas um miserável, mas sim uma enorme quantidade deles, tantos quanto forem necessários para que, somados, resultem no decréscimo proporcional ao acréscimo de sua fortuna.

Com isto concluímos que, através do modo com o qual o capitalismo funciona, é impossível tê-lo em vigor sem a desigualdade social. É impossível haver a riqueza, sem a pobreza, o milionário sem o miserável, a fartura sem a fome e, portanto, é impossível uma sociedade justa onde todos os seres humanos tenham os mesmos direitos e as mesmas possibilidades de sucesso com o capitalismo sendo um dos grandes sistemas em vigor. Aprofundemo-nos ainda mais no funcionamento deste sistema.

O capitalismo funciona de forma bastante similar a um grande jogo de xadrez. Esta comparação se faz especialmente interessante ao observarmos a hierarquia dentro deste jogo, pois ela é muito bem definida separando a parte mais nobre (rei, rainha e seus guerreiros), na primeira fileira, da parte mais inferior (os peões), dispostos na segunda fileira, à frente. Não é preciso ser um exímio jogador deste clássico jogo de tabuleiro para saber que não seria sequer possível iniciar o jogo sem a fileira dos peões. Apesar de extremamente inferiores e limitados, são eles que estão à frente da batalha, e somente com seus movimentos feitos de forma adequada é que se torna possível uma estratégia de qualidade que leve o jogador à vitória.

De forma bastante semelhante, para que a riqueza das cerca de setenta milhões de pessoas mais ricas do planeta (aproximadamente 1% da população mundial) continue crescendo, e ultrapasse a riqueza dos outros 99% (o que acontecerá no ano de 2016, segundo estudos), é necessário que a classe mais inferior faça os movimentos corretos. Para isto, nada mais simples do que padronizar, incentivar e nos fazer acreditar que consumir é tudo o que precisamos fazer em nossas vidas para sermos felizes: sejam bem vindos ao CONSUMISMO.

De todos os deuses já criados na história da humanidade, o mais venerado de todos é, com certeza, o consumismo. O consumismo é a ferramenta através da qual as peças mais importantes do jogo – o rei e a rainha do xadrez, ou o 1% mais rico – se mantêm sempre na vitória, fazendo com que a riqueza das peças menos importantes - os peões, ou os 99% mais pobres - permaneça sempre baixa e, como consequência do que discutimos nos parágrafos anteriores; mantendo sua riqueza sempre alta.

Ao consumirmos exageradamente, nós estamos injetando grande parte de nossa miserável parcela da riqueza global de volta às garras das grandes corporações, cumprindo assim com a continuidade dessa escandalosa desigualdade financeira. O estilo de vida consumista, sobretudo no mundo ocidental é, atualmente, algo cultural. Vivemos toda a nossa vida trabalhando em profissões que não gostamos para comprar, de forma exagerada, porcarias das quais não precisamos, e agora sabemos o porquê.

Desde datas e feriados com o objetivo puramente comercial, como o dia de natal, quando comemoramos a suposta data de aniversário de um suposto líder religioso comprando os presentes mais caros possíveis para todos os nossos entes queridos; até as já citadas publicidades, que trabalham cada dia mais arduamente para que acreditemos que somos tudo e apenas aquilo que compramos: tudo nos leva a consumir. Não há como negar que, dentro deste cenário, existem pessoas muito mais consumistas que outras, e isto é intimamente relacionado à futilidade de caráter destes indivíduos. Todavia, esta “doença” vai muito além da futilidade, e para que enxerguemos isto, cabe aqui um exemplo bastante ilustrativo.

Apesar de pouco sabido, a quantidade de creme dental correta que deve ser utilizada na escovação de nossos dentes é de aproximadamente 1,5ml. Inclusive, para facilitar a visualização desta quantidade, a maioria das escovas de dente possui uma região de cerdas com coloração distinta das demais, que delimita a máxima superfície onde deve ser depositado o creme dental!


Muito provavelmente, você agora, ao olhar a imagem acima está surpreso ao saber que a quantidade correta é muito menor do que a que normalmente utilizamos. Estudos mostram - e a veracidade destas afirmações ficará à cargo de pesquisas por meio do caro leitor - que além de desperdício, o uso exagerado de creme dental causa o desgaste excessivo do esmalte dentário, e pode resultar em um distúrbio conhecido como fluorose, uma vez que há flúor na composição de todo e qualquer creme dental.

Pensando um pouco mais a fundo sobre o exemplo dado torna-se, então, uma intrigante questão saber de onde surgiu, tão massivamente, essa disparidade entre o correto e o feito comumente. E basta lembrarmo-nos de qualquer publicidade de creme dental, de qualquer marca que seja, para que tenhamos a resposta desta questão, para localizarmos a origem deste tão errôneo e prejudicial hábito.


Este foi apenas um exemplo, de um produto dentre as centenas de produtos que utilizamos diariamente, contidos no grupo dos milhares de produtos que compramos e consumimos em toda a nossa existência, sem ao menos imaginar que vivemos consumindo a nós mesmos. Com isto, podemos retornar ao início deste texto novamente e observar, agora que entendemos um pouco melhor sobre o funcionamento do capitalismo, que todos aqueles “sonhos em comum” que possuímos, padronizados por nosso estilo de vida, estão intimamente ligados ao consumismo, e este, por sua vez, à felicidade.

Afinal, para termos uma casa, devemos compra-la, para termos um carro, devemos compra-lo, para poder comprar a tudo o que sonhamos devemos passar a vida trabalhando para gerar lucro às grandes corporações, e para que continuemos consumindo, mesmo depois de mortos, devemos deixar herdeiros, ter filhos, e ensiná-los a buscar a felicidade, que acreditamos que consiste em fazer tudo isto o que passamos a vida toda fazendo: comprar, comprar e comprar. Seria este, realmente, o sentido de nossas vidas?

Finalmente, continuamos e finalizamos a discussão iniciada no texto anterior, sobre o sentido da vida, apresentando sua componente social. Entendemos um tanto quanto profunda e assustadoramente como o capitalismo funciona, podendo começar a desfazer, ainda que dentro de nossas cabeças, aquele posicionamento tradicional do jogo de xadrez, derrubando algumas peças, pondo em xeque toda aquela velha configuração; pois cada linha que escrevemos juntos nos revela mais claramente que os grandes sistemas que compõem o nosso mundo DEVEM ser derrubados, nos revelando ainda mais claramente O OUTRO LADO DA MOEDA.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Outro Lado dos Sistemas 2 - A construção humana do sentido da vida

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 1
Autor: Gustavo Spina

O ser humano é uma forma de vida completamente natural. Somos uma consequência evolutiva da natureza em si. Desde que tudo começou, nós surgimos naturalmente por meio de diversos eventos particulares que geraram o início da vida na Terra, e sua evolução da maneira que conhecemos, chegando às formas de vida de hoje. Portanto, tudo em nós é natural e, tendo isso em vista, podemos ter um bom exemplo de como agir com as nossas construções, para que evoluam ou funcionem da mesma forma. Agora que sabemos que os principais sistemas que compõem o mundo em que vivemos não são naturais, tampouco necessários, vamos continuar nossas discussões investigando no que eles se baseiam, o quão longe de serem naturais eles estão e, consequentemente, o quão distantes de um possível caminho correto nós estamos.

Se o leitor está seguindo os textos de forma cronologicamente correta, e fizer um pouco de esforço, pode lembrar-se de que nós somos nada mais que um conjunto de informações que abrangem nossas crenças, preferências, habilidades, vontades etc. Podemos lembrar também do quão moldáveis nós somos pelo meio o qual nascemos, sendo um produto das imensas cargas culturais, ideológicas e tradicionais de nossa família, da época e do local onde crescemos e formamos nossa personalidade. Ambas estas ideias já foram discutidas por nós, neste blog, e reforçadas no texto anterior a este, através da resposta que encontramos para uma famosa reflexão filosófica.

Juntando todo este conjunto de informações, podemos concluir que somos como uma massa de modelar, sendo completamente moldáveis aos sistemas que estão em vigor durante o nosso período de vida. Isso significa que, muito provavelmente, se tivéssemos nascido em alguma família nobre tradicional da França, por volta de 1700, nós concordaríamos com o sistema Monárquico vigente, e promoveríamos a escravização em massa de toda a população mais pobre do país, em prol de benefícios próprios, assim como os nobres e o Clero, pertencentes aos chamados Segundo e Primeiro Estados, respectivamente, de fato faziam com a maior e mais pobre parcela da população, pertencentes ao Terceiro Estado, naquela época.

Essa nossa característica de ser altamente moldável, pode ser entendida como uma de nossas mais expressivas características genéticas, vistas através da ótica social: nossa capacidade de adaptação ao meio. O fato de sermos seres extremamente adaptáveis ao meio em que vivemos é uma consequência evolutiva e um dos principais fatores que fez (e continua fazendo) com que nossa espécie tenha perpetuado, dentre tantas outras que foram naturalmente extintas dentro do nosso período de existência. Um parêntese interessante que podemos abrir neste ponto do texto é o de que nós não somos mais ou menos evoluídos do que nenhum outro ser vivo existente. Se todas as outras espécies que conhecemos hoje também perpetuaram, é por que, assim como nós, foram capazes de se adaptar ao meio durante todo este tempo e, portanto, estamos todos no mesmo estágio evolutivo. Voltemos ao assunto.

Apesar de ter nos permitido sobreviver e prosperar por milhões de anos, nossa característica de adaptação, quando analisada através da ótica social, em curtos períodos de tempo, não parece nos oferecer tantas vantagens. Em nosso curto período de vida, ela é a responsável por nos adaptar aos sistemas vigentes, seja em uma monarquia francesa em 1700, em uma ditadura socialista na antiga União Soviética no período da Guerra Fria, ou na atual república democrática do Brasil; e isto, obviamente (basta conhecer um pouco da nossa história), nem sempre é bom.

Por outro lado, se estivéssemos vivos na França, desta vez em uma família pobre pertencente ao Terceiro Estado, poucas décadas mais tarde do que a dada no exemplo anterior, por volta de 1780, muito provavelmente nós DISCORDARÍAMOS do sistema Monárquico vigente, e promoveríamos uma das maiores revoluções da história da humanidade – a Revolução Francesa – assim como toda a classe monetariamente inferior fez, de fato. Desta vez, estamos evidenciando que, felizmente, a ‘adaptação ao meio’ não é nossa única característica evolutiva expressiva socialmente, há também a nossa propensão natural às mudanças!

Nossa habilidade de mutação genética, responsável pela massiva diferenciação entre um ser e outro, mesmo fazendo parte de uma mesma espécie, já foi também apresentada e discutida neste blog. Aliás, a própria característica de adaptação pressupõe a mutação, ou mudança, pois é justamente através da mudança de nossas características físicas e mentais que nós nos adaptamos às inúmeras mudanças do ambiente Terrestre e perpetuamos nossa espécie até os dias de hoje. Esta característica, diferentemente da anterior, quando vista através da ótica social, e em curtos períodos de tempo, nos trás ótimos resultados.

É através dela que, em nosso curto período de vida, apesar de adaptados aos sistemas vigentes, nós tivemos o ímpeto de muda-los, confrontá-los e derrubá-los, seja em 1799 pela classe trabalhadora através da Revolução Francesa, seja em 1945 por aqueles que não acatavam as ordens de Hitler, por meio da Segunda Guerra Mundial, ou mesmo hoje em dia, por nós, através do pensar.

Com isto, tudo o que discutimos até agora serviu apenas para reforçar a ideia de que, assim como concluímos na série de textos anterior, a mudança é a chave para a nossa evolução, evidenciando que ela também é a chave para a construção de nossa sociedade e dos grandes sistemas que a compõe, mas que, infelizmente, estes sistemas não são feitos desta forma, mas sim para manter velhas culturas, costumes, tradições e crenças, pelo simples motivo de que são justamente estas ideias antigas e antiquadas que nos induzem a trabalhar na manutenção diária deste já ultrapassado modelo de sociedade.

Em outras palavras, as bases de nossa sociedade e, portanto, dos sistemas que a compõe devem ser a mudança, para que, assim como nossa genética trabalha, evolua sempre; e um mundo formado por sistemas muito bem definidos e estáticos como o nosso caminha justamente na contramão desta ideia. Nossa propensão natural a mudar é cada vez mais inibida socialmente, nos restando, em nossos curtos períodos de vida, apenas nossa habilidade de nos adaptar, aceitando cada vez mais nossa situação, cada vez mais distantes do ímpeto da mudança, cada vez mais distantes daquilo que fomos geneticamente programados a fazer.

Esta aceitação inconsequente de tudo à nossa volta, como se não houvesse possibilidade de mudança, faz parte daquele conjunto deturpado de valores do todo, que são passados a nós, por toda a nossa vida, devido ao fato de estarmos profundamente inseridos neste meio, confundindo-se com valores pessoais, como discutido no texto anterior. Isto se torna evidente na associação direta da ideia da mudança a algo ruim: seja na mudança de estilo de vida, opiniões, crenças ou até gostos pessoais, a sociedade nos imprime uma enorme resistência à mudança, esforçando-se cada vez mais para que não evoluamos, para que não quebremos toda esta casca de mentiras e ilusões que nos cobre a visão, para que não vejamos o outro lado dos sistemas.

E por falar em ilusões, vamos iniciar agora nossa discussão sobre o sentido da vida, que acabará no próximo texto. Como já citado em textos anteriores, o Universo e a vida não têm a obrigação de possuir um sentido, um propósito, tampouco de ser especial ou um milagre. Tendo isso em vista, podemos enxergar que o sentido da vida é uma construção humana, não tendo uma existência independente. Isso significa, em outras palavras, que sem a nossa existência, sem o nosso questionamento sobre isto, um sentido ou significado para a vida nem se quer existiria. Ele existe apenas porque sentimos a necessidade de preencher o vazio causado pela insignificância de nossa própria existência e, sendo assim, se configura como uma criação humana.

Antes de aprofundarmos em nossa discussão sobre o sentido da vida, vamos introduzir um conceito muito importante: a falácia do apelo à natureza. O chamado “apelo à natureza” é uma falácia lógica, que se faz presente quando afirmamos que algo é bom porque é natural, ou que algo é ruim ou mau, porque não é natural. Neste caso estamos utilizando a definição de natural como sendo tudo aquilo que existe ou acontece sem a interferência humana. Um exemplo comum do uso desta falácia é quando justificamos a prática da ingestão de carne com o argumento de que é isto o que ocorre na natureza, portanto não é errado e devemos fazê-lo. É importante deixar claro que uma falácia lógica significa um pensamento logicamente incorreto e, portanto, não deve ser utilizado e, principalmente, que eu não a utilizei em nossa discussão até agora.

O fato de eu ter evidenciado que os principais sistemas que compõem o mundo de hoje não são naturais, não se baseiam na mudança, e que a mudança é natural e deveria ser a base de nossa sociedade NÃO SIGNIFICA afirmar que a mudança é boa porque é natural. Se o leitor está atento ao texto, sabe que apresentei tanto a característica genética responsável pela mudança como também aquela responsável pela adaptação, igualmente natural, e a partir daí chegamos juntos à conclusão de que, sob a ótica social, uma delas se mostra mais vantajosa do que a outra. A ideia principal implícita em todo este texto é a de que: apesar de que nem tudo o que é natural é necessariamente “bom” ou “correto”, a forma como a natureza age é um ótimo exemplo, no que tange ao seu processo evolutivo, e pode servir de base para nossas construções sociais para que evoluam da mesma forma. Continuemos então.

Sendo o sentido da vida, então, uma construção humana, vamos investigar como é que o construímos, quais suas principais componentes e finalizar este texto estudando a primeira delas, deixando a segunda componente, e consequentemente, a conclusão desta discussão como tema do próximo texto desta série. É claro que, para cada indivíduo, a vida tem um sentido ou significado diferente. Mas é facilmente perceptível que, acima de toda essa individualidade, há um senso comum sobre o sentido da vida, que é justamente a parcela desta ideia influenciada pelos grandes sistemas vigentes no mundo em que vivemos. Esta parcela do sentido de nossas vidas que é passada a nós, pelo meio em que vivemos, tem duas principais componentes: a componente religiosa e a componente social.

A componente religiosa do sentido de nossas vidas é aquela que nos garante um propósito. Com toda a pequinês de pensamento e arrogância que nos cabe, apenas porque ainda não tivemos uma evidência conclusiva de vida extraterrestre, nos intitulamos os seres mais especiais do Universo, dignos de ser moldados, um a um, como a imagem e semelhança de um criador perfeito. Por nos imaginarmos tão especiais assim, não aceitamos que a vida seja “apenas” uma consequência evolutiva natural do Universo, e acabamos por acreditar que seja uma dádiva e possui um motivo, um propósito. Reconfortante, não? Discussões religiosas feitas, por nós, anteriormente, se mostram suficientes para que o leitor entenda a origem destes tipos de pensamentos, e também a sua muito provável invalidade.

No próximo texto, continuaremos nossa discussão sobre a construção humana do sentido da vida. Apresentaremos a segunda componente desta ideia a qual nos é desapercebidamente imposta, e que é extremamente relacionada ao nosso modo de vida, dado pelos sistemas que compõem nossa sociedade. Vamos continuar descobrindo mais e mais características e falhas do mundo à nossa volta, vasculhando cada vez mais à fundo a maior e mais estática parte do OUTRO LADO DA MOEDA.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A Saudação ao Retrocesso

Pré-requisito (obrigatório): Aprendendo a Aprender
Autor: Gustavo Spina

No texto Aprendendo a Aprender, nós analisamos o ser humano como aprendiz, entendendo a forma como nós aprendemos, evidenciando as principais falhas deste processo e propondo um novo método de aprendizado, de modo a corrigir estas falhas e melhorar nosso desempenho neste campo. Neste texto, vamos aprofundar ainda mais na modelagem de nosso aprendizado, tratando não só dos aspectos locais, mas também dos globais, exemplificando com algumas situações atuais as quais nos ajudarão a identificar, com precisão, os momentos em que nós praticamos a saudação ao retrocesso.

Como evidenciado no texto Aprendendo a Aprender, a maior falha característica de nosso intrínseco processo de aprendizagem é a obrigatoriedade do acontecimento errôneo, para que então possamos aprender com ele. Somando-se este fato ao curto período de nossas vidas, podemos aproximar (exatamente como fizemos no referido texto) nosso aprendizado a um processo cíclico. Com isto, é possível explicar, o porquê não há mudanças, para melhor, muito significativas em períodos inferiores a centenas de anos, por exemplo.

Por outro lado, este mesmo processo não é puramente cíclico, pois se o fosse nós não teríamos evoluído nada, e estaríamos ainda hoje, literalmente escondidos em nossas cavernas lutando pela nossa sobrevivência da forma mais instintiva possível. De fato, ainda que não da melhor maneira, e também devido aos milhões de anos de nossa existência nós, de fato, evoluímos e nos distanciamos de nossos antepassados de forma bastante significativa.

Isto é decorrente do fato de sermos seres biologicamente, ou naturalmente se preferir, sociais. Este fato nos levou, juntamente com o processo igualmente natural da formação de nossos cérebros e nossa inteligência, à construção de nossas interações interpessoais e nossas sociedades, que por sua vez nos levaram à construção conjunta de nosso conhecimento. Com o advento da escrita, há mais de 6000 anos atrás, pudemos registrar e acumular todo o nosso conhecimento, dando início a um processo contínuo de evolução. Sob esta ótica, nosso processo evolutivo é absolutamente contínuo, pois possibilita às gerações posteriores continuarem a explorar e adquirir conhecimento a partir do que ponto em que as anteriores pararam.

Desta forma, aprofundamo-nos mais na modelagem de nosso processo de aprendizado, podendo chegar à conclusão de que este não é apenas cíclico, tampouco apenas contínuo, mas sim uma composição de ambas as partes. Para simplificar podemos representar esta modelagem pictoricamente, com elementos geométricos. Geometricamente, a forma de nosso processo de aprendizado é o resultado de duas componentes: uma reta, que representa a componente contínua, e um círculo, que representa a componente cíclica de nosso aprendizado, o que resulta no formato HELICOIDAL, conforme ilustram as imagens a seguir.




Com isto, podemos apontar mais precisamente a origem do problema, descobrindo os momentos exatos em que nosso aprendizado atinge a parte em vermelho de sua trajetória helicoidal, e começa a regredir, caminhando para o lado contrário ao da evolução. Encontrando os motivos que nos levam a este retrocesso, nós podemos aplicar a solução, ou melhor, o método de aprendizado apresentado no texto Aprendendo a Aprender, diretamente nestas causas, sanando o problema globalmente; e é exatamente isto o que faremos nos próximos parágrafos deste texto.

Tendo em vista que esta modelagem mais precisa de nosso aprendizado é global, ou seja, não é o processo de aprendizagem de cada indivíduo separadamente, e sim de grandes grupos populacionais, ou até de toda a população humana, fica fácil descobrirmos as causas de sua componente retrógrada. Globalmente, apesar da obrigatoriedade do erro ainda existir para que possamos aprender com ele, este erro não é repetido pelos outros indivíduos, pelo simples motivo de já estarmos considerando todos, ou grande parte dos indivíduos, de uma só vez. Com isto, fica evidente então que, a única causa possível do retrocesso característico indicado em vermelho na representação pictórica de nosso processo global de aprendizado é cometermos, novamente, OS MESMOS ERROS DO PASSADO.

Em outras palavras, o que individualmente se traduz em não aprendermos com as situações e com os erros dos outros, aprendendo apenas quando nós mesmos passamos pelas mesmas situações e cometemos os mesmos erros; globalmente isto equivale a não aprendermos com os erros de nossos antepassados, cometidos em um passado distante ou muitas vezes nem tão longínquo, e acabamos por repetir mais vezes os mesmos erros, como se estivéssemos olhando para a nossa tortuosa história e quiséssemos repeti-la, como se estivéssemos fazendo uma saudação ao retrocesso.

Exemplos deste fenômeno, infelizmente, existem em abundância. Nós saudamos o retrocesso por todo o mundo quando realizamos guerras, entre dois ou mais países, mesmo sabendo que elas representam as maiores manchas de ignorância de nosso vergonhoso passado; ou mesmo quando praticamos o preconceito contra homossexuais, que já foram tanto completamente aceitos, como também veementemente perseguidos, em sociedades passadas. Nós saudamos o retrocesso no Oriente Médio, onde travamos batalhas diárias em busca de objetivos confusos ou por questões político-religiosas pífias e falhas, mesmo sabendo que, há milênios, isto nunca resolveu nenhum de nossos problemas. Nós saudamos o retrocesso no Brasil quando praticamos o racismo, especialmente contra negros, mesmo sabendo que a abolição da escravatura, e consequentemente a ideia repugnante de que os brancos eram superiores aos negros, foi deferida há mais de 120 anos; ou quando pedimos pela volta do militarismo ao poder, mesmo sabendo que isso significa pedir pelo dever de ficar calado, e não ter o direito de pedir mais nada.

Recapitulando o método de aprendizado proposto no texto Aprendendo a Aprender, ele consistia em adicionar um simulador, o qual tinha como entrada os resultados dos erros de outras pessoas, e fazia então a analise daqueles resultados, de forma ponderada, considerando as individualidades de cada pessoa e situação, para que pudéssemos aprender com as inúmeras situações e consequências das pessoas à nossa volta, sem ter que repetir os mesmos erros para ter o privilégio de aprender com eles.

Trazendo esta solução para o caso global tratado neste texto, podemos inferir que para sanar o problema de nosso aprendizado em conjunto devemos aplicar novamente este simulador, mas colocar como entrada os resultados dos erros de nossos ancestrais, para fazer então a análise, de forma igualmente ponderada e inteligente, das situações que a humanidade já vivenciou e de todas as consequências que cada uma delas deixou em nossa história, para que possamos, em conjunto, aprender com as inúmeras situações já vividas por nossa raça anteriormente, sem ter que repeti-las.

Desta forma, usaríamos nossos conhecimentos registrados ao longo de mais de 6000 anos, desde o advento da escrita, a nosso favor, utilizando nações que se transformaram em ruínas, formas de sociedades que colapsaram e toda e qualquer atitude global feita anteriormente como um mal exemplo, para que não seja mais repetido, ou como um bom exemplo, para que continue sendo aplicado e melhorado. Isto realmente parece o mais sensato, e até pode beirar o óbvio em relação ao que deve ser feito, mas infelizmente, não é o que vemos em prática. Um bom livro de história, usado da forma correta, já seria o suficiente para eliminar uma boa parcela de imbecilidade a qual assistimos, diariamente, pelas janelas de nossas redes sociais.

Em nossa modelagem, isto equivale a ter toda a componente retrógrada, representada em vermelho, do movimento helicoidal de nosso aprendizado eliminada, diminuindo o tempo e melhorando abruptamente a qualidade de nosso aprendizado em conjunto.


Por fim, neste texto nós continuamos a interessante discussão sobre o nosso aprendizado, mas desta vez em conjunto, modelando-o geometricamente com a forma helicoidal em um plano 2-d. Evidenciamos suas principais falhas, e por fim propusemos novamente uma solução que, assim como no texto Aprendendo a Aprender, consiste na aplicação de um simulador a fim de que possamos aprender com nossa história, sem a necessidade de repetir os mesmos erros do passado. Assim, deixo novamente meu singelo pedido ao leitor para que tente pôr em prática este simulador, mas agora em conjunto, refletindo, analisando e estudando qual o seu papel nas atuais atitudes humanas globais, se elas já foram tomadas por nossos antepassados, e quais foram os resultados. Fazer esta análise pode não ser a atitude mais fácil, mas com certeza te guiará pelo caminho mais correto, onde não saudamos ao retrocesso, e sim aprendemos constante e continuamente, cada vez mais e melhor; o caminho onde olhamos pra frente e enxergamos OUTRO LADO DA MOEDA.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O Outro Lado Dos Sistemas 1 - A cega inserção

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado da Moeda 9
Autor: Gustavo Spina

Um SISTEMA, de acordo com o dicionário da língua portuguesa, é definido como “reunião dos elementos que, concretos ou abstratos, se interligam de modo a formar um todo organizado” ou ainda “modo de organização ou de estruturação administrativa, política, social e econômica de um Estado”. Como vimos na série de textos lógica e cronologicamente antecessora a esta, intitulada com o mesmo nome deste blog: “O Outro Lado da Moeda” e composta por nove textos; o mundo em que vivemos é composto de diversos sistemas, muito bem instalados e definidos. Devido ao fato de estarem em vigor há muito tempo, nos passam a impressão de naturalidade e necessidade de existência, fenômenos que nos mostram o quanto profunda e cegamente somos inseridos, desde que nascemos, nos principais sistemas que compõem o mundo.

Quanto à afirmação sobre o mundo ser feito de sistemas, não podemos deixar qualquer rastro de dúvidas, antes de iniciarmos nossas discussões, que se prolongarão por este e pelos próximos textos desta série. Baseando-se na PRIMEIRA definição de um sistema, retirada de um dicionário e mostrada no parágrafo anterior, podemos iniciar este texto fazendo algumas inferências interessantes. O ser humano é um ser biologicamente social, o que em outras palavras significa que é natural que nós vivamos em sociedade, característica biológica esta que herdamos de nossos ancestrais primatas. A partir daí, a construção de alguma forma de sociedade, assim como de fato aconteceu em nossa história evolutiva, seria uma necessidade, pois com a infinita variedade de relações sociais que surgiriam, não haveria outro modo senão convencionar padrões, avaliações, classificações e punições para cada uma delas.

Deste modo, a própria construção da sociedade pode ser considerada como a construção de um sistema, pois nada mais é do que uma “...reunião de elementos que se interligaram de modo a formar um todo organizado...”. Entretanto, quanto mais o ser humano evoluía, e mais numeroso ficava, mais amplas e complexas tornavam-se nossas relações sociais e, por conseguinte, nossa sociedade; havendo assim a necessidade de uma compartimentalização deste grande sistema em um punhado de sistemas menores.

Estes sistemas menores seriam responsáveis por cuidar cada qual de uma grande vertente social diferente, nos proporcionando uma maior facilidade de realização, desta forma, do processo de organização e estruturação da sociedade como um todo. Novamente, por ser este um processo natural, e por enxergarmos esta real necessidade de simplificação na construção de nossas sociedades no passado, estes sistemas foram, de fato, criados por nós, em nossa história, o que nos levou da primeira à SEGUNDA definição de sistema, mostrada no parágrafo inicial, pois agora tínhamos um “...modo de organização ou de estruturação administrativa, política, social e econômica...”.

Ou seja, ao longo de nossa história, nós agrupamos todas as nossas relações sociais na construção de uma sociedade e, com o aumento populacional e da complexidade destas relações, nós a dividimos em diversos sistemas. Na prática, podemos ver, através dos livros de história, que estes sistemas menores foram se modificando e, após diversas mudanças, chegaram ao formato o qual conhecemos hoje, sendo os sistemas político, monetário e capitalista os três principais que compõem o mundo de hoje, e os quais vamos analisar em toda esta série de textos.

É evidente também que, há milhões de anos, com a imensidão territorial do planeta Terra, o surgimento das primeiras sociedades se deram isoladamente, por toda parte, até que finalmente conectamos umas às outras, mas não perdendo suas individualidades, caracterizada pela divisão territorial de países, a qual vivenciamos hoje. Isto, de forma bastante óbvia, explica também a pluralidade de culturas, crenças, línguas, entre outras características existentes em todo o globo. Vale ressaltar também que os principais grandes sistemas que compõem o mundo de hoje, já citados há pouco, são também compartimentalizados em diversos subsistemas, devido à complexidade inimaginável da sociedade atual e, por conseguinte, de cada um deles.

Neste ponto do texto, para o leitor que estiver bastante inteirado, pode ter surgido uma pergunta muito pertinente, que tornará nossa discussão ainda mais interessante: então nossa atual sociedade, composta pelos atuais sistemas, é uma consequência natural a qual chegaríamos, de qualquer forma? Bem, a resposta para esta questão é tão absoluta e importante, que tomei a liberdade de separar o próximo parágrafo inteiro apenas para ela.

NÃO.

Não podemos negar que existem, de fato, diversos sistemas naturais. Isto é um tanto quanto óbvio: o próprio universo, com toda sua imponência, nos dá diversos exemplos, como os incontáveis sistemas solares existentes. E nem é preciso ir tão “longe” assim, afinal, nossos corpos possuem diversos sistemas naturais, como o digestivo, respiratório, nervoso, entre outros. Adicionando agora a interferência humana, devemos ter um pouco mais de cuidado, para podermos entender o porquê minha resposta foi negativa.

O fato de criarmos uma sociedade, a partir da necessidade de organização de nossas relações interpessoais, veio de características biológicas naturais de nós seres humanos, assim como sua divisão em sistemas menores, a partir do inevitável aumento populacional e complexidade de nossas relações, consequências evolutivas naturais, como já citado anteriormente. Portanto a criação de uma sociedade e sua divisão em sistemas menores é sim uma consequência natural, a qual chegaríamos de qualquer maneira, MAS ISSO NÃO SIGNIFICA (e esta é talvez a parte mais importante deste texto) QUE OS SISTEMAS CRIADOS DEVAM SER EXATAMENTE ESTES QUE ESTÃO HOJE EM VIGOR.

Esta questão, que supus que algum leitor muito atento teria em sua cabeça, na verdade está respondida, intrinsecamente, na cabeça da maioria de nós; mas não da forma negativa e correta, como acabamos de concluir juntos, e sim de forma positiva e incorreta. Ao olharmos à nossa volta enxergamos uma sociedade tão bem definida e consolidada, em um funcionamento tão ininterrupto e imutável, que sequer conseguimos associa-la a algo criado por nós mesmos, associando suas grandes e principais vertentes a algo tão natural quanto a existência de uma árvore, ou do ar que respiramos. Esta errônea associação, que temos escondida em nossas cabeças, é exatamente a impressão de naturalidade que estes sistemas nos passam, por serem muito anteriores à nossa existência.

A segunda característica a ser discutida neste texto é a da necessidade de existência. Além da falsa impressão de naturalidade que o mundo de hoje nos passa, nós também temos, intrinsecamente em nossas cabeças, a sensação de que não há outra forma, não há outro modo como o qual o mundo funcione, senão justamente este que estamos vivendo. Não conseguimos pensar na possibilidade de uma sociedade regida por outras leis, valores ou convenções sociais diferentes; não conseguimos sequer imaginar como seriam nossas vidas sem a existência do dinheiro, por exemplo. Não acreditamos, também, que possa haver uma mudança global tão significativa, que mude a tudo e, quando somos apresentados a qualquer nova proposta que difira dos padrões dos atuais sistemas, ignoramos, ou tratamos como algo completamente utópico, nos esquecendo de que, além de ser uma construção humana, a sociedade nem sempre foi assim, e foi justamente através de grandes mudanças globais, que chegamos nestes padrões que vivenciamos hoje.

Isto tudo se deve ao fato de que estamos muito profundamente inseridos nos atuais sistemas, no sentido de que eles tangem praticamente tudo o que nós vivemos, quase todos os minutos de nossas vidas. Nós perdemos nossa capacidade de imaginar um mundo sem dinheiro justamente porque, inseridos no sistema monetário, não podemos fazer quase NADA sem dinheiro. Nós perdemos o senso de compartilhamento de bens, ou a capacidade de realizar doações sem esperar nada em troca justamente porque, inseridos no sistema capitalista, não podemos nos dar bem sem o acúmulo individualista de bens e de capital. Nós perdemos nosso senso de plena igualdade, e não nos reconhecemos como uma parte importante de um conjunto justamente porque, inseridos no atual sistema político, nós somos divididos, hierarquizados, e vivemos acatando ordens de outros seres humanos que se autodenominam superiores uns aos outros.

E a inserção dos indivíduos nestes sistemas são tão profundas, que os valores morais do todo, são constantemente confundidos com os valores morais dos indivíduos. Não raramente, ouvimos pessoas dizerem que somos naturalmente individualistas, gananciosos e que buscamos, desenfreadamente, o poder, de forma natural; sem perceber que estes e muitos outros valores só estão em nós devido ao fato de sermos bombardeados com as regras, restrições e obrigatoriedades destes sistemas, que não nos dão outra escolha a não ser nos adaptarmos à eles, desde que nascemos.

Fazendo um adendo ao que foi dito no último parágrafo, podemos entrar no outro lado de uma interessante e clássica discussão filosófica, que questiona se é o indivíduo que faz o meio, ou o meio que faz o indivíduo. Levando para o lado social, o qual estamos tratando neste texto, podemos adequar a questão – é o indivíduo que faz a sociedade, ou a sociedade que faz o indivíduo? – e respondê-la de uma forma bastante peculiar: OS DOIS!

Como foi discutido no decorrer deste texto, a criação de uma sociedade, no sentido de basicamente organizar e convencionar nossas relações sociais, é algo natural, mas não deixa de ser uma criação humana. Desta forma, primeiramente nós criamos uma forma de sociedade, ou seja, o indivíduo fez a sociedade. Em contrapartida, com a atual configuração que a sociedade de hoje se encontra, com seus sistemas tão bem definidos e instalados, como também já foi discutido no decorrer deste texto; os indivíduos que nela nascem são completamente moldados pelo meio em que vivem, devido às cargas cultural e social milenares despejadas em suas cabeças, ou seja, a sociedade faz o indivíduo. Portanto, a resposta para este clássico dilema filosófico é positiva para ambos os casos, evidenciando que a diferença se encontra na cronologia de ambas as situações, quando primeiro o indivíduo cria o meio, e então este meio passa a criar os outros indivíduos.

Com isto, nossa discussão introdutória chega ao fim, nos deixando alguns conceitos e ideias importantes para as discussões posteriores. Agora que percebemos o quão cegamente estamos inseridos nos principais e grandes sistemas que regem o mundo em que vivemos hoje, descobrindo a falsidade da impressão de naturalidade e da necessidade de existência que temos intrinsecamente em nossas cabeças, evidenciando que eles são apenas uma criação humana e que NÃO são uma consequência natural a qual chegaríamos de qualquer forma, podemos analisa-los de forma correta. Nos próximos textos, vamos analisar suas características de forma a separar, cada vez mais, o indivíduo deste meio, desta sociedade, enxergando que, de fato, esta configuração social está longe de ser correta, de ser a melhor, ou de ser este o único modo de vivermos em sociedade; para enxergarmos o outro lado dos sistemas, ou melhor, OUTRO LADO DA MOEDA.