quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O Outro Lado dos Sistemas 2 - A construção humana do sentido da vida

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 1
Autor: Gustavo Spina

O ser humano é uma forma de vida completamente natural. Somos uma consequência evolutiva da natureza em si. Desde que tudo começou, nós surgimos naturalmente por meio de diversos eventos particulares que geraram o início da vida na Terra, e sua evolução da maneira que conhecemos, chegando às formas de vida de hoje. Portanto, tudo em nós é natural e, tendo isso em vista, podemos ter um bom exemplo de como agir com as nossas construções, para que evoluam ou funcionem da mesma forma. Agora que sabemos que os principais sistemas que compõem o mundo em que vivemos não são naturais, tampouco necessários, vamos continuar nossas discussões investigando no que eles se baseiam, o quão longe de serem naturais eles estão e, consequentemente, o quão distantes de um possível caminho correto nós estamos.

Se o leitor está seguindo os textos de forma cronologicamente correta, e fizer um pouco de esforço, pode lembrar-se de que nós somos nada mais que um conjunto de informações que abrangem nossas crenças, preferências, habilidades, vontades etc. Podemos lembrar também do quão moldáveis nós somos pelo meio o qual nascemos, sendo um produto das imensas cargas culturais, ideológicas e tradicionais de nossa família, da época e do local onde crescemos e formamos nossa personalidade. Ambas estas ideias já foram discutidas por nós, neste blog, e reforçadas no texto anterior a este, através da resposta que encontramos para uma famosa reflexão filosófica.

Juntando todo este conjunto de informações, podemos concluir que somos como uma massa de modelar, sendo completamente moldáveis aos sistemas que estão em vigor durante o nosso período de vida. Isso significa que, muito provavelmente, se tivéssemos nascido em alguma família nobre tradicional da França, por volta de 1700, nós concordaríamos com o sistema Monárquico vigente, e promoveríamos a escravização em massa de toda a população mais pobre do país, em prol de benefícios próprios, assim como os nobres e o Clero, pertencentes aos chamados Segundo e Primeiro Estados, respectivamente, de fato faziam com a maior e mais pobre parcela da população, pertencentes ao Terceiro Estado, naquela época.

Essa nossa característica de ser altamente moldável, pode ser entendida como uma de nossas mais expressivas características genéticas, vistas através da ótica social: nossa capacidade de adaptação ao meio. O fato de sermos seres extremamente adaptáveis ao meio em que vivemos é uma consequência evolutiva e um dos principais fatores que fez (e continua fazendo) com que nossa espécie tenha perpetuado, dentre tantas outras que foram naturalmente extintas dentro do nosso período de existência. Um parêntese interessante que podemos abrir neste ponto do texto é o de que nós não somos mais ou menos evoluídos do que nenhum outro ser vivo existente. Se todas as outras espécies que conhecemos hoje também perpetuaram, é por que, assim como nós, foram capazes de se adaptar ao meio durante todo este tempo e, portanto, estamos todos no mesmo estágio evolutivo. Voltemos ao assunto.

Apesar de ter nos permitido sobreviver e prosperar por milhões de anos, nossa característica de adaptação, quando analisada através da ótica social, em curtos períodos de tempo, não parece nos oferecer tantas vantagens. Em nosso curto período de vida, ela é a responsável por nos adaptar aos sistemas vigentes, seja em uma monarquia francesa em 1700, em uma ditadura socialista na antiga União Soviética no período da Guerra Fria, ou na atual república democrática do Brasil; e isto, obviamente (basta conhecer um pouco da nossa história), nem sempre é bom.

Por outro lado, se estivéssemos vivos na França, desta vez em uma família pobre pertencente ao Terceiro Estado, poucas décadas mais tarde do que a dada no exemplo anterior, por volta de 1780, muito provavelmente nós DISCORDARÍAMOS do sistema Monárquico vigente, e promoveríamos uma das maiores revoluções da história da humanidade – a Revolução Francesa – assim como toda a classe monetariamente inferior fez, de fato. Desta vez, estamos evidenciando que, felizmente, a ‘adaptação ao meio’ não é nossa única característica evolutiva expressiva socialmente, há também a nossa propensão natural às mudanças!

Nossa habilidade de mutação genética, responsável pela massiva diferenciação entre um ser e outro, mesmo fazendo parte de uma mesma espécie, já foi também apresentada e discutida neste blog. Aliás, a própria característica de adaptação pressupõe a mutação, ou mudança, pois é justamente através da mudança de nossas características físicas e mentais que nós nos adaptamos às inúmeras mudanças do ambiente Terrestre e perpetuamos nossa espécie até os dias de hoje. Esta característica, diferentemente da anterior, quando vista através da ótica social, e em curtos períodos de tempo, nos trás ótimos resultados.

É através dela que, em nosso curto período de vida, apesar de adaptados aos sistemas vigentes, nós tivemos o ímpeto de muda-los, confrontá-los e derrubá-los, seja em 1799 pela classe trabalhadora através da Revolução Francesa, seja em 1945 por aqueles que não acatavam as ordens de Hitler, por meio da Segunda Guerra Mundial, ou mesmo hoje em dia, por nós, através do pensar.

Com isto, tudo o que discutimos até agora serviu apenas para reforçar a ideia de que, assim como concluímos na série de textos anterior, a mudança é a chave para a nossa evolução, evidenciando que ela também é a chave para a construção de nossa sociedade e dos grandes sistemas que a compõe, mas que, infelizmente, estes sistemas não são feitos desta forma, mas sim para manter velhas culturas, costumes, tradições e crenças, pelo simples motivo de que são justamente estas ideias antigas e antiquadas que nos induzem a trabalhar na manutenção diária deste já ultrapassado modelo de sociedade.

Em outras palavras, as bases de nossa sociedade e, portanto, dos sistemas que a compõe devem ser a mudança, para que, assim como nossa genética trabalha, evolua sempre; e um mundo formado por sistemas muito bem definidos e estáticos como o nosso caminha justamente na contramão desta ideia. Nossa propensão natural a mudar é cada vez mais inibida socialmente, nos restando, em nossos curtos períodos de vida, apenas nossa habilidade de nos adaptar, aceitando cada vez mais nossa situação, cada vez mais distantes do ímpeto da mudança, cada vez mais distantes daquilo que fomos geneticamente programados a fazer.

Esta aceitação inconsequente de tudo à nossa volta, como se não houvesse possibilidade de mudança, faz parte daquele conjunto deturpado de valores do todo, que são passados a nós, por toda a nossa vida, devido ao fato de estarmos profundamente inseridos neste meio, confundindo-se com valores pessoais, como discutido no texto anterior. Isto se torna evidente na associação direta da ideia da mudança a algo ruim: seja na mudança de estilo de vida, opiniões, crenças ou até gostos pessoais, a sociedade nos imprime uma enorme resistência à mudança, esforçando-se cada vez mais para que não evoluamos, para que não quebremos toda esta casca de mentiras e ilusões que nos cobre a visão, para que não vejamos o outro lado dos sistemas.

E por falar em ilusões, vamos iniciar agora nossa discussão sobre o sentido da vida, que acabará no próximo texto. Como já citado em textos anteriores, o Universo e a vida não têm a obrigação de possuir um sentido, um propósito, tampouco de ser especial ou um milagre. Tendo isso em vista, podemos enxergar que o sentido da vida é uma construção humana, não tendo uma existência independente. Isso significa, em outras palavras, que sem a nossa existência, sem o nosso questionamento sobre isto, um sentido ou significado para a vida nem se quer existiria. Ele existe apenas porque sentimos a necessidade de preencher o vazio causado pela insignificância de nossa própria existência e, sendo assim, se configura como uma criação humana.

Antes de aprofundarmos em nossa discussão sobre o sentido da vida, vamos introduzir um conceito muito importante: a falácia do apelo à natureza. O chamado “apelo à natureza” é uma falácia lógica, que se faz presente quando afirmamos que algo é bom porque é natural, ou que algo é ruim ou mau, porque não é natural. Neste caso estamos utilizando a definição de natural como sendo tudo aquilo que existe ou acontece sem a interferência humana. Um exemplo comum do uso desta falácia é quando justificamos a prática da ingestão de carne com o argumento de que é isto o que ocorre na natureza, portanto não é errado e devemos fazê-lo. É importante deixar claro que uma falácia lógica significa um pensamento logicamente incorreto e, portanto, não deve ser utilizado e, principalmente, que eu não a utilizei em nossa discussão até agora.

O fato de eu ter evidenciado que os principais sistemas que compõem o mundo de hoje não são naturais, não se baseiam na mudança, e que a mudança é natural e deveria ser a base de nossa sociedade NÃO SIGNIFICA afirmar que a mudança é boa porque é natural. Se o leitor está atento ao texto, sabe que apresentei tanto a característica genética responsável pela mudança como também aquela responsável pela adaptação, igualmente natural, e a partir daí chegamos juntos à conclusão de que, sob a ótica social, uma delas se mostra mais vantajosa do que a outra. A ideia principal implícita em todo este texto é a de que: apesar de que nem tudo o que é natural é necessariamente “bom” ou “correto”, a forma como a natureza age é um ótimo exemplo, no que tange ao seu processo evolutivo, e pode servir de base para nossas construções sociais para que evoluam da mesma forma. Continuemos então.

Sendo o sentido da vida, então, uma construção humana, vamos investigar como é que o construímos, quais suas principais componentes e finalizar este texto estudando a primeira delas, deixando a segunda componente, e consequentemente, a conclusão desta discussão como tema do próximo texto desta série. É claro que, para cada indivíduo, a vida tem um sentido ou significado diferente. Mas é facilmente perceptível que, acima de toda essa individualidade, há um senso comum sobre o sentido da vida, que é justamente a parcela desta ideia influenciada pelos grandes sistemas vigentes no mundo em que vivemos. Esta parcela do sentido de nossas vidas que é passada a nós, pelo meio em que vivemos, tem duas principais componentes: a componente religiosa e a componente social.

A componente religiosa do sentido de nossas vidas é aquela que nos garante um propósito. Com toda a pequinês de pensamento e arrogância que nos cabe, apenas porque ainda não tivemos uma evidência conclusiva de vida extraterrestre, nos intitulamos os seres mais especiais do Universo, dignos de ser moldados, um a um, como a imagem e semelhança de um criador perfeito. Por nos imaginarmos tão especiais assim, não aceitamos que a vida seja “apenas” uma consequência evolutiva natural do Universo, e acabamos por acreditar que seja uma dádiva e possui um motivo, um propósito. Reconfortante, não? Discussões religiosas feitas, por nós, anteriormente, se mostram suficientes para que o leitor entenda a origem destes tipos de pensamentos, e também a sua muito provável invalidade.

No próximo texto, continuaremos nossa discussão sobre a construção humana do sentido da vida. Apresentaremos a segunda componente desta ideia a qual nos é desapercebidamente imposta, e que é extremamente relacionada ao nosso modo de vida, dado pelos sistemas que compõem nossa sociedade. Vamos continuar descobrindo mais e mais características e falhas do mundo à nossa volta, vasculhando cada vez mais à fundo a maior e mais estática parte do OUTRO LADO DA MOEDA.

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