quarta-feira, 18 de maio de 2016

O Outro Lado dos Sistemas 5 - Louvando a própria miséria

Pré-requisito (obrigatório): O Outro Lado dos Sistemas 4
Autor: Gustavo Spina

Quase todos os seres humanos do planeta têm o direito de ir e vir, livremente, garantido pelas constituições de quase todas as nações do globo, mas, é possível gozar desta liberdade sem dinheiro? É com este questionamento que inicio este texto, abrindo mais um leque de diversas características de nossa atual sociedade, para que possamos continuar e finalizar a discussão iniciada no texto anterior sobre o modo como os grandes sistemas que regem o mundo, sobretudo os sistemas monetário e capitalista, se mantêm.

Uma sensata resposta ao questionamento proposto pode consistir no argumento de que nós possuímos este direito, mas nem sempre as condições para desfrutá-lo. De fato, nós possuímos nossos direitos garantidos por lei, e o dinheiro configura-se como “uma condição” para que possamos manifestar a maioria deles; e é exatamente aqui que a discussão acalora-se. Sendo assim, esta não passa de uma das inúmeras ilusões que estes sistemas nos proporcionam, afinal, de que vale possuir um “direito garantido” sem uma igual garantia das condições necessárias para manifestá-lo? Pura ilusão.

Ainda pior, o dinheiro, muito além desta aparente “ferramenta auxiliadora” que nos dá condições para que possamos usufruir de nossos direitos; comporta-se como o único, universal e indispensável modo de fazermos QUALQUER COISA. Não se trata apenas de ir e vir livremente, como no exemplo dado. Permita-me que eu refaça a pergunta para que esta ideia fique mais clara: é possível fazer algo sem dinheiro?

Infelizmente a resposta é não. Sem dinheiro não podemos fazer nada, e isto inclui viver. A respeito deste fato, não sei o que mais me assusta: o mundo funcionar desta forma, ou as pessoas enxergarem-no com a maior indiferença e naturalidade a que se pode imaginar. Basta que façamos algumas rasas reflexões, para constatarmos o quão absurda é esta atual característica social; vamos a elas.

A diversidade e unicidade de nossas personalidades, provenientes de nossa já discutida variedade e unicidade genética, é o que faz (ou faria em um mundo com sistemas melhores) com que a raça humana seja um maravilhoso espetáculo de diversidade de aparências e ideias – por fora e por dentro somos particularmente diferentes em tudo, uns dos outros. Quando tentamos encaixar esta diversidade a um sistema que obriga cada um de nós a ganhar dinheiro para poder viver, ou na maioria dos casos sobreviver; uma das consequências mais óbvias é a de que vai haver sempre, necessariamente, pessoas que não conseguirão cumprir esta obrigatoriedade, e vão passar toda a sua vida privadas de suas condições de viver, como mendigos ou miseráveis que realmente e infelizmente existem e não são poucos.

Simplificando esta ideia, traduzindo-a para apenas uma frase, podemos concluir que um sistema que nos obriga a ganhar dinheiro para viver produz, invariavelmente, uma quantidade diferente de zero de pessoas que já nascem fadadas ao triste destino social de apenas existir entre o tempo de seu nascimento e sua morte, sem jamais ter condições de exercer seu garantido direito de viver. E agora, aquilo que nos aparentava ser tão óbvio, já parece absurdo o suficiente? Na verdade, este fato só é passível de aceitação porque nós, ao contrário destas pessoas, nascemos com um conjunto de características que, adicionadas às condições sociais daqueles que nos conceberam, nos permite nossa adequação ao sistema, nos permite ganhar dinheiro e, portanto, nos permite viver. Se fôssemos diferentes e estivéssemos no lugar destas pessoas, garanto que nosso posicionamento seria completamente diferente.

Parte desta frieza vil, que se traduz em nossa indiferença, e em muitos casos até em discursos de ódio para com estas vidas que são criadas e ao mesmo tempo descartadas por nossa sociedade, vulgarmente chamados de vagabundos e imprestáveis; provém também do próprio sistema. Por meio de memes e frases repugnantes como “se eu consigo, ele também consegue”, “todos somos capazes”, que “basta querer” ou “se esforçar” – e até a crença em ideias absurdas como a meritocracia – somos coagidos a projetar “a culpa” por aquela situação no próprio indivíduo, na própria vítima, absolvendo o verdadeiro e dissimulado culpado, que segue impune cometendo suas atrocidades globais.

A busca incessante pelo dinheiro também nos sugere uma constante competição social: disputamos por um lugar na escola, disputamos por uma vaga na universidade, disputamos por limitadas oportunidades de trabalho e, após vencermos, disputamos pela permanência em nosso emprego – passamos a vida em uma disputa sem fim, uns com os outros; tal qual agiam nossos ancestrais, disputando por recursos naturais para garantir sua sobrevivência (não evoluímos o suficiente para mudar este hostil comportamento primata?). Este tipo de comportamento social nos faz enxergar no outro a figura de um competidor, de um inimigo, de alguém que pode tomar o ‘nosso’ lugar nas oportunidades que tanto almejamos conseguir. Talvez isto explique nossa hostilidade social, nossa dificuldade em ser simpáticos e amigáveis uns com os outros, característica esta que se intensifica em locais onde a competição é mais acirrada e corriqueira, como em grandes cidades.

Ainda sobre a magnificência do dinheiro, podemos inferir que: sem trabalho significa sem dinheiro, e sem dinheiro significa sem vida. “trabalhe ou morra” se apresenta como o lema da muito bem disfarçada e institucionalizada escravidão do século XXI. Entretanto, muito mais inteligente do que uma escravidão declarada, onde as pessoas são forçadas a trabalhar a contragosto, o relojoeiro que tudo vê projetou as engrenagens de modo a fazer com que as pessoas, além de não saberem que são escravas, gostem da ideia.

Assim como na sociedade vislumbrada por Aldous Huxley, no clássico da literatura mundial ‘Admirável Mundo Novo’, nós amamos fazer aquilo que somos obrigados a fazer, resultando em uma sociedade majoritariamente estável. Aposto que o autor ficaria assombrado ao saber que chegamos a este ponto mesmo sem a necessidade de nenhuma engenharia genética, fator decisivo para tanto, em sua obra.

Neste ponto da discussão, deve pipocar em nossas cabeças uma intrigante e importante questão: Além da ignorância quanto a estes fatos, que outro fator faz com que aceitemos a isto tudo, quietos? E mais ainda, como dito nos parágrafos anteriores – que amemos o que fazemos e ser quem somos? Vamos à resposta.

Não é apenas o estilo de vida consumista que nos vende uma falsa ideia de felicidade e um sentido supérfluo para nossas vidas através de sonhos prontos e da satisfação em comprar produtos e aparelhos eletrônicos, como vimos em textos anteriores. Ao lado do consumismo, o OTIMISMO desenvolve o segundo mais importante papel em nos fazer pensar que somos felizes. O otimismo é também um estilo de vida, um senso comum que pode ser entendido como uma espécie de fé não religiosa, onde se acredita que todos somos felizes ou, no mínimo, que todos seremos felizes, um dia, e que tudo acabará bem, mesmo sem nenhuma evidência que corrobore com estas afirmações.

Sem saber como o sistema funciona, que o mundo não é feito para nós, e que vivemos apenas para manter tudo da assombrosa forma como está atualmente, acreditamos realmente que somos felizes e que não temos nada do que reclamar. A escolha dos parâmetros é o que mais nos cega em relação a este equivocadíssimo fato. Esbanjamos nossa felicidade por termos onde morar, por termos onde trabalhar e por termos condições de fazê-lo. Nos gabamos de ter saúde e de ter o que comer; mas este não seria o mínimo? Vez ou outra balbuciamos que “tem gente muito pior do que nós”, mas nunca lembramo-nos de que há também “gente muito melhor do que nós”. Ao medir o nível de nossa felicidade, olhamos sempre pra baixo, tendo a falsa impressão de que estamos no topo da escala de felicidade. Se corrigíssemos nossos parâmetros de comparação e começássemos a olhar pra cima, nos assustaríamos com a nossa verdadeira e ínfima posição nesta escala.

A religião e seus deuses, assuntos já amplamente discutidos em textos passados, estão intimamente ligados ao otimismo. Todas as ideias de um “pós-vida”, por mais variadas que sejam suas teorias, nos dão a certeza de que este duro período que vivemos na Terra é apenas passageiro, que iremos para algum outro lugar e que, portanto, tudo irá melhorar, um dia. Da mesma forma, a ideia de uma justiça perfeita e infalível provinda de um ser supremo nos conforta, no sentido de que mesmo o mundo funcione como discutimos exaustivamente até agora, podemos permanecer tranquilos, pois os responsáveis por tudo isto irão “pagar pelo que estão fazendo”. Para que lutar contra, ou tentar mudar isto tudo, se a justiça será feita, de qualquer forma? Uma população toda pensando desta forma é bastante conveniente para quem está no poder, não é mesmo? De fato, Deus é burguês, e a religião é o ópio do proletariado.

Desta forma, munido de frases como “só o melhor me acontece”, o vírus do otimismo se alastra e adoece a cada indivíduo, contaminando toda a população, que apresenta sintomas cada vez mais terríveis. Perdemos o ímpeto de lutar, a força e a motivação para mudar nossa situação, para mudar a situação do mundo todo, pois amamos ser quem somos, amamos estar na situação que estamos e louvamos a nossa própria miséria. O que deveríamos saber é que o conforto que o otimismo e a fé nos proporcionam não é páreo, nem de longe, para os malefícios sociais consequentes destas mesmas ideologias: a estagnação e a aceitação social de nossa situação, mesmo com todos os motivos que nos mostram que esta mesma situação é escandalosamente inaceitável.

Para finalizar o texto, resta apenas a resposta à pergunta feita no final do texto anterior: temos outra escolha, a não ser a de trabalhar para a manutenção do próprio sistema? Voltando ao coração do assunto, o fato de o dinheiro ser dotado de tamanha supremacia – o único meio através do qual podemos viver e, talvez, ser felizes – nos torna absurdamente dependentes dele, e isto já deve estar mais do que evidente, após o que acabamos de discutir ao longo de todo este texto. Sendo assim, nós podemos escapar da ignorância e falta de interesse, intrínsecas às grandes massas, de forma a descobrirmos como o mundo funciona, e qual o nosso verdadeiro e desprezível papel social; podemos ainda fugir ao senso comum danoso e ilusório do otimismo e da fé, deixando de gostar, de aceitar nossa posição social e tudo aquilo que somos obrigados a fazer durante a vida; mas não podemos, de forma alguma, escapar do sistema. Quem não obedece às suas regras, quem não trabalha para a sua manutenção, é automaticamente privado de suas condições de viver. A resposta, mais uma vez, é não: não temos outra escolha.

Com isto, finalizamos a discussão iniciada no texto anterior sobre a forma como o sistema se mantém. De fato, não há outra escolha senão trabalharmos para a manutenção do sistema, fazendo-o funcionar, indefinidamente. Somos ferramentas perfeitas para o relojoeiro, que nos molda em formas muito bem definidas, para servir à manutenção de seu complexo sistema de engrenagens, ponteiros, bateria; cada uma com um formato tão especificamente projetado para desempenhar uma função reparadora que, se não servir, é descartada, de imediato, para junto das ferramentas que já nascem com defeito de fabricação, e não têm nenhuma serventia desde o início. Enxergar que não há outra forma, não cessará nossas discussões, tampouco deve cessar nosso ímpeto pela mudança - ao contrário, enxergar os fatos, como realmente são, é fomentar ainda mais nossa sede pela busca de novas informações, de ainda mais entendimento, de outras alternativas; é nos tornar ainda mais insaciáveis em nossa já longa jornada em direção ao OUTRO LADO DA MOEDA.

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